O combate às mudanças climáticas encontrou um novo foco estratégico que promete resultados mais rápidos e imediatos: a redução das emissões de metano (CH4). A justificativa é técnica e urgente: apesar de permanecer na atmosfera por apenas 12 anos em média, o gás retém 86 vezes mais calor que o dióxido de carbono (CO2), sendo responsável por um terço do aumento de 0,5 °C na temperatura média global. Os números, alarmantes, foram detalhados durante o “Fórum Metano: Freio de Emergência Climática”, realizado na primeira edição da Rio Nature & Climate Week, evento que reuniu especialistas e gestores públicos no Rio de Janeiro. Com a concentração atual do gás duas vezes e meia maior que os níveis pré-industriais, a contenção das emissões de metano é vista como o “freio de mão” capaz de desacelerar a crise climática enquanto soluções de longo prazo para o CO2 são implementadas.
Por que o metano é o alvo prioritário no combate ao aquecimento global
A diferença crucial entre o metano e o CO2 está na escala de tempo e no poder de aquecimento. Enquanto o dióxido de carbono se acumula na atmosfera por séculos, formando uma camada duradoura de retenção de calor, o metano é um gás superpoluente que age com intensidade brutal em um curto período. Este comportamento faz com que cortar as emissões de metano produza um efeito de resfriamento quase imediato, um conceito que os climatologistas chamam de “freio de emergência”. “Parar com as emissões de metano significa ganhar tempo”, defendeu Ana Toni, CEO da COP 30, ocorrida em 2025 em Belém. Para ela, atacar o CH4 não é uma alternativa à descarbonização, mas um complemento indispensável para manter vivo o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.
Brasil ocupa o quinto lugar no ranking global de emissões de metano
O Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores emissores de metano do mundo, atrás apenas de China, Índia, Estados Unidos e Rússia. Dados do Observatório do Clima, compilados em 2025, mostram que as emissões brasileiras cresceram 6% entre 2020 e 2023, um cenário que coloca o país em uma posição delicada, mas também repleta de oportunidades. O motor principal dessa emissão é o setor agropecuário, responsável por 75,6% do total — o equivalente a 15,7 milhões de toneladas em 2023. O segundo maior emissor é o setor de resíduos, com 3,1 milhões de toneladas no mesmo período. Essa concentração revela que a solução para o problema brasileiro passa, inevitavelmente, por mudanças estruturais na produção de alimentos e no tratamento de lixo urbano.
O papel dos dados no monitoramento das emissões
Diagnosticar o problema com precisão é o primeiro passo para resolvê-lo. Segundo Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, o Brasil possui o que há de mais avançado em termos de informação sobre o uso da terra e emissões. O MapBiomas, rede global que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia, monitora as transformações na cobertura do solo há uma década e hoje opera em 14 países. Outra ferramenta de destaque é o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, que compila dados de emissões brasileiras desde 1970 e é considerada uma das maiores bases do mundo. No entanto, Azevedo alerta para um entrave recente: a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revogou a obrigatoriedade do reporte de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, tornando a medida voluntária. “Isso cria opacidade no que se precisa conhecer especificamente de algumas indústrias”, explica.
Soluções de baixo carbono já disponíveis para o agro e resíduos urbanos
Diferentemente do desafio de descarbonizar a matriz energética global, que envolve décadas de transição e investimentos pesados, reduzir as emissões de metano é considerado um “low-hanging fruit”, ou “fruta ao alcance das mãos”. As tecnologias existem, são economicamente viáveis e podem ser aplicadas imediatamente. No campo, a maior eficiência na criação de gado, com melhoramento genético, manejo de pastagens e suplementação alimentar, pode reduzir a fermentação entérica, maior fonte de metano na pecuária. Já nas cidades, a coleta seletiva aliada à compostagem de resíduos orgânicos retira o material dos aterros, onde ele se decompõe e libera metano. Outra solução defendida no fórum foi o uso de biodigestores, que transformam resíduos orgânicos em biogás para produção de energia elétrica e fertilizantes, fechando um ciclo produtivo e evitando a emissão do gás.
A barreira estrutural que impede a ação individual
A implementação dessas soluções, no entanto, esbarra em um gargalo que não pode ser resolvido apenas pela conscientização individual. “Eu não tenho escolha. A cidade não está desenhada para ser uma pessoa melhor para o meio ambiente”, avaliou Kamila Camilo, do Instituto Oyá, durante o fórum. A fala ecoa uma realidade brasileira: de nada adianta o cidadão separar o lixo orgânico se o município não oferece coleta seletiva ou compostagem comunitária. A transição para uma economia de baixo metano exige uma arquitetura de políticas públicas e investimentos privados coordenados. Sem a infraestrutura adequada, a conta não fecha. O desafio, portanto, não é apenas técnico ou econômico, mas de engenharia social e governança, onde a simples oferta de soluções precisa ser acompanhada pela capacidade do poder público de desenhar cidades e cadeias produtivas que viabilizem a escolha sustentável.
