A poucas semanas do IPO da SpaceX, o CEO Elon Musk entrou em contradição direta com o próprio documento de registro da empresa junto à SEC (Securities and Exchange Commission) dos Estados Unidos. Em uma postagem na plataforma X no dia 28 de maio de 2026, Musk afirmou que o contrato de locação de capacidade computacional do supercomputador Colossus com a Anthropic tem duração de apenas 180 dias, com possibilidade de rescisão mútua mediante aviso prévio de 90 dias. O problema é que o formulário S-1, protocolado pela SpaceX oito dias antes, descreve exatamente o oposto: um contrato de três anos, com pagamentos mensais de US$ 125 milhões até maio de 2029.
O formulário S-1, apresentado em 20 de maio de 2026, é o documento que marca o pedido formal de abertura de capital da SpaceX, com estreia na bolsa prevista para 8 de junho. Em pelo menos quatro passagens do documento — incluindo as páginas F-62, F-96, e trechos das páginas 13 e 146 — a empresa afirma que celebrou um contrato de serviços de nuvem com a Anthropic em 3 de maio de 2026, e que a parceira concordou em pagar uma taxa mensal de US$ 125 milhões (cerca de 200 bilhões de ienes, ou aproximadamente R$ 625 milhões) até maio de 2029. Todas as quatro ocorrências são consistentes e trazem a mesma redação: pagamento mensal fixo por um período de 36 meses. O documento ainda menciona a existência de uma cláusula de rescisão com aviso de 90 dias, mas dentro do contexto de um contrato de longo prazo — o que é uma prática padrão para dar flexibilidade a ambas as partes, não para transformar a vigência em seis meses.
A divergência explícita veio oito dias depois. Em 28 de maio, Musk respondeu a um usuário que interpretava o acordo como de três anos. A réplica foi direta: “SpaceX não se comprometeu a alugar o Colossus por anos, embora seja possível que isso acabe acontecendo. Este é um lease de 180 dias, com cancelamento mútuo mediante aviso de 90 dias a partir de então. O curto prazo foi um pedido nosso, não da Anthropic”. Musk ainda acrescentou que, se a demanda por poder computacional apertar, a SpaceX pode pedir o equipamento de volta.
A diferença de 6 vezes que pode abalar o IPO
O que está em jogo não é apenas uma divergência de interpretação contratual. Os números são de magnitudes dramaticamente diferentes. Se o contrato é de três anos, o valor total chega a aproximadamente US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 22,5 bilhões). Se for de seis meses, o montante máximo gira em torno de US$ 750 milhões — uma diferença de seis vezes. Para efeito de comparação, a valuation pretendida pela SpaceX no IPO está na faixa de US$ 175 a 200 bilhões. Um contrato plurianual desse porte representa uma âncora de receita previsível e de alto valor para o segmento de AI da empresa, que foi incorporado com a aquisição da xAI em fevereiro de 2026. Já um lease de seis meses soa como um aluguel emergencial, incapaz de gerar a mesma confiança entre investidores institucionais.
A tabela abaixo resume o impacto financeiro de cada versão:
| Cenário | Prazo | Valor mensal | Valor total estimado | Impacto na receita do segmento AI |
|---|---|---|---|---|
| Contrato de 3 anos (S-1) | Maio/2026 a Maio/2029 | US$ 125 milhões | US$ 4,5 bilhões | Alto: receita contratada garantida por 36 meses |
| Lease de 180 dias (Musk) | 6 meses + aviso 90 dias | US$ 125 milhões | Até US$ 750 milhões | Baixo: receita pontual, sem visibilidade futura |
O documento S-1 é uma declaração legal com força de disclosure obrigatório perante a SEC. Se a versão de Musk estiver correta, o S-1 contém informações materialmente falsas sobre o contrato mais relevante do segmento de AI da SpaceX — o que configuraria uma violação grave das leis de valores mobiliários. Se o S-1 estiver correto, então o próprio CEO está desmentindo publicamente o documento oficial da empresa às vésperas do IPO, gerando incerteza e potencial desconfiança no mercado.
Por que a SpaceX alugou o Colossus para a Anthropic?
Para entender o contexto completo, é preciso recuar até fevereiro de 2026, quando a SpaceX concluiu a aquisição da xAI por meio de uma troca de ações. A avaliação combinada foi de US$ 1,25 trilhão — US$ 1 trilhão da SpaceX e US$ 250 bilhões da xAI. A divisão de AI da xAI, no entanto, não era exatamente um negócio saudável. Em 2025, a receita foi de US$ 3,2 bilhões, mas o prejuízo operacional atingiu US$ 6,4 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, a receita de US$ 818 milhões veio acompanhada de um prejuízo operacional de aproximadamente US$ 2,5 bilhões.
O Grok, principal produto da xAI, tinha 117 milhões de usuários ativos mensais em março de 2026 — apenas cerca de 2% dos 550 milhões de usuários da plataforma X. O supercomputador Colossus, construído com investimentos bilionários, ficou com capacidade ociosa significativa. O contrato com a Anthropic, portanto, foi uma solução inteligente para monetizar esse excedente antes do IPO. Do outro lado, a Anthropic também estava sob pressão: a demanda explosiva pelo Claude Code fez a ARR (receita recorrente anual) saltar de US$ 9 bilhões no final de 2025 para US$ 30 bilhões em abril de 2026, e a empresa precisava desesperadamente de infraestrutura computacional imediata.
Ou seja, ambas as empresas tinham incentivos claros para fechar um acordo. O ponto crítico é se esse acordo foi estruturado como uma parceria de três anos (conforme o S-1) ou como um aluguel de curto prazo (conforme Musk). A diferença não é apenas contábil — ela altera a percepção de risco e de geração de valor do segmento de AI para os futuros acionistas da SpaceX.
O que está em jogo para o investidor
Para o investidor que está avaliando a compra de ações da SpaceX no IPO, a dúvida é central. Se o contrato com a Anthropic for de três anos, a SpaceX garante uma receita contratada de US$ 1,5 bilhão por ano apenas desse cliente, o que ajuda a justificar a valuation elevada e demonstra que há demanda externa pela capacidade computacional do Colossus. Se for um lease de seis meses, a receita é incerta e o segmento de AI continua fortemente deficitário, dependendo exclusivamente do crescimento orgânico do Grok.
Nem a SpaceX nem a Anthropic comentaram oficialmente a divergência além da postagem de Musk. O contrato em si não foi divulgado publicamente. Mas a contradição expõe um ponto sensível: em pleno período de roadshow do IPO, o CEO da empresa emissora contradiz abertamente o principal documento de disclosure. Para um investidor institucional, isso é um sinal de alerta vermelho. Para a SEC, pode ser motivo para questionar a acuracidade das informações prestadas.
O roadshow da SpaceX está agendado para começar em 8 de junho de 2026. Até lá, o mercado precisará decidir em que acreditar — na letra do S-1 ou na palavra do fundador.

