O Grilo celebra cinco anos de ‘Você Não Sabe de Nada’ com turnê nacional e revela bastidores do disco que definiu sua carreira

Cinco anos após o lançamento do álbum de estreia que redefiniu o cenário do rock independente brasileiro, a banda paulistana O Grilo se prepara para uma celebração que vai muito além de uma simples turnê comemorativa. A turnê “Você (Ainda) Não Sabe de Nada” marca não apenas o aniversário do disco, mas um ponto de inflexão na trajetória do quarteto formado por Pedro, Felipe (Fepa), Teixeira e Cavallari, que evoluiu de promessa do underground para atração de grandes festivais como Lollapalooza Brasil e Rock in Rio.

O legado de um álbum que profissionalizou a banda

Em entrevista exclusiva, os integrantes revelam que “Você Não Sabe de Nada” (2021) representou muito mais do que um conjunto de 13 faixas. “Aquele foi um álbum de ‘primeiro encontro’ da banda com esta formação”, explica Teixeira. “Quando o Fepa entrou, tivemos um ano bem caótico em termos de agenda – teve o Lolla, começamos a abrir shows maiores e houve um movimento de profissionalização. O álbum veio no momento em que conseguimos, pela primeira vez, cuidar da relação entre a gente.” Segundo o baterista, essa lição permanece como marca registrada do grupo até hoje, sendo fundamental para sustentar a carreira ao longo dos anos.

A evolução técnica e os desafios de tocar o repertório ao vivo

Um dos aspectos mais reveladores da entrevista é a confissão sobre as dificuldades técnicas que as músicas do primeiro álbum ainda apresentam. “Acho o VNSDN mais difícil de tocar do que o TUDO ACONTECE AGORA”, admite Teixeira. “No disco novo, a gente escolhe uma vibe e vai atrás dela, enquanto no primeiro a gente tava com a mente livre: qualquer coisa podia acontecer. Poderíamos sair de um funk para um som pesadão, ou de uma guitarrada para o hardcore.” Essa característica “remendada” e experimental, que mistura indie rock, axé, psicodelia e outros gêneros, exige dos músicos um preparo técnico que só veio com anos de estrada.

“Contramão” continua sendo o maior desafio nos ensaios

A faixa “Contramão” se mantém como uma das mais desafiadoras do repertório, exigindo dos músicos domínio de transições entre samba, samba-rock e rock pesado. “Nos últimos anos, estudamos bastante para tocar hoje sem preocupação!”, afirma Teixeira, revelando que a banda precisou mergulhar em teoria musical para dominar as complexidades da composição. Pedro complementa: “A parte mais difícil é a convenção mesmo. Toda hora tem uma ‘convençãozinha’.”

Releituras e novas interpretações para clássicos

A turnê promete não ser uma simples reprodução do álbum na ordem original. Os integrantes confirmam que trabalham em releituras e rearranjos que refletem a maturidade conquistada nos últimos anos. “Muita coisa muda: em ‘Meu Amor’ colocamos um solo e uma parte nova; em ‘Trela’ incrementamos um jazz no meio”, exemplifica Teixeira. Essa prática de reinventar as próprias músicas já havia sido experimentada no álbum “TUDO ACONTECE AO VIVO”, e agora será aplicada ao repertório do disco de estreia.

As músicas “injustiçadas” que podem ganhar nova vida

Os músicos expressam esperança de que o público redescubra faixas que não alcançaram o mesmo destaque inicial. Cavallari aposta em “Onde Flor”: “Dentre todas as viagens do álbum, ela é uma música que poderia chegar em muito mais pessoas.” Pedro menciona “Meu Pior Amigo” e “Tudo e Mais um Pouco” como composições que merecem reconhecimento: “Se não tivéssemos feito o VNSDN naquele momento específico, talvez hoje não as lançaríamos por serem ‘esquisitas’. E, por serem esquisitas, elas são mais autênticas.”

O fenômeno do TikTok e a redescoberta de “Guitarrada”

Teixeira revela um fenômeno recente que surpreendeu a banda: “‘Guitarrada’ começou a viralizar no TikTok e eu achei animal. É legal ver ‘Serenata Existencialista’ estourar e tal, tem esse apelo jovem/adolescente, mas ‘Guitarrada’ traz algo diferente, que conecta as pessoas com algo que elas nem sabiam que existiam, mesmo sendo brasileiros.” Essa redescoberta através das redes sociais demonstra como o álbum continua encontrando novas audiências cinco anos após seu lançamento.

A abertura da turnê e os momentos de plot twist

Questionados sobre como seria a estrutura do show se fosse um filme de Tarantino, os integrantes revelam detalhes da concepção do espetáculo. “A gente sempre gostou muito de ‘Trela’ para abrir”, confessa Teixeira. “Tem aquela ‘caixada’ no início da bateria que não dava para tirar; era algo que eu fazia de improviso nos ensaios para puxar a banda, mas virou algo tão marcante que quando a gente dá o play no álbum e ouve aquele ‘pá’, é tipo: ‘Ok, vamos escutar uma longa história daqui para frente’.” Para o momento de plot twist, Pedro sugere “Infinito (-1)”: “Você não espera que a música vá para aquele lugar ‘Pink Floydiano’, com violão em cinco tempos, mudanças rítmicas e solos espaciais.”

O personagem Lauro: como ele envelheceria com a banda

Uma curiosidade revelada na entrevista é a reflexão sobre como o personagem Lauro – figura central da identidade visual do álbum – teria evoluído junto com a banda. Cavallari brinca: “Com certeza estaria reclamando! Estaria depressivo e noiado com a Terceira Guerra Mundial ou com uma próxima pandemia.” Pedro complementa com uma visão mais filosófica: “Acho que o Lauro é um cara que, há cinco anos, gostava de imaginar como estaria melhor hoje; e agora ele está se imaginando daqui a cinco anos… e não acho que a coisa vá melhorar tanto assim.”

A conexão geracional e o crescimento da base de fãs

Um dos aspectos mais emocionantes da turnê, segundo os integrantes, é testemunhar a evolução do público. “Tem gente que conheceu a banda com 8 anos e hoje tem 15; outros estavam na faculdade e hoje têm 25”, observa Teixeira. “Essa turnê foi a que mais vendeu ingressos nas primeiras semanas de toda a nossa história. As pessoas querem se conectar com quem elas foram e ressignificar isso.” Pedro destaca a importância simbólica de revisitar locais como o Cine Joia: “Antes, a gente penava para botar 250 pessoas num show; aí saímos da pandemia, fazer o nosso primeiro show e estreamos lá com 1.200 pessoas gritando.”

Expansão geográfica e novas fronteiras

A turnê “Você (Ainda) Não Sabe de Nada” representa não apenas uma celebração temporal, mas também geográfica. Pela primeira vez, a banda levará seu show a cidades como Natal, expandindo seu alcance nacional. “Estamos muito gratos por isso!”, afirma Pedro, destacando o privilégio de poder conectar-se com públicos em regiões antes inacessíveis.

Os bastidores engraçados e as memórias da gravação

Quando questionados sobre quem seria o primeiro a ser atacado por mosquitos se tivessem que regravar “Malabarista de Granadas” no meio do mato – referência às condições da gravação original – a resposta é unânime: Cavallari. “Com certeza eu. Eu sempre me lasco, tenho a pele fina”, admite o baixista, enquanto Pedro brinca sobre suas próprias reações alérgicas. Fepa, por outro lado, se vangloria: “Eu ficaria suave, estaria fazendo um churrasco enquanto eles eram picados.”

O futuro visto do passado: o que enviariam para si mesmos em 2017

Em um exercício de reflexão, os integrantes revelam o que enviariam para suas versões mais jovens, da época da gravação de “Herói do Futuro”. Teixeira escolheria o livro da banda: “Meu sonho era fazer música e construir uma marca por trás dela. Eu me orgulharia muito se visse esse livro naquela época.” Cavallari opta por um objeto simbólico: “Eu enviaria a plaquinha do camarim do Lollapalooza 2023!” Pedro, com pragmatismo humorado, surpreende: “Eu enviaria os números da última Mega-Sena da Virada. Ia pagar a turnê internacional, ia pagar tudo!”

Influências musicais que moldaram os integrantes

Ao final da entrevista, quando questionados sobre álbuns fundamentais em suas vidas pessoais (não apenas como artistas), as respostas revelam a diversidade de influências que convergem no som d’O Grilo. Cavallari cita o álbum homônimo do Audioslave; Fepa menciona, com humor, “Greatest Hits” do Queen; Teixeira elege “Is This It” do The Strokes; e Pedro surpreende com “O Grande Circo Místico” de Edu Lobo e Chico Buarque.

A turnê “Você (Ainda) Não Sabe de Nada” se configura, portanto, como muito mais do que uma série de shows comemorativos. É um ritual de passagem, um reencontro entre artistas e público, e uma demonstração de como a música pode criar pontes temporais que unem diferentes fases da vida. Cinco anos depois, O Grilo prova que algumas descobertas só fazem sentido quando revisitadas com a bagagem da estrada, e que a maturidade não significa abandonar a essência, mas sim entendê-la em novas camadas. As apresentações, que percorrerão São Paulo, Porto Alegre, Natal, Manaus e outras cidades, prometem ser tanto uma celebração do passado quanto uma afirmação do presente – e talvez uma pista do que ainda está por vir.

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