O trebuchet — ou trabuco, como ficou conhecido em português — foi a mais poderosa arma de cerco antes da pólvora, capaz de arremessar rochas de quase cem quilos a centenas de metros com velocidade devastadora. Durante séculos, historiadores e arqueólogos sabiam que essas máquinas destruíam muralhas, mas nunca haviam encontrado uma única evidência direta de que um projétil tivesse atingido e matado um ser humano. Até agora. Pesquisadores confirmam a primeira vítima fatal de um trebuchet na história, e o caso envolve o “Lobo de Guerra”, o maior exemplar já construído, o cerco ao Castelo de Stirling, na Escócia, e o que só pode ser descrito como o homem mais azarado do século XIV.
A descoberta do Esqueleto 150
Durante o 25.º Encontro da Associação Europeia de Paleopatologia, realizado em Berlim entre 3 e 7 de agosto de 2026, a Dra. Jo Buckberry, da Universidade de Bradford, apresentou as evidências que mudaram o entendimento sobre o uso letal do trebuchet. O estudo se concentrou em um conjunto de restos mortais encontrados na capela do Castelo de Stirling, uma das fortificações mais antigas da Escócia e palco do último foco de resistência durante a Primeira Guerra de Independência escocesa, aquela que envolveu William Wallace.
Entre todos os esqueletos ligados ao cerco imposto pelas forças do rei Eduardo I — apelidado de “Martelo dos Escoceses” —, um chamou a atenção pelo estado de destruição. Batizado de “Esqueleto 150”, ele estava em condições muito piores que os demais, mesmo considerando os mais de 700 anos de idade. A parte superior do corpo estava, na falta de termo melhor, esmigalhada. O crânio foi encontrado partido em 61 fragmentos; as costelas viraram 60 pedaços separados; o ombro direito estava quebrado; e o fêmur direito, literalmente pulverizado.
Análise forense aponta para um projétil de trebuchet
A equipe da Dra. Buckberry submeteu os ossos a uma bateria de exames: raios-X, tomografia computadorizada, análises microscópicas e técnicas forenses modernas. Todos os resultados convergiam para a mesma conclusão: algo muito grande e se movendo muito rápido acertou o pobre “150” em cheio, por trás e pela direita. O impacto despedaçou o crânio e quebrou o ombro, enquanto o peso do objeto destroçou o resto da parte superior do corpo.
As fraturas eram “frescas”, o que significa que não foram causadas por alguém jogando uma pedra sobre um cadáver — a vítima estava viva quando foi atingida. Os pesquisadores descartaram outras causas comuns em cercos medievais, como ser pisoteado por um cavalo, atropelado por uma carroça ou esmagado pela queda de uma muralha. O único cenário que se encaixava perfeitamente era um projétil voador enorme, lançado por um trebuchet.
Buckberry destacou que os traumas mais semelhantes a esse nível de destruição são encontrados em ocorrências modernas, como pessoas atropeladas por carros ou atingidas por trens. Um trebuchet de contrapeso “padrão” podia lançar rochas de aproximadamente 90 kg a centenas de metros de distância, a velocidades entre 160 e 320 km/h. A física da arma é similar à de uma funda: o contrapeso preenchido com pedras pesa de 10 a 100 vezes mais que o projétil; quando solto, o momentum projeta o bólido em arco.
O “Esqueleto 150” foi encontrado entre outros oito corpos sepultados sob a capela, provavelmente escoceses aquartelados durante o cerco. Cinco deles — incluindo uma mulher de meia-idade e um adolescente — tinham marcas de combate compatíveis com sabres e até um martelo de guerra. Apenas um dos sepultados, o cavaleiro inglês Sir John de Stricheley, era nobre o bastante para ser identificado após sua morte em 1341; seu esqueleto mostrava ferimentos de combate que cicatrizaram ao longo do tempo. Os demais, com datação confirmada por volta de 1304, eram provavelmente escoceses abatidos na ocasião, “150” incluso.
O Lobo de Guerra e o cerco de Stirling
O Cerco de Stirling, em 1304, empregou diversos trebuchets e outras armas de cerco inglesas, mas foi palco para o teste de um modelo que estava bem longe dos padrões. Conhecido como “Lobo de Guerra”, esse exemplar é referido como o maior trebuchet já construído na história, embora suas dimensões exatas não tenham sobrevivido ao tempo. O que se sabe é que Eduardo I, impaciente com o cerco prolongado, ordenou a construção de uma máquina grande o bastante não apenas para superar as tradicionais, mas também para funcionar como arma de intimidação — algo como uma bomba atômica medieval: você não precisa usá-la para mostrar quem é que manda.
Segundo relatos de sobreviventes, o “Lobo de Guerra” era tão grande que suas peças ocupavam “30 carroças” e exigiu o trabalho de cinco mestres-carpinteiros, um dos profissionais mais especializados da Idade Média. A visão do apetrecho teria aterrorizado o comandante de Stirling, o escocês Sir William Oliphant, que se rendeu para não ver aquela coisa medonha em ação. O problema é que Eduardo I ignorou a rendição: ele queria testar o “Lobo de Guerra” de qualquer jeito. Uma demonstração da arma também mandaria um recado a qualquer um que voltasse a desafiá-lo, fossem escoceses ou galeses, que haviam sido anexados antes.
O rei inglês ordenou carregar o super trebuchet com um projétil de aproximadamente 140 kg e lançá-lo. A pedra atravessou duas camadas da muralha de uma só vez. Uma das descrições da época diz que era como ver uma flecha atravessando “um alvo de tecido ou papel”. Não há registros de que o “Lobo de Guerra” tenha sido usado uma segunda vez, e nem há consenso entre historiadores sobre a primeira — justamente a que pode ter matado o “Esqueleto 150”.
O trebuchet e outras armas de cerco foram desenvolvidas para romper defesas, nunca para atingir soldados diretamente. “150” só foi extremamente azarado ao estar no lugar errado, na hora errada. A ironia final? Os ingleses perderam a guerra. A Escócia garantiu sua independência e coroou em 1306 Roberto, o Bruce, como Roberto I. O país só seria anexado em 1707, quando da formação do Reino Unido.
O estudo da Dra. Buckberry não apenas confirma o primeiro caso documentado de morte direta por um trebuchet, como também abre uma janela para entender a violência e o cotidiano dos cercos medievais sob uma perspectiva forense. A análise microscópica dos ossos do “Esqueleto 150” mostrou padrões de fratura compatíveis com impacto de alta energia — algo que, até então, só se via em vítimas de acidentes automobilísticos na medicina legal moderna. A pesquisa foi publicada nos anais do encontro de paleopatologia e repercutiu em veículos como Science e Ars Technica.
Resposta direta: Como um trebuchet pode matar uma pessoa?
Um trebuchet de contrapeso lança projéteis de pedra de 90 kg ou mais a velocidades entre 160 e 320 km/h. O impacto de um objeto com essa massa e velocidade é equivalente a ser atingido por um carro em alta velocidade. As fraturas observadas no “Esqueleto 150” — crânio em 61 fragmentos, costelas em 60 pedaços, fêmur pulverizado — são idênticas às de vítimas de atropelamentos fatais. A diferença é que, no cerco de Stirling, o projétil não era um veículo, mas uma rocha lançada pelo maior trebuchet já construído, o “Lobo de Guerra”.
O feito confirma o que muitos historiadores suspeitavam, mas nunca puderam provar: embora as armas de cerco tenham sido projetadas para derrubar muralhas, em condições extremas de azar, um tiro certeiro podia matar um soldado do lado errado da fortificação. A pesquisa reforça a ideia de que a tecnologia medieval, quando aplicada em escala, não poupava ninguém — nem mesmo aqueles que estavam apenas no lugar errado, na hora errada.

