Quando você digita um prompt no ChatGPT ou gera um vídeo com IA, os servidores que processam aquela requisição estão consumindo muito mais do que energia elétrica. Eles estão drenando recursos naturais escassos, gerando toneladas de lixo eletrônico e transferindo os custos socioambientais para comunidades que vivem próximas a minas e data centers, enquanto os lucros se concentram nas mãos das big techs. Esse fenômeno, batizado de neoextrativismo digital, expõe uma face oculta da inteligência artificial: a dependência de uma cadeia global de extração mineral que opera com pouca transparência e regulação.
A infraestrutura física da nuvem
A ideia de que serviços de IA funcionam “na nuvem” esconde uma realidade material pesada. Cada consulta a um modelo de linguagem ou geração de imagem exige servidores, redes, chips especializados e sistemas de resfriamento — todos fabricados com minerais e metais raros. Existem cerca de 12 mil data centers no planeta, dos quais 1.360 são classificados como de hiperescala, ou seja, instalações com capacidade massiva de processamento. Só a Meta está construindo em Louisiana, nos EUA, um complexo de 930 mil metros quadrados com investimento superior a US$ 50 bilhões.
O consumo energético dessas instalações é astronômico. A Agência Internacional de Energia estima que os data centers de IA consumiram 485 terawatts-hora em 2025, e projeta 950 TWh para 2030 — o equivalente a centenas de milhões de painéis solares. Embora as empresas anunciem uso de energia renovável, os próprios equipamentos de geração solar e eólica dependem de minerais como silício, cobre e terras raras. Além disso, os servidores são substituídos a cada poucos anos, gerando entre 1,2 milhão e 5 milhões de toneladas de lixo eletrônico até 2030, segundo estudo da Nature. Metais valiosos se perdem e passivos ambientais se acumulam.
Das minas aos chips: a cadeia global de suprimentos
A fabricação de um único chip ou servidor mobiliza entre 50 e 350 vezes seu peso em matérias-primas. Cobre, silício, gálio, germânio, tântalo, terras raras, prata, ouro, metais do grupo da platina e cobalto são ingredientes essenciais. A extração desses materiais, no entanto, ocorre majoritariamente em países em desenvolvimento, onde os custos humanos e ambientais são elevados.
A República Democrática do Congo responde por cerca de 73% da produção mundial de cobalto em 2025. Investigações documentaram trabalho infantil, acidentes fatais e exposição a substâncias tóxicas nas minas congolesas, um dos países mais pobres do mundo. A Indonésia, responsável por dois terços do níquel global, enfrenta contaminação de ecossistemas e conflitos territoriais, além de depender de carvão no processamento. Chile e Peru, líderes na produção de cobre, registram exposição de comunidades a metais pesados. No Triângulo do Lítio (Chile, Argentina e Bolívia), a extração de salmouras pressiona recursos hídricos em regiões áridas. Na China, a mineração de terras raras contamina água e solo. Em Mianmar, grupos armados controlam áreas de extração, com casos documentados de poluição e coerção.
| Mineral | Principal produtor (2025) | Impactos documentados |
|---|---|---|
| Cobalto | República Democrática do Congo (~73%) | Trabalho infantil, acidentes, exposição tóxica |
| Níquel | Indonésia (~66%) | Contaminação, conflitos, uso de carvão |
| Cobre | Chile, Peru | Exposição a metais pesados |
| Lítio | Chile, Argentina, Bolívia | Pressão sobre recursos hídricos |
| Terras raras | China, Mianmar | Contaminação água/solo, coerção |
Para chegar aos data centers, esses minerais passam por comerciantes, refinadoras e fabricantes. Em Rubaya, Congo, minas que respondem por cerca de 15% do tântalo mundial (usado em capacitores eletrônicos) estão sob controle do grupo armado M23 desde abril de 2024. A ONU estimou que o grupo arrecada aproximadamente US$ 800 mil mensais com a exploração. Em junho de 2026, a ONU relacionou o coltan da região à empresa Ningxia Orient Tantalum, que aparece na cadeia de fornecedores declarada pela Nvidia. A Ningxia nega a origem conflituosa, mas o episódio expõe a fragilidade das auditorias. As próprias empresas líderes reconhecem que informações de fornecedores podem ser incompletas ou fraudulentas.
O caso do ouro brasileiro
No Brasil, uma investigação de 2022 identificou conexões entre o ouro extraído ilegalmente de terras indígenas e refinadoras nas cadeias de Apple, Google, Microsoft e Amazon. O ouro, usado em contatos elétricos e componentes, entra na fabricação de servidores e dispositivos. A cadeia mineral que alimenta a IA, portanto, não está imune a crimes ambientais e violações de direitos.
Água sob pressão e sigilo nas informações
O resfriamento evaporativo e a geração elétrica dos data centers consomem volumes expressivos de água. Nos EUA, estima-se consumo direto de 66 bilhões de litros por ano, mais 800 bilhões de litros associados à eletricidade. O impacto varia com o clima local. No Brasil, uma reportagem de 2025 identificou que, dos 22 projetos de data centers em análise pelo governo, cinco estavam em municípios com secas recorrentes. Em Caucaia, Ceará, onde está previsto um empreendimento vinculado ao TikTok, foram registradas emergências por seca em 16 anos entre 2003 e 2024. O governo do Ceará negou acesso à documentação técnica, alegando segredo comercial.
Esse sigilo não é exceção. Uma investigação de 2026 mostrou que empresas intermediárias conduzem licenciamento ambiental no Brasil sem revelar as big techs por trás dos projetos. Situação semelhante ocorre na Espanha, Chile e México, onde autoridades negam dados de consumo de água de data centers da Amazon Web Services, sob alegação de confidencialidade comercial. Sem informações, comunidades e pesquisadores não conseguem avaliar os impactos reais.
Incentivos públicos e responsabilidade empresarial
A governança do neoextrativismo digital também passa pelo uso de recursos públicos para atrair investimentos. Em setembro de 2026, o Brasil sancionou a Lei 15.504, que cria o Redata — regime de incentivos tributários para data centers. As contrapartidas incluem uso de energia renovável, eficiência hídrica e publicação de relatórios de sustentabilidade. A eficácia dessas obrigações, no entanto, depende de fiscalização e transparência.
O que está em jogo é a capacidade de romper com a lógica que concentra benefícios nos países ricos e nas grandes corporações, enquanto transfere custos para os territórios fornecedores de recursos. Empresas que projetam chips, contratam fornecedores ou operam data centers devem responder pelas condições que sustentam seus negócios — desde as minas até o descarte dos equipamentos. Comunidades que convivem com extração mineral e disputam água com data centers precisam participar das decisões antes que os investimentos definam seu futuro sem consentimento.
A inteligência artificial não é imaterial. Ela se assenta sobre uma infraestrutura que exige mineração intensiva, energia e água. Enquanto a cadeia de suprimentos permanecer opaca e as responsabilidades difusas, o neoextrativismo continuará a operar como uma nova fronteira de exploração, onde os lucros vão para o norte global e os custos ficam no sul. A regulação, a transparência e a participação comunitária são os únicos caminhos para que a IA não se torne apenas mais uma tecnologia que aprofunda desigualdades históricas.

