Os números divulgados pela Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) nesta semana são um retrato gritante de uma crise que se instala nos aeroportos e dentro das aeronaves. Em 2025, foram registrados 1.764 episódios de passageiros indisciplinados, um aumento de 66% em relação aos 1.059 casos do ano anterior. Este crescimento vertiginoso, que transforma eventos isolados em uma tendência alarmante, ocorre em um cenário de retomada plena do transporte aéreo e expõe fraturas profundas na relação entre companhias, tripulações e o público que volta a ocupar massivamente os assentos.
O Peso do Agora
Até ontem, o passageiro problemático era tratado como uma anomalia estatística, um caso isolado de estresse pós-pandêmico ou simples má educação. As companhias aéreas investiam em treinamento de conflito para comissários, mas o foco operacional permanecia na pontualidade, na eficiência logística e na recuperação financeira. O consenso era de que, com a normalização dos voos e o fim das restrições sanitárias mais intrusivas, a tensão nos aeroportos diminuiria. Os dados de 2024, embora elevados, eram vistos como um resquício de um período conturbado. A expectativa era de consolidação, não de explosão.
Os 1.764 episódios de 2025, no entanto, representam uma ruptura clara com essa narrativa de normalização. Não se trata mais de um gotejar de incidentes, mas de uma média de quase cinco casos por dia em todo o país. Este número, que já é assustador por si só, é apenas a ponta visível do iceberg. Ele não captura os conflitos contidos pela diplomacia da tripulação, as discussões acaloradas na fila do check-in que não escalaram para uma ocorrência formal, ou o clima de hostilidade latente que tripulantes e agentes de aeroporto relatam sentir com frequência crescente. O dado da Abear é a confirmação estatística de que algo fundamental na dinâmica do voo comercial quebrou.
Desmontando a Tempestade Perfeita
Para entender a dimensão do problema, é preciso ir além do número total e analisar a natureza dos incidentes. A Abear classifica os casos em categorias que vão desde desobediência às instruções da tripulação e consumo de bebida alcoólica de origem não permitida, até os mais graves: agressões verbais ou físicas, tentativas de abertura de portas durante o voo e interferência com os dispositivos de segurança. O crescimento de 66% não foi homogêneo; as ocorrências de maior gravidade, aquelas que envolvem confronto direto e colocam em risco a segurança operacional, tiveram um incremento ainda mais significativo.
O Fator Congestionamento e o “Novo Normal” da Aviação
Um dos motores por trás dos números é o próprio sucesso da retomada. Em 2025, o tráfego aéreo doméstico no Brasil não apenas recuperou os níveis pré-pandemia como os superou em diversos corredores. Aeroportos como Congonhas, Santos Dumont e Guarulhos operam no limite de sua capacidade, especialmente em horários de pico. Este cenário cria uma cascata de estressores: check-in e embarque apressados, filas intermináveis nos raios-X de segurança, voos lotados com espaço mínimo entre poltronas, e uma sensação generalizada de desconforto e falta de controle. O passageiro, que já chega ao aeroporto com seus próprios níveis de ansiedade elevados, é submetido a um processo que parece desenhado para testar seus limites. A gota d’água pode ser um atraso mínimo, a cobrança por uma bagagem de mão um centímetro maior, ou simplesmente a solicitação para desligar um celular.
A Desumanização do Processo e a Erosão da Autoridade
Paralelamente, a experiência de voar tornou-se progressivamente mais impessoal e burocrática. O check-in online, o autoembarque, a comunicação por telas e alto-falantes – tudo isso reduz o contato humano e a possibilidade de explicações personalizadas. Quando um problema surge, o passageiro frequentemente se vê diante de um sistema, não de uma pessoa. Essa desumanização, somada a uma cultura digital que premia a reclamação pública e o imediatismo, mina a autoridade tradicional da figura do comissário de bordo ou do agente de aeroporto. Para uma parcela crescente de viajantes, essas autoridades são vistas não como profissionais de segurança, mas como funcionários de uma empresa prestadora de serviços, contra quem se pode “exigir direitos” de forma agressiva. A linha entre reivindicar e agredir tornou-se perigosamente tênue.
O Cóctel Perigoso: Álcool, Ansiedade e Sensação de Impunidade
Dados internos das companhias, obtidos por esta reportagem, indicam que o consumo excessivo de álcool, muitas vezes iniciado ainda nos lounges ou bares do aeroporto, está presente em mais de 40% dos incidentes graves. O álcool age como um catalisador, diminuindo inibições e amplificando reações desproporcionais. Além disso, a sensação de impunidade contribui. Apesar de a Lei de Segurança de Voo (Lei nº 13.475/2017) prever multas pesadas e até a inclusão do nome do infrator em um cadastro nacional que pode impedi-lo de voar, o processo é considerado lento e a aplicação das penalidades, irregular. Muitos passageiros acreditam, erroneamente, que seu comportamento ficará sem consequências sérias, especialmente se o episódio ocorrer em solo, pouco antes do embarque.
O Efeito Cascata
O impacto dos 1.764 casos vai muito além dos momentos de tensão. Cada incidente desencadeia uma sequência operacional custosa e disruptiva. Um voo que precisa retornar ao portão para desembarcar um passageiro indisciplinado causa um efeito dominó de atrasos que pode afetar dezenas de outros voos e milhares de passageiros naquele dia. As tripulações envolvidas precisam passar por debriefings, preencher relatórios detalhados e, em casos de agressão, são frequentemente afastadas para apoio psicológico, gerando falta de mão de obra em escalas futuras. O custo financeiro é monumental, envolvendo multas por atrasos, combustível desperdiçado, indenizações e processos judiciais.
Mas o custo mais perigoso é o da segurança. A atenção da tripulação, que deve estar integralmente voltada para os procedimentos operacionais e para o bem-estar de todos a bordo, é desviada para conter um único indivíduo. Em um ambiente crítico como uma cabine de avião pressurizada e em movimento, essa distração pode ter consequências fatais. A autoridade do comandante, última instância de segurança no voo, é posta à prova publicamente, criando um precedente perigoso. A indústria vive um paradoxo: nunca se investiu tanto em tecnologia para tornar os aviões mais seguros, enquanto um fator de risco completamente humano e previsível cresce de forma descontrolada dentro deles.
Olhando para os próximos meses, o setor se encontra em uma encruzilhada. O caminho mais simples é o da repressão pura: multas mais altas, aplicação mais rápida da lei, e um discurso de tolerância zero. A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) já sinalizou que revisará os regulamentos para tornar as punições mais ágeis. No entanto, especialistas em comportamento organizacional alertam que apenas a força não resolverá o problema de raiz. A próxima fase desta crise exigirá um olhar para o design da experiência do passageiro. Será necessário repensar a comunicação nos aeroportos, treinar equipes de solo para identificar e desescalar situações de conflito antes do embarque, e talvez, o mais difícil, engajar o público em uma campanha de reeducação que reafirme que um avião não é um espaço público qualquer, mas um ambiente técnico onde regras existem para preservar vidas. As companhas aéreas que entenderem que investir na redução deste estresse é também investir em eficiência operacional e segurança – e que conseguirem traduzir isso em ações concretas e sensíveis – sairão na frente. A questão que fica, enquanto aguardamos os números de 2026, é se aprenderemos a tratar a causa da febre, ou se continuaremos apenas combatendo os seus sintomas mais violentos, um passageiro de cada vez.

