Em um pequeno estúdio em Walthamstow, no leste de Londres, três músicos brasileiros finalizavam as gravações que dariam origem ao EP número A. Caio Orio, Thiago Costa e Vitor Meuren, que formam o trio meiotempo, transformaram a urgência criativa de encontros em uma pizzaria na capital britânica em um registro sonoro que já nasce com personalidade definida. O projeto, primeiro trabalho oficial da banda, chega às plataformas digitais estabelecendo um diálogo claro entre a herança do pós-punk britânico e a sensibilidade lírica brasileira.
Origem do projeto em encontros informais na capital britânica
A história da meiotempo começa como tantas outras na música: em conversas entre amigos apaixonados por som. O trio se reunia regularmente em uma pizzaria em Londres, onde as ideias musicais começaram a tomar forma concreta. “Foi uma daquelas urgências clássicas de quem ama música e encontra pessoas com a mesma sintonia”, explica Thiago Costa, um dos fundadores do projeto. As sessões informais evoluíram para ensaios estruturados e, finalmente, para a decisão de registrar material original que representasse a identidade do grupo desde seu início.
Experiência prévia dos membros em diferentes cenários musicais
O som coeso apresentado em número A não é obra do acaso. Cada membro traz consigo uma bagagem significativa de experiências musicais anteriores. Thiago Costa, por exemplo, foi membro fundador da banda Gigante Animal e participou ativamente da cena hardcore punk de São Paulo antes de se mudar para Londres, onde passou oito anos integrando o projeto Tropical Nightmare. Essa trajetória diversificada contribui para a maturidade sonora evidente no EP de estreia, que soa como o trabalho de um grupo já consolidado em sua linguagem musical.
Características sonoras que mesclam Fugazi e Sonic Youth
O EP cumpre exatamente o que a banda prometeu desde suas primeiras conversas: estabelecer um diálogo constante entre referências como Fugazi e Sonic Youth. O resultado é um som que não teme o ruído, mas que compreende o valor do silêncio, alternando habilmente entre momentos de tensão e explosão. Essa dinâmica funciona como uma válvula de escape da rotina cinzenta da metrópole londrina, traduzindo em sons a experiência de viver entre duas culturas tão distintas quanto a brasileira e a britânica.
Equilíbrio entre intensidade e contenção emocional
O que mais impressiona em número A é a capacidade da meiotempo de dosar energia e contenção. As cinco faixas do EP demonstram um controle preciso da intensidade, com arranjos que sabem quando avançar e quando recuar. Essa característica revela não apenas domínio técnico, mas também sensibilidade artística, criando uma narrativa sonora que mantém o ouvinte engajado do início ao fim. A banda parece ter internalizado a lição fundamental do pós-punk: a potência está tanto no que se toca quanto no que se omite.
Presença do DNA brasileiro em terras britânicas
Apesar de gravado inteiramente em Londres, o EP carrega em seu núcleo a identidade cultural brasileira dos seus criadores. Três das cinco faixas são cantadas em português, com destaque para “saudade” e “asa e fugir”, criando um contraste fascinante entre as estruturas do pós-punk britânico e a lírica brasileira. Essa fusão não se limita às letras, estendendo-se às nuances rítmicas e às abordagens melódicas que permeiam todo o trabalho, resultando em uma produção que fala simultaneamente a duas audiências culturais distintas.
Integração cultural que vai além da língua
A brasileiridade do projeto manifesta-se em múltiplas camadas. Além das letras em português, a capa do EP é uma ilustração do artista paulistano Lucas Rampazzo, conectando visualmente o trabalho às raízes brasileiras do trio. A mixagem e masterização foram realizadas por Lucas Luis, profissional baseado em Belo Horizonte, completando um ciclo criativo que atravessa o Atlântico. Essa rede de colaborações transnacionais reflete a realidade contemporânea da produção musical, onde fronteiras geográficas tornam-se cada vez mais permeáveis.
Processo de gravação no Fuzzbrain Studios de Londres
As sessões de gravação ocorreram no Fuzzbrain Studios, espaço localizado no leste londrino, sob a engenharia de som de Ben Spence, com assistência de Alyssa Nyx. O estúdio, conhecido por trabalhar com artistas independentes da cena alternativa da cidade, proporcionou o ambiente ideal para capturar a energia crua que caracteriza o som da meiotempo. A escolha por um espaço com essa identidade alinha-se perfeitamente com a proposta estética da banda, que valoriza a autenticidade sobre o polimento excessivo.
Decisões técnicas que moldaram o som final
O processo de gravação priorizou a captura da performance ao vivo do trio, preservando a interação natural entre os músicos. Essa abordagem contribuiu para a sensação de imediatismo que percorre todo o EP, como se o ouvinte estivesse presente no estúdio durante as tomadas. A mixagem realizada por Lucas Luis manteve essa essência, equilibrando claridade e textura sem sacrificar a energia característica do gênero. O resultado é um trabalho que soa contemporâneo sem perder a conexão com as raízes do pós-punk.
Recepção crítica e posicionamento no cenário atual
Desde seu lançamento, número A tem circulado em playlists especializadas e recebido atenção de veículos que cobrem a cena musical independente. A faixa “asa e fugir” integra a playlist TMDQA! Lançamentos, que reúne os principais lançamentos nacionais e internacionais, indicando o reconhecimento imediato do trabalho no circuito especializado. Esse posicionamento inicial sugere que a meiotempo chegou para ocupar um espaço específico: o de bandas que dialogam com tradições musicais estabelecidas enquanto constroem linguagens próprias.
Potencial de crescimento em um mercado globalizado
A localização da banda em Londres, combinada com suas raízes brasileiras, posiciona-a de maneira estratégica no mercado musical contemporâneo. A capital britânica continua sendo um epicentro de descobertas musicais, enquanto a cena brasileira ganha cada vez mais projeção internacional. A meiotempo opera na interseção desses dois universos, podendo alcançar audiências em ambos os lados do Atlântico. O EP funciona como um cartão de visitas eficaz para esse duplo endereçamento cultural.
Significado do título número A para a trajetória do trio
O título do EP carrega múltiplas camadas de significado. Literalmente, refere-se ao primeiro trabalho oficial da banda, seu “número um”. Simbolicamente, pode ser lido como referência ao “ponto A” de uma jornada que está apenas começando. A escolha por um título tão essencialista reflete a abordagem direta do trio em relação à sua música: sem subterfúgios conceituais excessivos, focada na substância sonora. É uma declaração de princípios que anuncia tanto um começo quanto uma intenção de continuidade.
Representação de um ponto de partida sólido
O que torna número A especialmente notável é como soa menos como uma estreia experimental e mais como a consolidação de uma identidade já formada. A maturidade musical apresentada nas cinco faixas sugere que o trio encontrou rapidamente sua voz coletiva, superando a fase de busca característica dos primeiros trabalhos. Isso transforma o EP de um simples registro inicial em uma base sólida sobre a qual a banda pode construir projetos futuros, com clareza sobre sua direção artística.
À medida que as fronteiras entre cenas musicais nacionais se tornam mais fluidas, projetos como a meiotempo demonstram como artistas podem honrar suas heranças culturais enquanto participam de conversas musicais globais. O EP número A não é apenas um registro de estreia, mas um manifesto sobre a possibilidade de criar pontes sonoras entre tradições distintas. Num cenário musical frequentemente dividido entre o local e o global, o trio brasileiro baseado em Londres oferece uma terceira via: a da síntese autêntica que nasce do respeito às origens e da abertura ao diálogo.
