Documentos internos de quatro das maiores plataformas de redes sociais — Meta (Instagram), Snap (Snapchat), ByteDance (TikTok) e Google (YouTube) — revelam estratégias coordenadas e deliberadas para capturar a atenção de estudantes dentro do ambiente escolar, durante o horário de aula. As evidências, extraídas de ações judiciais movidas por mais de 1.400 distritos escolares nos Estados Unidos, expõem um padrão de conduta que vai muito além da simples disponibilização de serviços: as empresas teriam projetado funcionalidades, financiado programas e influenciado instituições de ensino com o objetivo explícito de transformar a sala de aula em um campo de batalha pela atenção dos jovens.
Notificações na sala de aula: a estratégia ‘debaixo da mesa’ do Snapchat
Documentos do Snapchat indicam que a empresa desenvolveu intencionalmente um sistema de notificações push direcionadas a smartphones de alunos do ensino médio durante o período letivo. Um documento estratégico interno teria classificado essa prática como uso “debaixo da mesa” (under the desk), referindo-se ao momento em que os alunos tentam esconder o telefone durante a aula. As notificações incentivavam os estudantes a compartilhar conteúdos como o interior de suas mochilas ou a cena da sala de aula. Um funcionário do Snap teria alertado para os riscos de um design manipulador (dark pattern) e proposto a implementação de um recurso de opt-out, mas a sugestão não foi executada, segundo as alegações.
Instagram: adolescentes contratados como ‘embaixadores’ dentro das escolas
A Meta operava o programa “Embaixadores Adolescentes” (Teen Ambassadors), recrutando alunos do ensino médio para promover o Instagram dentro do próprio ambiente escolar. Um documento interno de 2018 descrevia a contratação desses embaixadores para realizar propaganda da plataforma na escola. Os participantes recebiam brindes da marca e, ao cumprir metas mensais — como postar vídeos no Instagram —, ganhavam um cartão-presente de US$ 45 (aproximadamente R$ 250). Uma ex-embaixadora disse em depoimento sentir sentimentos conflitantes sobre seu papel na época, em que incentivava colegas a usar a plataforma durante o período escolar.
TikTok e o financiamento milionário do PTA: reputação acima da segurança infantil
A TikTok teria fornecido “vários milhões de dólares” ao National PTA (equivalente à associação de pais e mestres dos EUA). Embora o contrato fosse publicamente apresentado como uma iniciativa de segurança online, documentos internos indicam que o objetivo real era melhorar a reputação da controladora ByteDance nos Estados Unidos. A parceria foi iniciada em 2019, justamente quando o TikTok enfrentava intenso escrutínio no Congresso americano. Em uma escola de ensino médio na Flórida, um evento patrocinado pelo PTA contou com um balão inflável com o logotipo do TikTok e influenciadores locais no painel. A então presidente do capítulo local do PTA descreveu o evento como “verdadeira propaganda”.
YouTube e Google: a escola como ‘pipeline’ para futuros usuários
A Google tratava as instituições de ensino como um “pipeline para cultivar futuros usuários”. Com o Chromebook e o software educacional, a empresa dominou o mercado escolar americano. Um slide interno de 2020, citado nos documentos, afirmava que “investir nas escolas leva a integrar as crianças ao ecossistema Google”. Um funcionário do YouTube, em um memorando de 2015, observou que o uso da plataforma durante a semana (dias úteis) era menor do que nos finais de semana e propôs: “se conseguirmos aumentar o uso de segunda a sexta, podemos nivelar essa diferença”. A Google respondeu que os documentos são antigos e que atualmente o YouTube desabilita o modo de navegação escolar por padrão e oferece ferramentas para professores removerem anúncios e recomendações.
O primeiro acordo: US$ 27 milhões e o preço de uma estratégia predatória
Às vésperas do que seria o primeiro julgamento de um distrito escolar contra as gigantes de tecnologia, o distrito de Breathitt County, Kentucky, aceitou um acordo de US$ 27 milhões (aproximadamente R$ 135 milhões, em valores atuais). O valor total foi dividido entre as quatro empresas: US$ 9 milhões da Meta (33,3%), US$ 8 milhões da Snap (29,6%), US$ 8 milhões do TikTok (29,6%) e cerca de US$ 2 milhões do YouTube (7,4%). O distrito, com aproximadamente 1.600 alunos, tem um orçamento anual superior a US$ 25 milhões e, com o acordo, recebeu um montante quase equivalente a um ano inteiro de recursos.
No entanto, este é apenas um caso em mais de 1.300 processos pendentes. O próximo grande embate será o do distrito unificado de Tucson, Arizona, que representa cerca de 40 mil alunos e busca mais de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões) para financiar programas de saúde mental por 15 anos. O julgamento está previsto para o início de 2027. Além deste, os distritos de Los Angeles e a cidade de Nova York, que juntos somam mais de 1,2 milhão de alunos, também moveram ações. As estimativas de potenciais danos totais, em cenários extremos, chegam a US$ 400 bilhões (aproximadamente R$ 2 trilhões).
O algoritmo como cúmplice: YouTube Shorts e o design viciante
Os documentos revelam que o YouTube sabia que seu algoritmo recomendava vídeos de comédia logo após um vídeo educativo de equações de primeiro grau, um padrão que mantinha os alunos engajados por mais tempo dentro do horário escolar. A empresa, que recentemente começou a liberar a função de desabilitar completamente os Shorts para todos os usuários, afirma agora fornecer ferramentas para que educadores possam remover anúncios e recomendações no ambiente escolar.
Uma frase de um funcionário do TikTok em 2022, publicada em um grupo interno da empresa, tornou-se a manchete da reportagem: “Os professores vão odiar isso”. A frase se referia a um novo recurso que incentivava postagens durante o horário de aula. Outro gerente teria respondido: “Os concorrentes estão fazendo a mesma coisa. Os adolescentes vão usar as redes sociais de qualquer jeito; então que seja no TikTok”. O recurso foi descontinuado em 2023.
O que isso significa para o Brasil?
Embora os documentos sejam de ações judiciais americanas, as práticas descritas têm impacto direto no Brasil. O Chromebook está presente em redes públicas estaduais (como São Paulo e Paraná), o Instagram e o TikTok são amplamente utilizados por jovens brasileiros, e o YouTube é a principal plataforma de vídeos educacionais do país. A diferença é que, aqui, a discussão sobre os efeitos das redes sociais na saúde mental dos adolescentes ainda não se traduziu em litígios de grande escala como nos EUA. Mas as estratégias que os documentos revelam — notificações durante a aula, programas de embaixadores escolares, financiamento de associações de pais e mestres e o uso de algoritmos que priorizam o engajamento sobre a segurança — são globais. Pais e educadores brasileiros precisam estar cientes de que não se trata apenas de “falta de controle” dos alunos, mas de um design intencional das plataformas para capturar a atenção dentro da sala de aula.

