Anvisa aprova finerenona para tratar insuficiência cardíaca

Anvisa aprova finerenona para insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida, ampliando opções terapêuticas.

Estudo FINEARTS-HF mostra que finerenona reduz em 16% o risco de piora ou morte por causas cardiovasculares.
Destaques
  • A Anvisa aprovou a finerenona (Firialta) para tratar insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida.
  • O estudo clínico FINEARTS-HF demonstrou redução de 16% no risco de piora ou morte cardiovascular.
  • A finerenona se destaca por sua alta seletividade e menores efeitos colaterais comparada a outros antagonistas de mineralocorticoides.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso da finerenona para o tratamento de insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida. O medicamento já era utilizado no Brasil para doença renal crônica associada ao diabetes tipo 2, mas a nova indicação amplia seu potencial terapêutico. A decisão coloca o país em linha com mais de 90 nações que já liberaram o fármaco para essa finalidade, abrindo caminho para discussões sobre incorporação em diretrizes nacionais e, eventualmente, no Sistema Único de Saúde (SUS).

O que é a finerenona e como ela age no organismo

A finerenona, comercializada como Firialta, pertence à classe dos antagonistas de mineralocorticoides. Diferentemente de outros remédios do mesmo grupo, como a espironolactona, ela se destaca pela alta seletividade e precisão. Isso significa que o princípio ativo bloqueia o receptor mineralocorticoide sem desencadear efeitos colaterais comuns, como ginecomastia (aumento das mamas em homens) ou distúrbios eletrolíticos severos.

O receptor mineralocorticoide age como uma fechadura presente nos rins, no coração e nos vasos sanguíneos. Em condições normais, a aldosterona – hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais – se liga a esse receptor para regular o equilíbrio de sódio, potássio e pressão arterial. Porém, em pessoas com diabetes, doença renal crônica ou insuficiência cardíaca, esse mecanismo entra em hiperatividade. A ativação excessiva estimula processos inflamatórios, fibrose (endurecimento dos tecidos), retenção de sódio e crescimento anormal de células cardíacas. Com o tempo, o coração perde elasticidade, fica “duro” e tem dificuldade para relaxar entre os batimentos – quadro que gera falta de ar, cansaço e inchaço nas pernas.

A finerenona bloqueia o receptor mineralocorticoide, interrompendo essa cascata nociva. O resultado é a redução da fibrose, da inflamação e do estresse oxidativo, tanto no coração quanto nos rins. Esse duplo benefício torna o fármaco especialmente valioso para pacientes que convivem simultaneamente com doença cardiovascular e renal.

Evidências clínicas e o estudo FINEARTS-HF

A aprovação da Anvisa se baseia principalmente nos resultados do ensaio clínico FINEARTS-HF, publicado no New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou pacientes com insuficiência cardíaca por quase quatro anos e demonstrou que a finerenona reduziu em 16% o risco de piora dos sintomas ou morte por causas cardiovasculares. O benefício foi consistente em subgrupos de idade, presença de diabetes e função renal basal.

A médica Carolina Casadei, coordenadora do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), explica que a finerenona se mostrou eficaz especificamente para pacientes com fração de ejeção preservada ou levemente reduzida – ou seja, aqueles cujo coração bombeia pelo menos 40% do sangue a cada batimento. Para a fração de ejeção reduzida (abaixo de 40%), já existem outras terapias consolidadas. Dessa forma, a finerenona preenche uma lacuna importante: oferece uma opção de tratamento para um subgrupo que historicamente teve poucas alternativas farmacológicas de impacto comprovado.

O endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que os efeitos colaterais observados foram baixos, graças à seletividade da molécula. “A finerenona atinge o receptor mineralocorticoide com alta afinidade, mas sem interferir em outros receptores hormonais, o que explica a tolerabilidade superior”, afirma.

Principais resultados do FINEARTS-HF

  • Redução de 16% no desfecho combinado de hospitalização por insuficiência cardíaca e morte cardiovascular.
  • Benefício consistente independentemente do uso concomitante de outros medicamentos cardiológicos.
  • Perfil de segurança favorável, com baixa incidência de hipercalemia (excesso de potássio) quando comparado a antagonistas mais antigos.

Para quem o medicamento é indicado

A indicação aprovada pela Anvisa é para pacientes com insuficiência cardíaca crônica com fração de ejeção levemente reduzida (entre 40% e 50%) ou preservada (acima de 50%). A definição é feita por ecocardiograma. Quem tem fração de ejeção reduzida (menos de 40%) não entrou nos estudos e, portanto, não faz parte da indicação formal. Para esses casos, outras medicações como betabloqueadores e inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona continuam sendo o padrão-ouro.

A finerenona não substitui os tratamentos existentes, mas age como complemento em pacientes que não atingem controle adequado com as terapias convencionais. Couri destaca que a substância atua em vias fisiopatológicas distintas, o que permite somar benefícios. “É uma ferramenta a mais para o cardiologista, especialmente naquele paciente que ainda apresenta sintomas apesar do uso de múltiplos medicamentos”, complementa.

Implicações para o mercado brasileiro e o SUS

A aprovação da Anvisa alinha o Brasil ao consenso internacional. Mais de 90 países já haviam liberado o uso da finerenona para insuficiência cardíaca, incluindo Estados Unidos, Japão e nações da União Europeia. Agora, a expectativa é que as sociedades médicas brasileiras atualizem suas diretrizes para incorporar a substância. Isso também abre espaço para negociações de preço e cobertura, tanto por planos de saúde quanto pelo SUS.

O custo do tratamento, ainda sem valor oficial definido no Brasil para a nova indicação, deverá ser acompanhado de perto. Nos Estados Unidos, o preço de tabela do Firialta gira em torno de US$ 500 por mês, mas descontos e acordos comerciais podem reduzir o valor final. No sistema público brasileiro, a inclusão depende de análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que avaliará eficácia, segurança e relação custo-efetividade.

A finerenona representa um avanço na cardiologia de precisão. Trata-se de um fármaco desenvolvido com engenharia molecular voltada a alvos específicos, minimizando efeitos colaterais e maximizando benefícios. Em um cenário onde a insuficiência cardíaca atinge cerca de 2 milhões de brasileiros, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia, qualquer nova opção terapêutica com evidência robusta é bem-vinda.

A expectativa dos especialistas é que a aprovação estimule a realização de estudos de vida real no Brasil, permitindo entender melhor o perfil de resposta da população local. Além disso, a experiência acumulada com o uso da finerenona para doença renal crônica pode acelerar a curva de aprendizado dos prescritores. O resultado prático, se confirmado na prática clínica, será a redução de internações hospitalares e da mortalidade cardiovascular em um grupo de pacientes que antes tinha poucas alternativas eficazes.

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