Dois dos nomes mais ativos e influentes da cena punk e hardcore de Manaus, no Amazonas, acabam de unir forças em um lançamento conjunto que já nasce como um marco para a música independente da região norte do Brasil. As bandas Dpeids e Antiga Roll lançaram o split Enquanto o Mundo Apodrece, um trabalho que reúne 13 faixas brutais e ácidas, funcionando como um retrato sonoro do Brasil contemporâneo visto através das lentes do humor negro e da crítica social.
O projeto conjunto que nasceu da amizade e da cena local
O disco é, na verdade, a fusão de dois EPs que estavam em produção separada pelas bandas: Enquanto o Mundo Envelhece, da Antiga Roll, e Todo Mundo é Santo no Domingo, da Dpeids. A ideia de unir os trabalhos não foi um acaso de mercado, mas o resultado natural de uma amizade e uma parceria que se solidificou ao longo de quase 15 anos de cena compartilhada em Manaus. Ambas as bandas, além dos palcos, são pilares da organização do Mama Rock, festival que desde 2013 movimenta a cena rock da região norte, e também são as mentes por trás da Mama Records, selo e produtora independente dedicado a fomentar a produção local.
Da produção ao hiato: a longa gestação do material da Antiga Roll
O processo criativo por trás do split teve ritmos diferentes para cada banda, o que conta uma história própria sobre as dificuldades e persistência do cenário independente. As gravações do material da Antiga Roll começaram ainda em 2017/2018, com o objetivo de dar sequência ao bom momento vivido após o lançamento do LP Zumbi do Bar em 2016, que rendeu à banda sua primeira turnê fora da região norte. No entanto, uma série de eventos – incluindo questões familiares e, principalmente, a pandemia de COVID-19 – impôs um hiato de sete anos na carreira do grupo. Foi apenas em 2025 que a banda decidiu retomar as gravações, agora com o novo propósito de lançar o material em formato de split com os amigos da Dpeids, culminando no relançamento da Antiga Roll com força total.
A explosão criativa recente que definiu o som da Dpeids
Em contraste com a jornada de retomada da Antiga, a Dpeids viveu uma explosão criativa muito mais recente e intensa. A maior parte das faixas que compõem sua parte do split foi concebida em um período de apenas sete meses, um processo que a banda descreve como “natural e empolgante”. Músicas eram criadas em um único ensaio, em um fluxo que resultou em um EP coeso e potente. Este trabalho também marca uma nova fase na formação da Dpeids, sendo o primeiro a contar com a colaboração integral do guitarrista Leonardo Lima (Léo) na composição, injetando novas ideias sem abandonar o que a banda chama de essência “podre” de seu som.
O conceito por trás de “Enquanto o Mundo Apodrece”
O título do split não é meramente provocativo; é uma declaração de posicionamento. As bandas explicam que a obra faz referência à sensação palpável de viver no meio do caos que o mundo, e em especial o Brasil, se tornou. No entanto, o olhar sobre esse apodrecimento não é de pura depressão ou resignação. A abordagem é carregada de ironia, humor ácido e atitude, características que definem a identidade de ambos os grupos. As letras transitam pelas contradições e absurdos gerados por figuras públicas “sem noção”, mas também celebram vivências cotidianas, paixões, cachaça e skate, às vezes com um tom nostálgico, outras como um mero exercício de liberdade ou um expurgo do estresse da vida moderna.
“Agora”: a música da Antiga Roll sobre a passagem do tempo e a saudade
Questionadas sobre destaques no trabalho, a Antiga Roll apontou a faixa “Agora” como uma peça central de sua metade do split. A música mergulha nas questões dos encontros e desencontros da vida, na passagem inexorável do tempo e nas marcas que ela deixa. É uma reflexão sobre crescer e aprender a lidar com a ausência – seja de um pai, uma mãe ou um amante – e o vazio que essa falta gera. Musicalmente, a banda afirma que a canção bebe de influências do punk oitentista, mantendo a agressividade e o peso característicos, mas canalizando-os para uma temática mais profunda e introspectiva, refletindo uma fase conturbada na vida de alguns de seus integrantes.
“Todo Mundo é Santo no Domingo”: o ataque da Dpeids ao falso moralismo
Do lado da Dpeids, a faixa-título de seu EP, “Todo Mundo é Santo no Domingo”, surge como o carro-chefe da crítica social do grupo. A música é um ataque direto à hipocrisia de quem se coloca como exemplo moral, frequentemente usando o nome de Deus para julgar os outros, enquanto suas ações cotidianas são moralmente questionáveis. É uma crítica contundente ao conservadorismo forçado e moralista, que a banda enxerga como baseado mais em aparência, julgamento e discurso vazio do que em prática e responsabilidade real. Instrumentalmente, a banda cita a música “Disneylândia”, do álbum Titanomaquia dos Titãs, como inspiração, enquanto a construção lírica traz ecos do álbum Abaixo de Zero: Hello Hell, de Black Alien.
Os pontos fortes que sustentam duas décadas de cena independente
Ao refletirem sobre o que mantém as bandas vivas e relevantes após anos de estrada, ambas apontam para valores que vão além da técnica musical. Para a Antiga Roll, a resposta é direta: “Nenhum! (risos)”, brincam, antes de afirmar que a amizade é o centro de tudo. O motor da banda é o amor pelo que fazem, um clichê que se traduz em disposição para fazer as coisas acontecerem com capricho, buscando autenticidade e qualidade, resultando em shows eletrizantes e um rock’n’roll com “verdade e personalidade”. É essa base de afeto e propósito coletivo que permitiu à banda superar um hiato de sete anos e retornar com força total.
A espontaneidade como filosofia criativa da Dpeids
Já a Dpeids identifica sua espontaneidade como o principal ponto forte, mesmo depois de tantos anos na estrada. Suas músicas nascem nos ensaios, de conversas aleatórias, de coisas que aconteceram “ontem no bar, no ônibus ou qualquer outro buraco”. A banda se orgulha de não ter uma fórmula fixa e de não se prender a uma imagem única. Seu som não é feito para “parecer certo”, mas porque acham graça, porque gostam de incomodar e sentem a necessidade de cutucar o que consideram errado. Essa liberdade criativa, onde a crítica aparece sempre temperada com ironia, exagero e uma dose de verdade crua, é o que forja e fortalece a identidade única do grupo, sem esforços forçados.
O lançamento físico e o futuro das bandas
O split Enquanto o Mundo Apodrece já está disponível em todas as plataformas digitais, mas seu ciclo de lançamento está longe de terminar. A Mama Records, em parceria com a Neves Records de São Paulo, prepara o lançamento físico do trabalho em um LP de 12 polegadas, previsto para junho. A materialização do disco em vinil é um passo importante para a cena, dando tangibilidade a um trabalho que já é considerado significativo. Para a Antiga Roll, o split representa a reativação definitiva da banda, que já está em movimento com a produção do videoclipe “Maués”, seu primeiro single. Para a Dpeids, é a consolidação de uma nova formação e um novo fluxo criativo que promete render mais frutos.
Mais do que um simples lançamento musical, Enquanto o Mundo Apodrece é um testemunho da vitalidade da cena independente brasileira longe dos grandes centros. É a prova de que a amizade, o trabalho comunitário e uma visão ácida e humorada da realidade podem ser os combustíveis mais potentes para a criação artística. Em um momento onde o mundo efetivamente parece apodrecer em várias frentes, o split de Dpeids e Antiga Roll oferece não um lamento, mas um grito de guerra cheio de atitude, uma celebração ruidosa da resistência através do rock podre, do deboche e da união que só a cena underground sabe proporcionar.

