A Arch Linux (baseada em Arch) e distribuição de alto desempenho CachyOS provou mais uma vez que não é apenas para entusiastas de desktop. Desta vez, o campo de batalha foi uma workstation de 64 núcleos, e os resultados não poderiam ter sido mais claros: em uma suíte de 104 benchmarks rodando no novo System76 Thelio Major, o CachyOS conquistou a liderança em 38 testes, superando o Arch Linux em cerca de 5% e deixando o Ubuntu 26.04 LTS para trás com uma vantagem de aproximadamente 10%. O desempenho do Pop!_OS 24.04, a distribuição “nativa” da System76, ficou impressionantes 23% atrás.
A máquina de teste: uma workstation de mais de R$ 100 mil
O hardware escolhido para o teste foi o Thelio Major, workstation de ponta da System76 que passou por um redesign completo em abril de 2026. A configuração é digna de um laboratório profissional: um processador AMD Ryzen Threadripper 9980X com 64 núcleos e 128 threads baseado na arquitetura Zen 5, acompanhado por uma GPU Radeon AI PRO R9700 com 32 GB de VRAM. Para completar, o sistema contava com 128 GB de memória RAM DDR5aaaa-5600 ECC (quatro módulos de 32 GB) e um SSD NVMe PCIe Gen 5 de 1 TB da Crucial. O preço inicial para uma configuração similar é de US$ 6.999, ou cerca de R$ 111 mil em conversão direta.
Nesta máquina, foram instaladas de forma limpa quatro distribuições Linux: Ubuntu 26.04 LTS, Pop!_OS 24.04, Arch Linux e o próprio CachyOS. Todas foram submetidas a uma bateria de 104 benchmarks utilizando o Phoronix Test Suite, com configurações padrão.
Um ponto crucial para entender os resultados é a diferença nas pilhas de software. Enquanto o CachyOS roda com o kernel Linux 7.0, Mesa 26.1 e GCC 16.1 — componentes de ponta — o Pop!_OS 24.04, por ser baseado no Ubuntu 24.04 LTS, carrega um compilador e bibliotecas com quase dois anos de idade. Essa disparidade geracional foi o cerne da competição.
CachyOS domina e Pop!_OS amarga o último lugar
A distribuição dos primeiros lugares nos 104 benchmarks revela uma história de domínio e de uma queda significativa. O CachyOS ficou em primeiro em 38 testes, ou 36,5% do total. Arch Linux e Ubuntu 26.04 LTS empataram tecnicamente, com 30 vitórias cada (28,8%). Já o Pop!_OS 24.04, que deveria ser a experiência otimizada para o hardware da System76, conquistou apenas 6 primeiros lugares, o que representa meros 5,8%.
| Distribuição | 1º lugar (de 104) | Porcentagem |
|---|---|---|
| CachyOS | 38 | 36,5% |
| Arch Linux | 30 | 28,8% |
| Ubuntu 26.04 LTS | 30 | 28,8% |
| Pop!_OS 24.04 | 6 | 5,8% |
A média geométrica de todos os testes, que oferece uma visão geral do desempenho, foi de 38,72 para o CachyOS, contra 36,89 do Arch Linux (diferença de 5%), 35,38 do Ubuntu 26.04 LTS (10% mais lento) e 31,46 do Pop!_OS 24.04 (incríveis 23% de desvantagem).
A diferença se tornou ainda mais evidente em tarefas específicas de codificação de vídeo. No benchmark SVT-AV1 4.0 com preset 5 e entrada 4K, o CachyOS atingiu 102,56 fps, enquanto o Arch Linux ficou em 89,24 fps e o Ubuntu em 88,87 fps — uma vantagem de cerca de 15% que parece irreal para o mesmo hardware. No preset 3, que é mais pesado, o CachyOS marcou 31,75 fps contra 27,90 fps do Arch e 26,78 fps do Pop!_OS. Quanto mais intenso o processamento, maior a vantagem do CachyOS.
É importante notar, no entanto, que o CachyOS não venceu em tudo. No codificador x265, por exemplo, o Arch Linux tomou a liderança. No teste Bosphorus 1080p, o Arch marcou 124,50 fps, seguido pelo Ubuntu com 121,98 fps e o CachyOS em terceiro, com 120,60 fps. Apesar dessas exceções, a consistência e a taxa de vitórias do CachyOS foram inquestionáveis.
De onde vem a velocidade do CachyOS?
A superioridade do CachyOS não é mágica, mas sim o resultado de uma abordagem metódica e agressiva de otimização. Distribuições como Ubuntu e o próprio Arch Linux padrão distribuem binários compilados para um conjunto de instruções x86-64 genérico, garantindo compatibilidade com uma vasta gama de processadores, desde os mais antigos. O CachyOS descarta essa abordagem.
A distribuição oferece repositórios próprios com pacotes compilados especificamente para os conjuntos de instruções x86-64-v3 e x86-64-v4, além de otimizações direcionadas para as arquiteturas Zen 4 e Zen 5 da AMD. Isso significa que o compilador pode gerar código que explora extensões como AVX2 e AVX-512 de forma muito mais eficiente. É como abastecer um carro de F1 com o combustível de corrida certo, em vez de gasolina comum.
Além disso, o CachyOS aplica sistematicamente técnicas de otimização em seus pacotes principais, como LTO (Link-Time Optimization), PGO (Profile-Guided Optimization) e BOLT (Binary Layout Optimization). O kernel Linux também recebe ajustes finos, como a implementação padrão do escalonador EEVDF com parâmetros próprios do CachyOS, e a opção de usar o escalonador BORE, focado em reduzir a latência em tarefas interativas.
Para um usuário avançado, cada uma dessas técnicas pode ser aplicada manualmente. A diferença fundamental do CachyOS é automatizar todo esse processo e distribuí-lo como um pacote coeso e testado, algo impraticável para a maioria dos usuários no dia a dia.
O papel de vespa do Pop!_OS
O resultado mais constrangedor dos benchmarks é, sem dúvida, o desempenho do Pop!_OS 24.04. A distribuição criada pela System76 para ser a experiência otimizada em seu próprio hardware foi duramente superada, ficando mais de 20% atrás do CachyOS. É uma ironia difícil de ignorar: o sistema operacional “oficial” da empresa foi derrotado por uma distribuição da comunidade em sua própria máquina flagship.
O motivo, como mencionado, é a base de software desatualizada do Pop!_OS. Por ser derivado do Ubuntu 24.04 LTS, ele carrega um kernel, um compilador GCC e drivers de gráfico Mesa mais antigos, que não conseguem extrair o máximo de um processador Zen 5 e de uma GPU RDNA 3. A System76 concentrou seus esforços de desenvolvimento nos últimos anos na criação do novo ambiente de desktop COSMIC, escrito em Rust, deixando a atualização da base do sistema em segundo plano. A estratégia é compreensível, mas os números dos benchmarks mostram um custo de desempenho que não pode ser ignorado.
A lição é dura: trocar apenas o sistema operacional no mesmo hardware pode resultar em um ganho de 20% na codificação de vídeo. Um upgrade de hardware desse porte custaria dezenas de milhares de reais. A escolha do software, portanto, se torna um fator de desempenho tão crítico quanto a placa de vídeo ou o processador.
A escolha do SO como fator de desempenho
Por muito tempo, prevaleceu no mundo Linux a ideia de que a diferença de desempenho entre distribuições era insignificante. Afinal, todas rodam o mesmo kernel e usam os mesmos compiladores. O CachyOS vem derrubando esse mito de forma consistente. Seja em servidores EPYC, desktops ou, agora, em workstations com múltiplos núcleos, a distribuição tem demonstrado que a compilação otimizada para o hardware moderno entrega resultados reais e mensuráveis.
Isso também revela o outro lado da moeda: distribuições generalistas como Ubuntu e Fedora, ao priorizarem a compatibilidade com hardware legado, estão cada vez mais deixando performance na mesa. Para um processador Zen 5, rodar binários x86-64 genéricos é como ter um supercomputador limitado por software.
Para profissionais que usam o Linux como ferramenta de trabalho, desempenho é produtividade. Uma compilação 5% mais rápida ao longo de um dia de trabalho se traduz em minutos preciosos economizados. Uma codificação 15% mais veloz pode significar cumprir um prazo apertado. O CachyOS, por ser uma distribuição rolling release baseada no Arch, não é para todos. Exige mais atenção a atualizações e não oferece o mesmo nível de estabilidade congelada de um LTS. Mas, para quem busca o máximo de desempenho, os números são um argumento difícil de refutar. A pergunta que fica é: você pode pagar para ignorar uma vantagem de até 23%?

