A imagem pública de Bill Gates, construída ao longo de décadas como a do filantropo visionário que salvou vidas na África e financiou vacinas, está passando por um colapso sem precedentes em 2026. O fundador da Microsoft, que já foi eleito a pessoa mais admirada do mundo, viu aliados históricos se afastarem, foi excluído de eventos-chave da própria empresa que co-fundou e agora enfrenta uma convocação para depor no Congresso dos EUA. A combinação de documentos judiciais revelando sua relação com Jeffrey Epstein, a admissão pública de casos extraconjugais e a consequente perda de credibilidade no setor filantrópico criaram uma tempestade perfeita que ameaça desmontar o legado que ele levou décadas para construir.
O estopim: a enxurrada de documentos sobre Epstein
O ponto de virada ocorreu no final de janeiro de 2026, quando o Departamento de Justiça dos EUA divulgou mais de 3 milhões de páginas de documentos investigativos relacionados a Jeffrey Epstein. Entre os papéis, estavam e-mails trocados entre a equipe da Fundação Gates e Epstein, fotografias de Gates ao lado do criminoso sexual e imagens com mulheres de rostos encobertos. O material confirmou que, mesmo depois de Epstein ter sido condenado em 2008 por exploração sexual de menores, Gates continuou encontrando-se com ele repetidamente entre 2011 e 2014. Relatos indicam que os encontros prosseguiram mesmo depois de Melinda French Gates ter manifestado preocupação em 2013.
O estrago foi imediato. Em fevereiro, Gates desistiu de ser o palestrante principal da AI Impact Summit na Índia poucas horas antes de subir ao palco, depois que o governo indiano sinalizou que reconsideraria sua participação justamente por causa do caso Epstein. Dias depois, em um town hall com funcionários de sua fundação, o bilionário foi forçado a admitir publicamente casos extraconjugais com duas mulheres russas: uma enxadrista e uma ex-física nuclear que trabalhava na TerraPower, sua empresa de energia nuclear.
Warren Buffett rompe: “não converso mais com ele”
O golpe mais pesado veio de um dos nomes mais respeitados do mundo dos negócios. Em entrevista à CNBC no final de março, Warren Buffett, de 95 anos, afirmou que não fala com Bill Gates desde que os detalhes sobre Epstein vieram à tona. “Não quero ser colocado na posição de testemunha”, declarou o lendário investidor, que desde 2006 já havia doado mais de US$ 43 bilhões à Fundação Gates. Buffett deixou claro que está suspendendo a tradicional doação anual de junho até decidir se continuará associado à entidade.
A situação se agravou em maio. Gates não compareceu à assembleia anual da Berkshire Hathaway, evento do qual participava todos os anos desde que deixou o conselho em 2020. Também não foi visto na reunião anual do Giving Pledge, a aliança filantrópica que ele próprio co-fundou com Buffett e que aconteceu em Ohio. Nem o veterano investidor nem Melinda French Gates marcaram presença.
A Microsoft também se distanciou. Tradicionalmente, Gates organizava um jantar pré-Saturno de CEOs em sua casa em Washington para receber executivos da empresa. Este ano, o convite não veio. A assessoria da Microsoft limitou-se a dizer que “a agenda não encaixou este ano”, mas que o convite para 2027 já teria sido emitido.
Terremoto interno na Fundação Gates
A maior instituição filantrópica privada do mundo, com US$ 89 bilhões em ativos, está sentindo o tremor por dentro. Em abril, o CEO Mark Suzman anunciou a abertura de uma revisão externa independente para apurar todas as interações passadas de Gates com Epstein. No mesmo comunicado, revelou um plano de cortar até 500 funcionários até 2030, o equivalente a 20% do quadro total – os primeiros 200 cortes devem ocorrer até o final de 2027. O orçamento operacional foi fixado em US$ 1,25 bilhão anuais.
Na TerraPower, a situação também é tensa. O CEO Chris Levesque foi forçado a abordar o caso Epstein em uma reunião geral em março, depois que funcionários exigiram esclarecimentos – já que uma das mulheres com quem Gates teve um caso era funcionária da empresa. Gates fundou a TerraPower como seu projeto pessoal para desenvolver reatores nucleares avançados, mas a confusão interna colocou em xeque a governança da startup.
Para agravar o cenário, a Fundação Gates planeja desembolsar US$ 200 bilhões nos próximos 20 anos, com encerramento previsto para 2045. A dúvida que fica é se a credibilidade do fundador, agora profundamente abalada, comprometerá a capacidade da instituição de atrair parceiros, governos e doadores para essa missão ambiciosa.
Depoimento no Congresso: 10 de junho como divisor de águas
O próximo capítulo dessa crise será escrito em 10 de junho, quando Gates deporá perante o Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos EUA. Os membros do comitê, de ambos os partidos, devem questioná-lo diretamente sobre a natureza de sua relação com Epstein. A assessoria de Gates afirma que ele “aguarda ansiosamente a oportunidade de responder a todas as perguntas”, mas a verdade é que a estratégia de controle de danos que a equipe do bilionário vinha executando desde a morte de Epstein em 2019 – que incluiu roupas sob medida para parecer mais simpático, assessoria de imagem pesada e até edição de documentário da Netflix – está se desfazendo rapidamente.
A defesa de Gates sempre foi a de que nunca pagou ou empregou Epstein, e que nunca se envolveu em atividades ilegais. Mas, para o público e para seus antigos aliados, a questão nunca foi apenas a legalidade – foi o julgamento de caráter. A proximidade com um predador sexual condenado, mantida em segredo por anos e agora exposta em detalhes constrangedores, corroeu a base da narrativa que sustentava o “bom bilionário”. Com aliados fugindo, funcionários preocupados e o Congresso batendo à porta, a era de Bill Gates como ícone moral intocável parece ter chegado ao fim. A pergunta que resta é se sua filantropia – e o dinheiro que a move – sobreviverá a essa ruína de reputação.

