Crescimento econômico substitui cortes na estratégia fiscal de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o crescimento econômico substitui cortes na estratégia fiscal de Lula para um eventual novo mandato, rejeitando abertamente a abordagem de contenção de despesas defendida por economistas. Em entrevista à TV Globo, o petista defendeu que a expansão da atividade econômica, e não a redução de gastos públicos, é o instrumento central para equilibrar a trajetória da dívida pública brasileira. A declaração reacende o debate sobre o modelo de política fiscal adotado pelo governo, em meio a críticas sobre a sustentabilidade das contas públicas.

Por que Lula descarta cortes de gastos como solução fiscal?

Questionado diretamente sobre o aumento do endividamento das famílias e as avaliações de economistas que apontam a necessidade de cortar despesas para abrir espaço à queda dos juros, Lula foi enfático: “O jeito de você resolver o problema fiscal é fazer a economia ficar crescendo. Toda vez que alguém quer resolver um problema fiscal, o povo pobre paga. E eu não quero que o povo pobre pague.” Na visão do presidente, políticas de estímulo à renda e ao crédito são mais eficazes do que medidas de austeridade, que historicamente penalizam a população de baixa renda.

Lula reforçou sua divergência com a corrente majoritária de economistas: “Eu tenho divergência com muitos economistas porque eles têm uma tese econômica. A minha tese é a seguinte: muito dinheiro na mão de poucos é pobreza, e pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza.” Para ele, o fortalecimento da chamada “microeconomia” — com apoio a microcrédito, microempreendedores individuais (MEIs) e pequenos negócios — funciona como motor de crescimento, fazendo o dinheiro circular entre a população e gerando arrecadação.

Microeconomia, crédito e o novo Desenrola

A estratégia de Lula passa por ampliar programas de renegociação de dívidas e expandir o acesso ao crédito. Durante a entrevista, o presidente detalhou a proposta para um novo modelo de renegociação inspirado no programa Desenrola, agora voltado a pessoas com dívidas de até R$ 4 mil, atrasadas há mais de dois anos. O governo planeja adquirir esses débitos com grandes descontos em relação ao valor original, permitindo que os devedores regularizem sua situação financeira. Além disso, há estudos para anistiar parte das dívidas ativas de pequenos empreendedores e oferecer linhas de crédito para quem retornar à formalidade.

“A gente quer que as pessoas recomecem a vida, voltem para a economia e possam fazer novos negócios”, afirmou Lula. O anúncio foi feito no dia 25 de setembro, junto com o pacote de medidas para o fim das Bets. De acordo com o governo, o estoque de dívidas elegíveis soma R$ 300 bilhões, com estimativa de renegociar R$ 150 bilhões a um custo estimado de R$ 15 bilhões para o Estado, considerando um deságio de 90%. O primeiro leilão está previsto para novembro.

IndicadorValor
Estoque total de dívidas elegíveisR$ 300 bilhões
Meta de renegociaçãoR$ 150 bilhões
Custo estimado para o Estado (com deságio de 90%)R$ 15 bilhões
Deságio médio aplicado90%
Valor máximo por dívidaR$ 4 mil
Primeiro leilão previstoNovembro de 2026

Dívida pública pode ser produtiva, defende presidente

Ainda que reconheça a importância de controlar o crescimento da dívida pública, Lula argumentou que o endividamento pode ser justificável quando financia investimentos capazes de impulsionar a produtividade do país. “Eu não quero que a dívida cresça. Agora, se você fizer uma dívida para construir um ativo produtivo para o país, uma ferrovia, uma hidrelétrica, um porto que tenha recebíveis, é importante até que você tenha essa dívida”, declarou. Para ele, obras de infraestrutura e investimentos públicos geram crescimento econômico, ampliam a arrecadação e contribuem para melhorar os indicadores fiscais no longo prazo.

Essa visão contrasta com a de economistas que defendem um ajuste fiscal mais duro como condição para a queda da taxa básica de juros (Selic). Na prática, Lula aposta em um ciclo virtuoso: estímulo ao consumo e ao crédito → aquecimento da economia → aumento da arrecadação → redução da relação dívida/PIB. O risco, apontado por críticos, é que a falta de cortes estruturais de gastos mantenha a dívida em trajetória ascendente e pressione os juros futuros, especialmente em um cenário de inflação persistente.

A declaração do presidente sinaliza que, se reeleito, o governo deve manter a política fiscal contracíclica, priorizando programas de transferência de renda, renegociação de dívidas e investimentos em infraestrutura, em detrimento de medidas de austeridade. Resta saber se o mercado financeiro e os agentes econômicos comprarão a aposta de que o crescimento econômico será suficiente para substituir cortes na estratégia fiscal — sem que o custo recaia sobre os mais pobres, como promete Lula.

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