A cena musical alternativa internacional tem um novo epicentro de inovação, e ele soa como nada que você já ouviu antes. O duo canadense Angine de Poitrine, formado em 2020, transcendeu os nichos mais obscuros do experimentalismo para capturar a atenção de um público amplo e de músicos consagrados. A combinação de Jazz, Rock Progressivo e Math Rock, embora complexa, não é o elemento mais disruptivo do projeto. O verdadeiro motor da revolução sonora da banda é um instrumento único: uma guitarra de dois braços modificada manualmente para operar em um sistema microtonal completo, desafiando os fundamentos da escala musical ocidental.
A construção manual de um novo som
A jornada do Angine de Poitrine rumo à microtonalidade começou de forma quase acidental, movida pela curiosidade e pelo espírito faça-você-mesmo. O baterista Klek de Poitrine, em entrevista à revista Guitar Player, revelou que a primeira modificação no instrumento foi realizada de maneira improvisada. “Adicionei mais trastes com uma serra”, contou. O resultado inicial, longe de ser harmonicamente convencional, soou estranho e desafiador até para os ouvidos dos próprios criadores. Em vez de recuar, o guitarrista Khn abraçou essa estranheza como matéria-prima criativa.
Khn desenvolveu uma técnica dedicada para explorar os microintervalos – notas que existem entre os semitons tradicionais da escala temperada – não como meros efeitos ou ornamentos, mas como a base estrutural de todas as composições. A guitarra modificada, parte instrumento de cordas agudas, parte baixo, com seus trastes esculpidos à mão, tornou-se a extensão física dessa visão. Cada música é construída a partir dessa lógica alternativa, gerando uma sonoridade marcada por uma tensão e uma dissonância que são, paradoxalmente, organizadas e intencionais.
Repercussão entre lendas da música e do YouTube
O impacto do som singular do Angine de Poitrine foi rápido e atravessou fronteiras. Uma apresentação da banda no renomado canal KEXP se tornou um fenômeno viral, acumulando milhões de visualizações e servindo como principal porta de entrada para novos fãs. Entre os espectadores mais entusiasmados estava ninguém menos que Mike Portnoy, lendário baterista do Dream Theater. Portnoy declarou publicamente estar “viciado” no trabalho do duo após assistir à sessão, acrescentando que o grupo “despertou totalmente meu interesse por música microtonal. Coisa maluca”.
A onda de admiração não parou por aí. O produtor e educador musical Rick Beato, cujo canal no YouTube é uma referência em análise musical, afirmou que nunca recebeu tantas mensagens recomendando um mesmo artista. “Você assiste e pensa: como isso é possível?”, questionou Beato, capturando o sentimento de assombro que a performance do duo provoca. Outros músicos de alto calibre, como o guitarrista Cory Wong, também manifestaram seu interesse e admiração pelo projeto, sinalizando que a experimentação radical do Angine de Poitrine está ressoando profundamente entre seus pares.
A estética performática como extensão da música
Para o Angine de Poitrine, a experiência artística é total. A proposta auditiva de vanguarda é complementada por uma identidade visual igualmente marcante e surrealista. Em palco, os integrantes usam figurinos padronizados com bolinhas em preto e branco e máscaras de papel machê que obscurecem suas identidades. Essa escolha estética não é mero capricho; ela reforça o caráter performático e conceitual do grupo, deslocando o foco da personalidade dos músicos para a pureza e a estranheza da arte que estão criando.
A sinergia entre som e imagem provou ser uma ferramenta poderosa de comunicação nas redes sociais e plataformas de vídeo. A estética única torna cada aparição do duo instantaneamente reconhecível e compartilhável, amplificando o alcance de sua música complexa. Ela cria uma camada adicional de engajamento, convidando o público a adentrar um universo artístico coeso e deliberadamente construído, onde cada elemento – do intervalo musical ao detalhe do figurino – serve a uma visão artística singular.
As influências por trás da complexidade
Apesar da sonoridade aparentemente inacessível, os membros do Angine de Poitrine citam influências relativamente ancoradas na tradição do Jazz. Khn já comparou a base harmônica que busca em suas composições ao trabalho de gigantes como Miles Davis e John Scofield. A conexão reside na abordagem da improvisação e na liberdade harmônica, ainda que o duo leve esses conceitos a um extremo radical através do sistema microtonal.
A menção a bandas como Primus e King Crimson, feita por Mike Portnoy, também ilumina o caminho para entender o projeto. Essas referências falam de um rock progressivo que valoriza a virtuosidade instrumental, a complexidade rítmica e a disposição para desafiar convenções – todos elementos presentes, embora transformados, no DNA do Angine de Poitrine. O grupo, portanto, não surge do vácuo, mas se coloca como uma evolução lógica, ainda que extremamente ousada, de certas correntes da música instrumental de vanguarda.
O lançamento do álbum Vol. II e a ambição de popularizar o experimental
O segundo álbum da banda, intitulado Vol. II e com lançamento marcado para 3 de abril, representa o próximo passo em sua jornada ambiciosa. O trabalho chega para consolidar a estética que foi testada e refinada em apresentações ao vivo e no material já divulgado nas plataformas digitais. Mais do que apenas uma nova coleção de músicas, Vol. II é a tentativa declarada do duo de tirar a abordagem microtonal e altamente experimental do campo da mera curiosidade ou do academicismo restrito e levá-la a um contexto mais popular e acessível.
O sucesso de sua estratégia até agora – que combina inovação musical radical, uma estética visual cativante e presença astuta em canais de grande alcance como o KEXP – sugere que essa ambição pode ser realizável. O Angine de Poitrine demonstrou que é possível construir uma ponte entre a vanguarda mais extrema e um público amplo, desafiando a noção de que música experimental precisa ser de difícil digestão ou de alcance limitado. O lançamento de Vol. II não é apenas um evento para os fãs do underground, mas um teste para os limites do gosto mainstream e um marco na contínua evolução da linguagem do rock instrumental.
A trajetória do Angine de Poitrine serve como um lembrete poderoso de que a inovação na música muitas vezes nasce da combinação de curiosidade técnica, coragem artística e uma comunicação eficaz de sua visão singular. Eles não apenas dominaram um novo sistema musical, mas encontraram uma maneira de fazê-lo ecoar, provando que mesmo as ideias mais radicais podem encontrar seu público e redefinir os contornos do que é possível na paisagem sonora contemporânea.

