O ecossistema empreendedor espanhol continua sendo um território predominantemente masculino, com dados recentes revelando não apenas uma estagnação, mas um retrocesso na participação feminina. Enquanto a média europeia e internacional de mulheres empreendedoras avança, a Espanha vê seu percentual encolher, aprofundando um cenário de desigualdade estrutural que impacta a economia e a inovação do país.
Participação feminina no empreendedorismo espanhol cai para 17,5%
Um estudo conjunto do South Summit e da IE University, que mapeia o empreendedorismo na Espanha, revela que as mulheres representam apenas 17,5% do total de empreendedores no país. Este número representa uma queda em relação ao 20% registrado no ano anterior, contrariando a tendência de lento crescimento observada em períodos anteriores. A situação coloca a Espanha significativamente abaixo da média europeia, que é de 22%, e muito distante da média internacional de 25%.
Espanha fica atrás de América Latina e África em empreendedorismo feminino
O abismo se torna ainda mais evidente quando se analisam os dados regionais. Enquanto na Espanha menos de duas em cada dez pessoas que iniciam um negócio são mulheres, na América Latina essa proporção sobe para 29%, na África chega a 37%, e nos Estados Unidos e Canadá se estabiliza em 25%. Os números evidenciam que o problema não é uma característica intrínseca ao ato de empreender, mas sim um reflexo de barreiras específicas do contexto espanhol.
58% das startups espanholas são fundadas exclusivamente por homens
A predominância masculina não se limita aos fundadores individuais, mas se estende à composição das equipes fundadoras. O estudo mostra que 58% das startups espanholas são fundadas exclusivamente por homens, enquanto apenas 10% têm equipes totalmente femininas – um percentual que permanece inalterado há cinco anos. As equipes mistas representam 32% do total, registrando um aumento de apenas um ponto percentual.
Homens empreendedores tendem a se cercar de outros homens
Os dados confirmam uma tendência observável no mercado: homens empreendedores tendem a formar parcerias com outros homens, criando um ciclo de homogeneidade que se perpetua. Esta dinâmica é visível nas fotografias oficiais de startups anunciando lançamentos ou rodadas de financiamento, onde a presença feminina é frequentemente minoritária ou ausente.
Startups com mulheres fundadoras geram o dobro de retorno sobre investimento
O paradoxo mais significativo revelado pelo estudo está no desempenho financeiro. Globalmente, projetos que contam com pelo menos uma fundadora mulher estão obtendo maior rentabilidade. Diversos estudos internacionais apontam que, para cada euro investido nessas iniciativas, o retorno é o dobro em comparação com projetos liderados exclusivamente por homens. Ou seja, startups com diversidade de gênero na fundação convertem capital em resultados com eficiência significativamente maior.
Eficiência financeira não se traduz em maior atração de investimentos
Apesar dos melhores indicadores de desempenho, essa vantagem competitiva não se reflete na distribuição de recursos. Globalmente, projetos liderados por mulheres captam menos de 3% do total investido em capital de risco, evidenciando um descompasso entre potencial comprovado e acesso a financiamento.
Apenas 17% das empreendedoras em série na Espanha são mulheres
A desigualdade se aprofunda quando se analisam as chamadas “empreendedoras em série” – aquelas que iniciam mais de uma empresa. Na Espanha, apenas 17% deste grupo é composto por mulheres, embora este número represente uma melhora de cinco pontos percentuais em relação ao 12% registrado na edição anterior do estudo. O avanço, embora positivo, mantém as mulheres como minoria significativa neste segmento.
Diferenças nas motivações para empreender entre gêneros
O estudo revela diferenças notáveis nas motivações que levam homens e mulheres a empreender. Na Espanha, 51% das mulheres afirmam que empreendem por identificar uma oportunidade de mercado, contra 42,9% dos homens. Já o desejo intrínseco de empreender é citado por 41,3% dos homens, mas apenas 37,8% das mulheres. Quando se considera a motivação “projeto que me apaixona”, a diferença se mantém: 12,6% dos homens contra 8,9% das mulheres.
Mulheres espanholas mantêm menor participação acionária em suas startups
Em nível global, as mulheres fundadoras conservam uma participação média de 61% no capital de suas empresas, comparado a 55% no caso dos homens. No contexto espanhol, porém, essa relação se inverte: as mulheres mantêm apenas 47% do capital de suas startups, enquanto os homens conservam 51%. Esta diferença sugere que as empreendedoras espanholas podem estar cedendo mais equity para atrair investidores ou formar equipes.
Dificuldades de acesso a financiamento persistem para mulheres
As barreiras ao financiamento externo representam um dos principais obstáculos para empreendedoras na Espanha. Dados complementares de um estudo da Mastercard corroboram as conclusões do Mapa do Emprendimiento, confirmando que as mulheres enfrentam significativamente mais dificuldades que os homens para acessar capital para seus negócios.
Progressos mínimos não revertem quadro estrutural de desigualdade
Embora alguns indicadores pontuais mostrem pequenos avanços – como o aumento na proporção de empreendedoras em série – o quadro geral permanece de estagnação profunda. A queda na participação feminina total no empreendedorismo espanhol sinaliza que as iniciativas atuais são insuficientes para criar um ambiente verdadeiramente inclusivo.
Homogeneidade nas equipes fundadoras limita diversidade de perspectivas
A predominância de equipes exclusivamente masculinas nas startups espanholas não é apenas uma questão de representatividade, mas também de desempenho empresarial. Diversas pesquisas demonstram que equipes diversas tendem a ser mais inovadoras, identificam oportunidades de mercado mais amplas e tomam decisões mais equilibradas.
Os dados apresentados pelo Mapa del Emprendimiento pintam um retrato preocupante do ecossistema empreendedor espanhol, onde o potencial econômico comprovado de startups com diversidade de gênero não se traduz em mudanças estruturais. Enquanto outros países e regiões avançam na inclusão de mulheres no empreendedorismo, a Espanha parece presa em um ciclo que perpetua a homogeneidade, limitando não apenas oportunidades individuais, mas também o potencial de inovação e crescimento econômico do país. A desconexão entre desempenho financeiro superior e acesso limitado a recursos sugere que vieses inconscientes e barreiras sistêmicas continuam operando abaixo da superfície, exigindo intervenções mais profundas e específicas do que as implementadas até agora.

