A turbulência geopolítica no Oriente Médio, impulsionada pelo conflito envolvendo o Irã, atingiu em cheio o desempenho dos fundos multimercados brasileiros. Após um início de ano positivo, esses veículos de investimento, conhecidos por sua flexibilidade e capacidade de navegar por diferentes classes de ativos, sofreram quedas expressivas em suas cotas nos primeiros dias de março, com perdas que chegaram a 5% em alguns casos. O movimento reflete um cenário de fuga para ativos mais seguros, com impacto direto nas bolsas de valores, na cotação do dólar e na curva de juros, tanto no Brasil quanto no exterior.
Impacto imediato nos principais fundos do mercado
Uma análise detalhada de 90 fundos multimercados das categorias Macro e Dinâmico, com patrimônio acima de R$ 500 milhões, revela que 74 deles apresentaram valorização negativa no período compreendido até 5 de março. Entre os que mais sentiram o baque estão o Kapitalo Zeta Merídia, gerido pela Kapitalo Ciclo, com recuo de 5,00%, e o Itaú Vértice Fundam., da Itaú Asset, com queda de 4,43%. Outros nomes de peso, como o Kapitalo Apollo FI (-3,92%), o Ibiuna Hedge Master (-3,88%) e o Kapitalo K10 Master (-3,74%), também figuram entre os mais impactados. A correção, embora generalizada, não apagou completamente os ganhos acumulados no ano, com a maioria das carteiras ainda mantendo performance positiva no acumulado de 2026.
O mecanismo de transmissão do choque geopolítico
O gatilho para a reversão de tendência foi a escalada das hostilidades no Oriente Médio, que elevou o prêmio por risco em escala global. Segundo analistas, os fundos multimercados brasileiros ingressaram nesse período com posições predominantemente otimistas e um quadro técnico já fragilizado. A configuração típica dessas carteiras incluía exposição comprada ao Ibovespa, posições aplicadas em juros (tanto no Brasil quanto nos EUA) e uma postura vendida em dólar, o que significava uma aposta na valorização do real. Quando o conflito se intensificou, provocando uma alta brusca no petróleo e uma fuga para a segurança, essa combinação de posições exacerbou as perdas. A bolsa brasileira caiu, os juros futuros domésticos subiram em resposta aos temores inflacionários decorrentes do petróleo mais caro, e o dólar se valorizou fortemente contra o real, criando um cenário de três frentes negativas para os multimercados.
Perspectivas divergentes sobre a duração do impacto
A grande questão que paira sobre o mercado agora é a duração do conflito e suas implicações para o abastecimento global de petróleo. Enquanto alguns gestores adotam uma postura mais cautelosa, outros enxergam a correção como uma oportunidade. Dan Kawa, economista e gestor de recursos, pondera que choques geopolíticos dessa natureza raramente produzem impactos duradouros nos mercados financeiros. O padrão histórico, segundo ele, aponta para correções medianas de cerca de 6% nas bolsas globais em um espaço de poucas semanas, acompanhadas de valorização do ouro e dos títulos do Tesouro americano (Treasuries). “Apesar do risco de correção com valuations elevados, esses movimentos costumam criar oportunidades de compra, reforçando a importância da diversificação geográfica e setorial”, avalia Kawa.
Gestores aproveitam a volatilidade para aumentar exposição
Um exemplo concreto dessa visão é a estratégia adotada pela Verde Asset Management. Em seu relatório mensal de fevereiro, a gestora comunicou que está aumentando sua exposição à bolsa brasileira justamente após a queda desencadeada pela turbulência no Irã. A Verde manteve ainda suas apostas em juro real no Brasil e numa valorização do real frente ao dólar, sinalizando confiança de que os efeitos do conflito serão passageiros. A gestora argumenta que há um forte incentivo político para que as hostilidades não se prolonguem, especialmente considerando o calendário eleitoral norte-americano. “O que podemos dizer, por ora, é que existe preferência política por um conflito que dure pouco, afinal os Estados Unidos vão às urnas em novembro deste ano”, diz o relatório. “Assim, nos parece que a tendência é que o conflito seja reduzido (talvez não encerrado) nas próximas semanas, com provável alívio para os prêmios de risco”.
O dilema do investidor diante das perdas
Para os cotistas de fundos multimercados, o momento exige calma e análise criteriosa. A decisão mais impulsiva – resgatar o dinheiro no pior momento da queda – pode significar cristalizar as perdas e perder uma eventual recuperação caso o cenário se normalize rapidamente. Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos, lembra que os fundos que apresentaram as maiores perdas são justamente aqueles que operam com maior grau de risco em busca de retornos superiores, sendo naturalmente mais voláteis. Ele alerta que, diante de rendimentos ainda atrativos no Tesouro Selic ou em aplicações atreladas ao CDI, com liquidez imediata e risco muito menor, parte dos investidores pode migrar seus recursos. “Na hora que o investidor vê que está pagando um gestor, uma equipe de gestão para tentar bater o CDI e não bate, então ele vai decidir colocar o dinheiro no CDI, que tem menos volatilidade e tem a certeza de vai ganhar taxa de juros alta”, pondera Calestine.
A importância de entender a estratégia do fundo
Antes de qualquer movimento, especialistas recomendam que o investidor busque compreender profundamente a natureza do fundo no qual aplicou. É crucial avaliar se a estratégia do gestor é de longo prazo, se as perdas foram fruto de uma leitura equivocada do cenário ou simplesmente de uma posição tamanho em um mercado que sofreu um choque externo. “A depender da estratégia, ele pode inclusive manter aquele fundo porque a gente sabe que essas carteiras passam por período sem ganhos, mas se o investidor conhece a estratégia, conhece o gestor, decidir o que fazer fica mais claro”, aconselha Calestine. Reinaldo Le Grazie, ex-diretor do Banco Central e sócio da Panamby Capital, mantém uma visão otimista para o ano, classificando o episódio como um “evento inesperado” em um cenário que, no geral, ainda parece favorável para os multimercados.
A volatilidade desencadeada pela guerra reforça um princípio fundamental do investimento: a diversificação. Embora os multimercados já sejam, por definição, veículos diversificados, o episódio mostra como choques sistêmicos podem correlacionar negativamente diferentes classes de ativos de forma simultânea. Para o investidor, a lição é que mesmo as estratégias mais sofisticadas não estão imunes aos riscos geopolíticos. O diferencial, em momentos como este, não está apenas na capacidade de prever a turbulência, mas na resiliência da estratégia e na disciplina para não tomar decisões emocionais baseadas no curto prazo, mantendo o foco nos fundamentos de longo prazo que, eventualmente, devem se reafirmar quando a poeira baixar.

