O ator Gabriel Leone, conhecido por papéis dramáticos em novelas, séries e filmes, oficializou sua transição para a música com o álbum “Minhas Lágrimas”. O projeto não é uma coleção de composições próprias, mas um mergulho curatorial em canções pouco exploradas de grandes nomes da MPB, como Caetano Veloso, Djavan e Guilherme Arantes, ganhando arranjos que mesclam a tradição brasileira com influências rock. O disco marca a realização de um desejo antigo do artista, que sempre viu a música como parte fundamental de sua vida, mas que até então não havia encontrado o formato ideal para expressá-la profissionalmente.
O processo orgânico de curadoria das canções
Em entrevista ao TMDQA!, Leone revelou que a seleção das faixas foi um processo intuitivo e acumulativo, não um plano premeditado. Ao longo dos anos, o ator foi reunindo músicas de seus artistas preferidos que, apesar da qualidade, nunca alcançaram o status de grandes sucessos. “Foi uma coisa meio intuitiva de ir juntando canções que em algum momento chegavam pra mim dos jeitos mais variados possíveis”, explicou. Ele brinca que são “pérolas perdidas” do vasto catálogo da música popular brasileira. A surpresa veio quando, ao analisar o material reunido, percebeu um conceito natural: todas eram composições menos óbvias de compositores consagrados, algumas tão raras que nem sequer estavam disponíveis nas principais plataformas digitais.
A densidade lírica que dialoga com a dramaturgia
Leone destacou que o fio condutor entre as canções escolhidas vai além da obscuridade. “Essas músicas têm uma densidade em comum, têm um assunto em comum, uma temática em comum”, afirmou. Ele apontou para a qualidade poética das letras e a riqueza de imagens, elementos que ressoam profundamente com sua formação e atuação como ator dramático. Para ele, há uma comunicação natural entre a intensidade emocional dessas composições e o tipo de trabalho que desenvolve na interpretação. Essa sinergia entre sua persona artística e o material selecionado foi fundamental para moldar a identidade sonora do projeto final.
A definição de autoralidade nos arranjos e na interpretação
O ator confessou que, por anos, alimentou o desejo de fazer um projeto autoral de música, mas sempre com a expectativa de que precisaria compor suas próprias canções. Esse dia, no entanto, nunca chegou, seja por falta de tempo ou, como ele mesmo pondera, por uma possível falta de talento para a composição. A virada de chave aconteceu quando percebeu que poderia imprimir sua autoralidade não na criação do material, mas na releitura e nos arranjos. “Meu toque ‘autoral’ pode ser encontrado através dos arranjos de suas releituras”, definiu. Foi essa liberdade que permitiu que clássicos menos conhecidos da MPB ganhassem novas roupagens, muitas com um claro pé no rock.
As influências ecléticas que moldaram o som do disco
Criado em um ambiente musical diversificado, Leone teve acesso desde cedo a um amplo espectro de gêneros. Na infância, adotava a rotina de escolher três CDs por dia para ouvir, podendo alternar entre Elis Regina, Elvis Presley e Eagles no mesmo período. Essa formação eclética, somada à paixão pelo rock herdada do pai e vivida em bandas escolares, permeou o processo criativo do álbum. Curiosamente, ele e a equipe de produção não entraram no estúdio com um conceito sonoro rigidamente definido. O caminho foi descoberto coletivamente, com a banda experimentando e deixando que as referências de cada um – do rock ao soul, do pop ao jazz – emergissem organicamente durante as gravações.
Colaborações de peso com Ney Matogrosso e Juliana Linhares
O disco “Minhas Lágrimas” ganha camadas extras com participações especiais. A mais emblemática é a de Ney Matogrosso na regravação de “Eta Nois”, música de Luhli e Lucina. Leone e Ney são amigos de longa data, uma amizade que nasceu durante os preparativos para uma série sobre Secos e Molhados, na qual o ator interpretaria o cantor. Apesar do projeto não ter saído do papel, a conexão permaneceu. Para Leone, foi uma honra dividir o microfone com um artista de tamanha importância. A outra colaboração é com Juliana Linhares, voz destacada da nova geração da música brasileira, na faixa “As Portas do Meu Sorriso”. A escolha por uma voz feminina surgiu da necessidade de um contraponto agudo e delicado ao arranjo mais folk da música, originalmente um dueto entre Paulinho Tapajós e Raimundo Fagner.
O disco em meio ao sucesso internacional de “O Agente Secreto”
O lançamento do álbum coincide com um momento de grande visibilidade internacional para Gabriel Leone, graças ao filme “O Agente Secreto“, de Kleber Mendonça Filho. A produção, que conta com Leone ao lado de Wagner Moura, foi destaque na temporada de premiações e recebeu quatro indicações ao Oscar. Para o ator, a experiência reforça um momento de fortalecimento da cultura brasileira. “Você ver em dois anos consecutivos, dois filmes brasileiros não só indicados a melhor filme estrangeiro, mas a melhor filme também… Isso é muito especial”, refletiu. Ele vê esse reconhecimento como parte de um reerguimento mais amplo da cena cultural nacional, que inclui teatros lotados, shows e festivais.
A música como extensão da identidade cultural e atuação
Leone não dissocia sua carreira de ator de suas escolhas musicais. Para ele, os grandes mestres da MPB cujas canções interpreta – Caetano, Djavan, Guilherme Arantes – são pilares da cultura brasileira, com relevância histórica, política e social. Participar de produções audiovisuais que discutem política e identidade nacional, como “O Agente Secreto”, amplia seu olhar sobre esse repertório. “A cultura é, sim, uma ferramenta das mais poderosas de transformação social, de reflexão, de provocação e também, porque não, de entretenimento, de acolhimento”, afirmou. Gravar essas “pérolas” é, para ele, uma forma de honrar esse legado e apresentá-lo a novas gerações, com sua própria interpretação.
O exercício de mergulhar nas discografias completas
Uma das motivações por trás do álbum é incentivar o público a explorar além dos grandes sucessos. Leone relata um encontro com Djavan após cantar “Segredo” em uma homenagem. O próprio compositor comentou seu amor pela canção, que nunca se tornou um hit. Esse episódio ilustra a tese do ator: a grandeza desses artistas está justamente na vastidão e na profundidade de suas obras completas. “Quando você mergulha na obra desses caras, é tão vasto, e é tão potente… tantas outras dez, cem, duzentas, mil pérolas que eles têm”, defende. “Minhas Lágrimas” funciona, portanto, como uma porta de entrada, uma curadoria afetiva que revela facetas menos óbvias de gênios consagrados.
Com “Minhas Lágrimas”, Gabriel Leone consolida uma faceta artística há muito cultivada nos bastidores. Mais do que um projeto paralelo, o disco se apresenta como uma extensão natural de sua persona pública – o ator dramático que encontra na melancolia poética da MPB um espelho para suas emoções. Ao optar por um repertório de raridades e vesti-las com arranjos contemporâneos e influências rock, ele não apenas paga tributo aos seus ídolos, mas também os reinsere no debate cultural atual. O álbum é um testemunho de como a autoralidade pode residir na interpretação sensível e na releitura corajosa, oferecendo um novo olhar sobre tesouros que o tempo e as paradas musicais não apagaram, mas simplesmente deixaram à espera de quem os redescobrisse.

