Ibovespa perde 0,86% na terceira semana de baixa e Hapvida desaba 39%

Ibovespa acumula terceira semana de queda com saída de capital estrangeiro e incertezas fiscais, enquanto Hapvida despenca 39%.

O Ibovespa fechou a semana aos 171.031,73 pontos, com Hapvida liderando as perdas entre as ações do índice.
Destaques
  • A saída de capital estrangeiro da bolsa brasileira em agosto já ultrapassa R$ 22 bilhões, anulando o saldo positivo do ano.
  • O JP Morgan rebaixou a recomendação para ativos brasileiros de compra para neutro, sinalizando cautela.
  • A Hapvida registrou queda de 39,28% na semana, após lucro líquido cair 95,8% no segundo trimestre.

A terceira semana consecutiva de quedas do Ibovespa (IBOV) consolidou um cenário de aversão ao risco no mercado brasileiro, com o principal índice da bolsa acumulando desvalorização de 0,86% e fechando a última sessão aos 171.031,73 pontos. O movimento foi puxado por uma combinação de fatores locais e internacionais: a saída de fluxo estrangeiro, as incertezas fiscais no Brasil e nos Estados Unidos, e a pressão dos juros globais criaram um ambiente hostil para ativos de risco emergentes. Apesar do saldo semanal negativo, o índice conseguiu interromper uma sequência de 11 quedas consecutivas, registrando alta por três dias seguidos, o que trouxe certo alívio técnico.

O dólar à vista também sentiu o impacto, fechando a sexta-feira cotado a R$ 5,1451, com alta de 1,21% na semana.

A sangria do capital estrangeiro e o alerta do JP Morgan

O volume de capital estrangeiro que deixou a bolsa brasileira em agosto já ultrapassa os R$ 22 bilhões até o dia 19, praticamente anulando todo o saldo positivo acumulado no ano. Segundo dados compilados pelo JP Morgan, este já é o terceiro maior fluxo de saída desde a crise financeira de 2008, sinalizando um desmonte significativo de posições. O banco norte-americano reagiu à deterioração do cenário rebaixando sua recomendação para os ativos brasileiros de compra para neutro, um movimento que historicamente antecede um período de cautela entre investidores institucionais.

O que movimentou o Ibovespa na semana?

No front doméstico, o cenário eleitoral voltou ao centro das atenções com o início oficial das campanhas. A expectativa do mercado é de uma redução na vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL), e a não confirmação dos dois candidatos ao primeiro debate presidencial, marcado para domingo, adicionou uma camada extra de incerteza.

O ambiente fiscal também reacendeu alertas com a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1 de trabalho. A medida já foi enviada à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, com o senador Omar Azis (PSD-AM) como relator. A simples tramitação de pautas com potencial de impacto fiscal é suficiente para aumentar a percepção de risco entre agentes financeiros.

Nos dados econômicos, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) recuou 0,6% no mês, ligeiramente acima da mediana negativa de 0,5% esperada pelo mercado. O número reforçou a leitura de perda de tração da atividade econômica e alimentou a expectativa de moderação do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2026 (2T26).

Como o exterior derrubou a bolsa brasileira

O principal motor da aversão ao risco global foi a escalada dos juros dos títulos públicos das principais economias, especialmente os Estados Unidos. O movimento foi alimentado por preocupações crescentes com a inflação, a trajetória fiscal americana, tensões geopolíticas e a pressão dos preços de energia, impulsionada pela recente valorização do petróleo.

Na terça-feira, o rendimento da Treasury de 30 anos — referência para hipotecas imobiliárias de longo prazo nos EUA — atingiu o nível mais alto desde 2007. Para tentar conter o avanço dos juros e aumentar a liquidez, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou uma operação ampliada de recompra de títulos de longo prazo, dobrando o volume destinado aos papéis com vencimentos entre 10 e 20 anos e entre 20 e 30 anos. A medida valerá entre 9 de setembro e 4 de novembro.

Ainda assim, estrategistas avaliam que o impacto sobre os juros dos Treasuries deve ser limitado no curto prazo. O JP Morgan, por exemplo, não vê evidências de problemas de funcionamento no mercado que justifiquem uma ampliação maior das recompras de títulos longos neste momento.

Em paralelo, o Departamento do Tesouro informou que a dívida pública americana atingiu US$ 40,05 trilhões, ultrapassando pela primeira vez a marca dos US$ 40 trilhões — um valor mais que o dobro do registrado há uma década.

Sobe e desce do Ibovespa: MBRF dispara e Hapvida desaba 39%

Na ponta positiva, as ações da MBRF (MBRF3) saltaram quase 22% na semana, liderando os ganhos do índice. O principal catalisador foi a elevação da recomendação do Bank of America, que passou de neutra para compra, com aumento do preço-alvo de R$ 23 para R$ 26. O banco projeta uma combinação de recuperação das margens da carne bovina nos Estados Unidos, redução dos investimentos e forte melhora na geração de caixa a partir de 2027.

CÓDIGONOMEVARIAÇÃO SEMANAL
MBRF3MBRF ON21,59%
SLCE3SLC Agrícola20,20%
BEEF3Minerva ON15,99%
MRVE3MRV ON14,13%
UGPA3Ultrapar ON10,55%
PRIO3PRIO ON9,40%
PETR4Petrobras PN8,39%
CMIN3CSN Mineração ON8,26%
PETR3Petrobras ON7,99%
SUZB3Suzano ON7,84%

A ponta negativa foi dominada pela Hapvida (HAPV3), que despencou 39,28% — pela segunda semana consecutiva no topo das perdas. A pressão continuou vindo dos resultados do segundo trimestre (2T25), que mostraram um lucro líquido ajustado de apenas R$ 12,5 milhões, uma queda de 95,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A companhia também enfrentou um debate intenso com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que inicialmente bloqueou reajustes e cancelamentos de contratos envolvendo cerca de 947 mil beneficiários inadimplentes. Na sexta-feira, a agência voltou atrás e retirou, por ora, as restrições impostas, mas o estrago já estava feito.

O BTG Pactual cortou o preço-alvo das ações quase pela metade, avaliando que a companhia “tem um longo caminho pela frente”. O banco destaca os desafios evidenciados no 2T26: escalada da judicialização, frequências de uso ainda elevadas, sinistralidade (MLR) alta, provisões contingenciais e penalidades da ANS, aumento das despesas corporativas e deterioração dos fundamentos do balanço, com consumo significativo de caixa.

CÓDIGONOMEVARIAÇÃO SEMANAL
HAPV3Hapvida ON-39,28%
CEAB3C&A Modas ON-16,78%
BRKM5Braskem PN-14,65%
CSMG3Copasa ON-12,01%
SBSP3Sabesp ON-11,68%
GGBR4Gerdau PN-11,58%
LREN3Lojas Renner ON-11,30%
VAMO3Vamos ON-11,04%
AZZA3Azzas 2154-10,99%
GOAU4Metalúrgica Gerdau ON-10,54%

A performance do Ibovespa na semana evidencia um mercado fragmentado: enquanto setores como commodities e alimentos se beneficiam de movimentos pontuais e recomendações de buy-side, o setor de saúde suplementar enfrenta uma crise estrutural que pode levar a uma reavaliação completa do modelo de negócios. A combinação de juros globais elevados, incerteza fiscal local e fluxo estrangeiro negativo sugere que o Ibovespa pode continuar testando suportes nas próximas semanas, a menos que haja uma reversão clara no cenário macroeconômico.

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