Inteligência Artificial destrói modelo de negócios que fez fortuna do setor de software

O ciclo histórico que transformou empresas de software nas favoritas dos investidores globais — caracterizado por crescimento acelerado, margens elevadas e avaliações estratosféricas — chegou ao seu fim definitivo. Essa é a conclusão unânime de gestores financeiros que acompanham diariamente o impacto disruptivo da inteligência artificial sobre estruturas empresariais consolidadas. A sentença, proferida por Paulo Passoni, managing partner da Valor Capital Group, não admite meias palavras: o mercado ainda não compreendeu a magnitude da mudança estrutural em curso.

O fim da era das avaliações infladas no setor de software

Durante o debate no programa Stock Pickers Aftermarket, apresentado por Lucas Collazo e com participação de Andrew Reider, sócio do WHG Long Biased, e Christian Keleti, CEO da Alpha Key, ficou claro que o modelo baseado em “multiplos de dez vezes a receita” tornou-se obsoleto. “Todo mundo acreditava em software e achava que ia construir uma empresa e ia conseguir sair num múltiplo de dez vezes a receita. Acho que isso acabou agora”, afirmou Passoni. A inteligência artificial está corroendo justamente o elemento que sustentava essas avaliações exorbitantes: a escassez artificial de soluções tecnológicas.

Transformação estrutural versus correção cíclica

Diferente de momentos anteriores de ajuste no mercado tecnológico, os especialistas enfatizam que a atual transformação não é cíclica, mas estrutural. Não se trata de uma correção temporária que antecederia o retorno aos padrões anteriores. A IA está redefinindo radicalmente como o valor é criado, medido e precificado no setor. Empresas que insistirem no modelo tradicional verão suas avaliações de mercado declinarem de forma permanente, não passageira.

Reinvenção empresarial em ambiente de incerteza extrema

Segundo a análise dos gestores, as empresas de software que sobreviverão serão aquelas que encontrarem novas formas de gerar valor mensurável — possivelmente migrando para modelos híbridos que combinem tecnologia com serviços financeiros ou outras receitas mais tangíveis. O desafio, porém, é que essa reinvenção precisa acontecer num ambiente de enorme incerteza sobre quem, efetivamente, emergirá como vencedor nesse novo cenário.

A incapacidade do mercado em identificar vencedores e perdedores

Andrew Reider alertou que o mercado financeiro ainda não desenvolveu os instrumentos analíticos necessários para distinguir com segurança empresas que prosperarão daquelas que serão destruídas pela automação. “Tem vencedores e perdedores, e quem são os vencedores e perdedores está mudando muito rápido”, explicou o gestor. Lideranças de mercado conquistadas ao longo de décadas podem ser revertidas em questão de meses, à medida que novas ferramentas de IA redistribuem vantagens competitivas de forma imprevisível.

Setores em transformação acelerada

A incerteza se espalha por subsetores inteiros da economia digital: seguros, serviços de informação, logística, entretenimento e meios de pagamento enfrentam a mesma pergunta fundamental — quais empresas sobreviverão à automação massiva? Reider descreve o cenário atual como “um mundo bem difícil de investir”, onde posições de liderança se mostram cada vez mais frágeis e temporárias.

Imersão imediata como única estratégia viável

Para Paulo Passoni, a única resposta possível — tanto para empresas quanto para profissionais individuais — é a imersão imediata e intensa nas ferramentas de IA disponíveis. Quem não fizer essa transição por escolha será forçado a fazê-la por necessidade, ou simplesmente ficará irremediavelmente para trás. A recomendação do executivo é radical em sua simplicidade: dedicar três meses exclusivamente ao aprendizado prático da operação de inteligência artificial no cotidiano profissional.

A curva de aprendizado que não espera ninguém

A lógica por trás dessa recomendação é implacável. Num mercado onde as ferramentas evoluem em velocidade exponencial, a janela de oportunidade para aprendizado está se fechando rapidamente. “Se você está muito ocupado e não consegue aprender, você vai ser mandado embora”, afirmou Passoni. O executivo reconhece que sua sugestão soa extrema — e é exatamente por isso que a faz. A maioria das pessoas ainda subestima a velocidade da transformação porque compara as ferramentas atuais com versões primitivas de dois anos atrás.

O erro da avaliação baseada em tecnologias obsoletas

Profissionais que experimentaram versões iniciais do ChatGPT e concluíram que a tecnologia era “interessante, mas limitada” estão tomando decisões estratégicas com informações desatualizadas. As capacidades atuais dos sistemas de IA representam um salto qualitativo que redefine completamente o que é possível automatizar, criar e escalar em praticamente todos os setores da economia.

O aviso final para investidores e profissionais

A mensagem final dos gestores foi um alerta sem eufemismos: “Se você não aprender esse negócio, vai se arrepender daqui a dois anos.” Esta não é uma previsão especulativa, mas uma constatação baseada na observação diária do epicentro do mercado de venture capital americano, onde empresas estão reformulando estruturas organizacionais, reduzindo equipes e redistribuindo funções através da automação em ritmo acelerado.

A transformação em curso exige mais do que ajustes incrementais — demanda uma reavaliação completa dos fundamentos que guiaram investimentos e estratégias empresariais nas últimas décadas. Empresas que entenderem que a criação de valor no futuro próximo dependerá da integração profunda entre capacidades humanas e sistemas inteligentes terão chances significativamente maiores de não apenas sobreviver, mas prosperar nesta nova realidade. Para todas as demais, o caminho será de erosão gradual de relevância, receita e, finalmente, existência no mercado.

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