O Brasil já superou a fase em que a falta de antenas e cabos era o principal entrave para levar a internet a todos os cantos do país. O diagnóstico, direto e cirúrgico, veio do CEO da Vivo, Christian Gebara, durante o Painel Telebrasil 2026, realizado em Brasília. Para ele, o gargalo atual não está na infraestrutura, mas na capacidade da população de usar a tecnologia disponível. Em outras palavras, o país tem rede, mas falta letramento digital para que milhões de brasileiros possam de fato usufruir dos benefícios da conectividade.
Cobertura não é mais o problema
A afirmação de Gebara se baseia em números concretos do setor. Segundo o executivo, as operadoras já alcançam praticamente 100% da população brasileira com redes 4G. No 5G, a cobertura já atinge 70% dos brasileiros. Os dados mostram que a expansão física da infraestrutura de telecomunicações, que por décadas foi o grande desafio, está em estágio avançado. A conta é simples: se a cobertura já é quase universal, por que milhões de pessoas ainda estão desconectadas? A resposta, segundo Gebara, está em uma barreira muito mais complexa de ser rompida. Apenas 4% das pessoas que não acessam a internet apontam a ausência de rede como motivo. Outros 20% mencionam o custo como impedimento. Mas a fatia mais expressiva, e preocupante, é formada por aqueles que simplesmente não veem utilidade no mundo digital ou não sabem como navegar por ele.
O abismo da incompetência digital
O dado mais contundente apresentado pelo CEO da Vivo revela a profundidade do problema: mais da metade da população brasileira não sabe realizar tarefas básicas como editar um arquivo no Word ou anexar um documento a um e-mail. Não se trata de uma questão de inteligência ou vontade, mas de falta de exposição e aprendizado. Gebara foi enfático ao defender que não é possível aspirar a ser um país digital sem antes tornar a internet mais acessível do ponto de vista do letramento. Essa lacuna de habilidades digitais básicas cria um ciclo de exclusão que vai muito além do entretenimento. Impede o acesso a serviços essenciais como educação a distância, telemedicina, oportunidades de emprego, serviços bancários e até mesmo a participação plena na vida cívica. O problema, portanto, é estrutural e exige uma abordagem coordenada entre setor privado, poder público e sociedade civil.
Carga tributária como barreira de custo
Além da questão educacional, Gebara também reforçou um pleito antigo do setor de telecomunicações: a revisão da carga tributária. O executivo criticou abertamente o peso dos fundos setoriais e argumentou que os impostos elevados distorcem o preço final dos serviços para o consumidor. A defesa é por um reordenamento tributário que permita chegar a um preço justo e simétrico para todos os brasileiros. A lógica é direta: reduzir o custo dos planos e pacotes, combinado com programas de capacitação, pode ser o caminho para atrair essa parcela da população que hoje enxerga a conectividade como algo distante ou irrelevante. A equação, para Gebara, não se resolve apenas com investimento em infraestrutura, mas com uma política pública que ataque simultaneamente as barreiras de custo e de conhecimento.
Fibra, diversificação e o futuro digital
Enquanto debate o cenário macro do setor, a Vivo segue expandindo sua presença física e digital. A operadora já conta com 32 milhões de domicílios passados com fibra óptica e 8 milhões de clientes conectados a essa tecnologia. Mas a estratégia vai além da conectividade tradicional. A empresa está em pleno processo de diversificação dos negócios, avançando em áreas como saúde, educação, cloud computing, cibersegurança e soluções B2B. Para Gebara, esse movimento representa o início de uma jornada com enorme potencial de crescimento. O executivo enxerga as telecomunicações como habilitadoras de uma nova onda tecnológica, desta vez impulsionada pela inteligência artificial e pelo 5G, de forma similar ao que ocorreu com a internet nas décadas anteriores.
Inteligência artificial na prática
A inteligência artificial já deixou de ser promessa e se tornou ferramenta concreta na operação da Vivo. Gebara destacou dois exemplos práticos do uso da tecnologia: a leitura automatizada de editais em operações B2B, que agiliza e reduz erros em processos comerciais, e sistemas preditivos capazes de identificar falhas na rede dentro da casa do cliente antes mesmo que o problema se manifeste. Esse tipo de aplicação mostra como a IA pode gerar ganhos de eficiência operacional e, ao mesmo tempo, melhorar a experiência do usuário final. A visão do CEO é clara: as telecomunicações estão prestes a recuperar o protagonismo como motor de transformação digital, e a Vivo quer estar na linha de frente dessa revolução. O caminho, no entanto, exige que o país resolva primeiro a equação básica do letramento digital, sob pena de ver a tecnologia avançar enquanto milhões ficam para trás.
