IBGE lança mapas-múndi invertidos com Brasil no centro

IBGE lança três mapas-múndi temáticos com Brasil no centro e Sul no topo, desafiando a visão eurocêntrica tradicional.

Destaques
  • Os mapas adotam a projeção Equal Earth, aprovada pela ONU, que reduz distorções de área entre continentes.
  • A inversão vertical com o Sul no topo é uma escolha simbólica e técnica, não um erro cartográfico.
  • Os mapas destacam países do G20, BRICS, Mercosul, CPLP e OTCA, além da biodiversidade global.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) disponibilizou três mapas-múndi temáticos que posicionam o Brasil no centro da representação, rompendo com a tradicional centralidade europeia. A iniciativa, lançada como parte das comemorações do 7 de setembro, Dia da Independência, inclui versões gratuitas para download e impressos vendidos na loja virtual do órgão, com preços entre R$ 10 e R$ 90, nos tamanhos A0 a A4. Mais do que uma novidade cartográfica, os mapas trazem à tona discussões sobre distorções históricas, representação geopolítica e o uso de novas projeções aprovadas internacionalmente.

Três mapas temáticos com Brasil no centro

Os três mapas foram produzidos entre 2024 e 2026 e adotam a projeção Terra Igual (Equal Earth), aprovada pela ONU por reduzir as distorções de área entre continentes – um problema clássico da projeção de Mercator, de 1569, que amplia desproporcionalmente regiões próximas aos polos, como Europa e América do Norte, e encolhe áreas equatoriais, como África e América do Sul.

O primeiro mapa, chamado Mapa-múndi IBGE G20, destaca os países membros do G20 e as nações com representação diplomática brasileira. O segundo, Mapa-múndi Invertido, evidencia os integrantes dos BRICS, Mercosul, CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica). O terceiro, Riqueza de Espécies 2025, é um mapa temático sobre biodiversidade global, posicionando o Brasil no centro e, em todos os casos, o hemisfério Sul na parte superior da representação.

Essa inversão vertical – com o Sul no topo – pode causar estranheza inicial, mas não há erro cartográfico. A orientação com o norte voltado para cima é uma convenção histórica consolidada pela cartografia europeia, não uma verdade científica. Qualquer direção é igualmente válida para representar o globo em uma superfície plana.

Por que os mapas estão invertidos?

A decisão do IBGE de lançar mapas com o Brasil no centro e o Sul no topo não é aleatória. Trata-se de um gesto simbólico e técnico. Simbólico porque questiona a hegemonia visual do Norte global, que durante séculos associou a parte superior do mapa a riqueza, desenvolvimento e poder, enquanto o Sul era relegado à periferia. Técnico porque a projeção Equal Earth, adotada nos três mapas, foi desenvolvida exatamente para minimizar distorções de área, oferecendo uma representação mais fiel da superfície terrestre.

Para entender a diferença, vale lembrar que a projeção de Mercator, ainda muito usada em aplicações de navegação e em mapas escolares, distorce brutalmente as proporções: a Groenlândia parece maior que a África, quando na realidade a África é 14 vezes maior. A Equal Earth, por sua vez, mantém áreas relativas corretas, sacrificando a forma dos continentes para evitar exageros – uma escolha mais adequada para mapas temáticos, como os de biodiversidade ou blocos econômicos.

O IBGE também segue uma linha histórica de contestação cartográfica. A obra América Invertida, do artista uruguaio Joaquín Torres García, de 1943, já colocava o Sul no topo para questionar a visão tradicional do mundo. A diferença é que, agora, a inversão vem de um órgão oficial de estatística e geografia, com respaldo técnico e acadêmico.

O que muda na prática para o leitor brasileiro?

Para o público brasileiro, ver o Brasil no centro do mapa é mais que uma questão estética: é um reposicionamento geopolítico. O país deixa de estar no canto inferior esquerdo (como na maioria dos mapas ocidentais) e passa a ocupar o eixo central da representação, com a América do Sul inteira ganhando destaque. Isso pode influenciar a percepção de estudantes, profissionais de logística e até formuladores de políticas públicas, que passam a enxergar o mundo a partir de uma referência local – e não europeia ou norte-americana.

Os mapas estão disponíveis para download gratuito na loja virtual do IBGE (em formato digital) e podem ser adquiridos impressos. Os valores variam conforme o tamanho: A4 por R$ 10, A3 por R$ 25, A2 por R$ 45 e A0 por R$ 90. A tiragem impressa é limitada, mas o formato digital permite que qualquer interessado baixe e imprima os arquivos.

Projeção Equal Earth: distorções e uso técnico

A projeção Equal Earth foi criada em 2018 por Tom Patterson, Bojan Šavrič e Bernhard Jenny, e rapidamente ganhou adoção em organizações como a ONU e o próprio IBGE. Diferente da projeção de Mercator, que é conforme (preserva ângulos locais, mas distorce áreas), a Equal Earth é equivalente (preserva áreas, mas distorce formas e ângulos). Para mapas temáticos – como os de blocos econômicos, biodiversidade ou densidade populacional – a equivalência é mais importante, já que a comparação visual de tamanhos entre regiões se torna fidedigna.

Na prática, a Equal Earth produz um mapa com bordas levemente curvadas, semelhante à projeção de Robinson, mas com menor distorção de área. O IBGE optou por centralizar o meridiano 60°O (aproximadamente o eixo do Brasil), o que coloca o país no centro da imagem. A inversão vertical é independente da projeção: trata-se de uma rotação de 180 graus, aplicada sobre a representação já centralizada.

Especialistas apontam que a familiaridade com o norte no topo é um viés cultural, não cartográfico. Em mapas medievais, por exemplo, o leste frequentemente aparecia no topo (daí o termo “orientação”). A escolha do IBGE, portanto, não é uma correção de erro, mas uma afirmação de que o mundo pode – e deve – ser representado sob diferentes perspectivas, especialmente quando se busca incluir vozes e regiões historicamente marginalizadas.

O lançamento dos mapas temáticos com Brasil no centro representa um marco na cartografia brasileira, combinando precisão técnica com reposicionamento simbólico. Em um momento de crescente protagonismo do país em fóruns como BRICS e G20, a ferramenta de visualização geográfica ganha relevância prática, didática e política. Resta saber se escolas e universidades brasileiras adotarão a nova representação em seus materiais didáticos, consolidando uma visão de mundo mais alinhada com a realidade geográfica e geopolítica do Sul global.

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