Multimercados reduzem exposição à Bolsa e reforçam aposta na queda da Selic

Os gestores de fundos multimercados iniciaram março de 2026 com uma revisão significativa de suas estratégias. Após um início de ano marcado por forte desempenho nos mercados de risco, as principais casas de gestão do país estão reequilibrando seus portfólios, adotando uma postura mais seletiva em relação à Bolsa de Valores e concentrando esforços em posições que se beneficiam da iminente queda da taxa básica de juros, a Selic.

Mudança de estratégia após rali inicial do ano

Os primeiros dois meses de 2026 apresentaram um cenário paradoxal nos mercados globais. Enquanto incertezas econômicas e geopolíticas se intensificavam, os ativos de risco registraram performances robustas em meio a uma volatilidade relativamente baixa. Este ambiente levou as gestoras a realizar ajustes preventivos em suas carteiras, reduzindo exposições diretas a ações e aumentando alocações em ativos defensivos e em instrumentos de juros.

O consenso em torno da queda da Selic

O ponto de convergência mais claro entre os multimercados é a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central inicie um ciclo de cortes da taxa Selic. Com a reunião marcada para o dia 18 de março, as apostas do mercado se dividem entre reduções de 0,25 ou 0,5 ponto percentual. Nas Opções de Copom negociadas na B3, contudo, a expectativa por um corte mais profundo predomina, refletindo a confiança dos investidores na trajetória descendente da inflação.

Inflação em trajetória de queda sustenta movimento

Apesar de surpresas altistas pontuais, como a verificada no IPCA-15 de fevereiro, a avaliação predominante entre os gestores é que a inflação brasileira mantém uma tendência de convergência para a meta estabelecida pelo Banco Central. Esta perspectiva permite que as casas de gestão projetem um ciclo de afrouxamento monetário que pode levar a Selic para patamares próximos de 11% ao ano ao longo dos próximos meses, criando oportunidades específicas nos mercados de juros.

Redução seletiva da exposição a ações

Enquanto reforçam posições em juros, os multimercados adotam uma abordagem mais cautelosa em relação ao mercado acionário. Após a valorização expressiva observada no início do ano, diversas gestoras optaram por reduzir a exposição líquida a ações ou implementar estratégias de hedge para proteger ganhos. A avaliação técnica indica que a Bolsa brasileira, especialmente os papéis que compõem o topo do índice Ibovespa, atingiu níveis considerados caros, pressionados por forte entrada de capital estrangeiro.

Estratégias de proteção ganham espaço

“A bolsa brasileira, no topo do índice, ficou cara. Os principais nomes foram puxados de maneira muito pesada porque muito dinheiro foi colocado dentro do Brasil comprando índice”, avalia Ruy Alves, sócio e co-gestor multimercados da Kinea. Esta percepção levou muitas gestoras a adotar posições de hedge contra o índice enquanto buscam oportunidades em empresas de menor porte ou setores específicos que ainda apresentam avaliações mais atrativas.

Seletividade como palavra de ordem

A Bahia Asset Management e a Opportunity Asset Management estão entre as casas que defendem uma exposição mais seletiva a ativos de risco. Este posicionamento reflete não apenas a avaliação técnica do mercado brasileiro, mas também o cenário global marcado por tensões geopolíticas que podem impactar a economia mundial. A combinação entre incertezas externas e valorização doméstica cria um ambiente que exige maior discriminação na escolha dos investimentos.

Impacto das tensões geopolíticas no petróleo

O recente conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã elevou temporariamente os temores de pressão inflacionária via aumento dos preços do petróleo. Este movimento afetou principalmente os juros de curto prazo, introduzindo volatilidade adicional ao mercado. No entanto, a avaliação predominante entre os gestores é que este impacto será transitório e não alterará a trajetória estrutural de queda da inflação global.

Resiliência do cenário macroeconômico global

“A inflação segue em trajetória de queda em diversas economias, permitindo que os bancos centrais avancem gradualmente no processo de redução de juros”, destaca a Adam Capital em sua análise mensal. Esta visão é compartilhada pela maioria das gestoras, que consideram que o ambiente macroeconômico global mantém condições para o início de ciclos de afrouxamento monetário coordenados, ainda que em ritmos diferenciados entre países.

Reconfiguração dos portfólios multimercados

Além da migração de recursos de ações para juros, os gestores estão realizando outros ajustes importantes em suas carteiras. Muitas casas aumentaram suas posições em ouro, ativo tradicionalmente visto como proteção em momentos de incerteza. Simultaneamente, reduziram apostas agressivas na desvalorização do dólar, reconhecendo que o ambiente geopolítico pode limitar a capacidade de queda da moeda americana no curto prazo.

Foco no cenário doméstico como determinante

Apesar dos fatores globais, os multimercados consideram que o cenário brasileiro será preponderante para definir o ritmo e a magnitude do ciclo de queda da Selic. A combinação entre inflação controlada, perspectiva de reformas e fluxos de capital favoráveis cria um ambiente propício para investimentos direcionados ao mercado doméstico, mesmo com a redução da exposição geral a ações.

Visão positiva de longo prazo para ações brasileiras

É importante destacar que, mesmo com a postura mais cautelosa no curto prazo, as gestoras mantêm uma visão positiva para as ações brasileiras no médio e longo prazos. A expectativa de continuidade dos fluxos de capital estrangeiro para o mercado doméstico, combinada com a redução gradual dos juros, cria fundamentos sólidos para o mercado acionário, ainda que exija maior seletividade na escolha dos ativos.

A reconfiguração dos portfólios multimercados reflete uma fase de transição nos mercados financeiros, onde a certeza sobre a direção dos juros contrasta com a necessidade de proteção contra volatilidades pontuais. Esta movimentação estratégica demonstra como os gestores profissionais estão posicionando suas carteiras para capturar oportunidades específicas enquanto gerenciam riscos em um ambiente ainda marcado por incertezas. O equilíbrio entre otimismo doméstico e cautela global define o tom das decisões de investimento neste início de 2026, com a flexibilidade característica dos multimercados sendo testada em um cenário de múltiplas variáveis em movimento.

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