Enquanto a Strategy segue ampliando sua posição em Bitcoin, o economista Peter Schiff volta a soar o alerta sobre a sustentabilidade do modelo de financiamento da empresa. Na última semana, a companhia de Michael Saylor comprou 334 BTC por cerca de US$ 28,7 milhões e recomprou US$ 176,3 milhões em ações preferenciais STRC, em um movimento que combina acumulação de criptoativo com gestão ativa de capital. A contradição entre a compra e o alerta de Schiff expõe uma questão central: até que ponto o apetite do mercado por risco pode sustentar o ritmo de aquisições da Strategy?
Compra de 334 BTC reforça posição, mas ritmo desacelera
A nova aquisição eleva as participações da Strategy para 848.000 BTC, o equivalente a pouco mais de 4% de todo o suprimento de Bitcoin em circulação. O preço médio da compra ficou em US$ 85.838,80 por unidade, com desembolso total de US$ 28,7 milhões. No fechamento do último período relatado, o BTC era negociado em torno de US$ 86.000, com alta superior a 4% em sete dias e mais de 8% em trinta dias — ainda assim, 30% abaixo do valor observado no mesmo período do ano anterior.
O contraste com a semana anterior é notável. No final de setembro, a companhia havia adquirido 1.665 BTC por aproximadamente US$ 142,8 milhões, um volume seis vezes maior. Essa redução na escala das compras pode indicar uma postura mais cautelosa por parte da diretoria, ou simplemente refletir a flutuação do preço e a disponibilidade de caixa após as recompras de ações preferenciais.
Financiamento da Strategy: reserva separada do caixa discricionário
O último relatório financeiro da Strategy distingue dois blocos de ativos em dólar. Há uma reserva de US$ 4,88 bilhões, destinada a obrigações específicas — dividendos preferenciais e juros de dívida —, e um montante de US$ 833,4 milhões em caixa em dólar (USD Cash) para fins gerais, incluindo a aquisição de Bitcoin. Essa separação contábil não é meramente cosmética: a reserva não pode ser tocada para novas compras sem comprometer compromissos já assumidos, enquanto o caixa é o fundo mais direto para operações discricionárias.
Na última semana, a empresa destinou US$ 15,7 milhões provenientes da venda de ações ordinárias da MSTR integralmente ao Bitcoin, e complementou a operação com um saque de US$ 13 milhões do caixa em dólar. Essa combinação de fontes — emissão de ações e caixa próprio — mostra que a Strategy ainda consegue captar recursos no mercado de ações comum, mas o volume já não é suficiente para manter o ritmo de compras dos meses anteriores.
| Item | Valor | Indicação |
|---|---|---|
| Bitcoin comprado | 334 BTC por ~US$ 28,7 mi | Continuidade da acumulação, com ritmo menor |
| STRC recomprada | US$ 176,3 milhões | Capital direcionado a recomprar ações preferenciais |
| Holdings totais de BTC | 848.000 BTC | Pouco mais de 4% do suprimento global |
| Reserva USD / Caixa USD | US$ 4,88 bi / US$ 833,4 mi | Separação entre obrigações e fundo discricionário |
| Venda de ações MSTR | US$ 15,7 mi em receita líquida | Capital novo direcionado ao Bitcoin |
Por que o alerta de Schiff sobre Bitcoin importa agora
Peter Schiff concentrou sua crítica na capacidade da STRC — a ação preferencial da Strategy — de continuar funcionando como fonte de capital novo. Para ele, a valorização recente da STRC, que subiu de US$ 75 para cerca de US$ 99,40 após o verão, não resolve o problema de fundo: a empresa ainda não conseguiria emitir novas ações STRC com preço que justifique a captação, considerando o dividendo variável de 12% e o rendimento efetivo de 12,07%.
Schiff reconhece que as recompras da Strategy e o movimento do Bitcoin acima de US$ 80.000 ajudaram a sustentar a recuperação do papel, mas insiste que isso não restaura o mecanismo de financiamento. A recompra de US$ 176,3 milhões em STRC foi financiada majoritariamente pelo caixa da empresa e por juros sobre investimentos de curto prazo, o que reduz a liquidez disponível para futuras aquisições de BTC.
O argumento de Schiff ganha relevância quando observado em conjunto com a redução no volume de compras semanais. Se a STRC não pode ser emitida em escala, e as vendas de MSTR geram cada vez menos receita, a Strategy passa a depender quase exclusivamente de seu caixa existente para continuar comprando Bitcoin — um recurso finito.
Recuperação acima de US$ 80 mil: curto prazo ou reversão?
Schiff enxerga o movimento do Bitcoin acima dos US$ 80.000 como uma melhora de confiança acompanhada por cobertura de posições vendidas (short covering), não como uma mudança estrutural. Ele vincula sua visão pessimista a um cenário macroeconômico tenso: queda nos preços dos títulos, sinais fracos de inflação e emprego, e petróleo perto de US$ 91 o barril, após a promessa do G7 de liberar 100 milhões de barris das reservas estratégicas.
Esses fatores, na leitura de Schiff, criam um ambiente de risco no qual ações de tecnologia tendem a sofrer correções mais violentas — e o Bitcoin, por ser altamente correlacionado a ativos de risco, acabaria arrastado nessa queda. A Strategy, por carregar um balanço extremamente concentrado em BTC, estaria então sujeita a uma dupla pressão: o preço do ativo caindo e a capacidade de obter capital novo secando.
A previsão de Schiff não é um consenso técnico. Os dados atuais mostram um preço que se mantém firme acima de US$ 86.000, e a própria empresa segue recomprado suas ações preferenciais — um sinal de que a administração acredita no valor do papel. Ainda assim, a divergência entre o otimismo da Strategy e o ceticismo de Schiff aponta para uma pergunta inevitável: quanto tempo a empresa pode manter suas compras em um ambiente de liquidez restrita?
O próximo trimestre deve dar uma resposta mais clara. Se a Strategy continuar reduzindo o ritmo de aquisições, o alerta de Schiff terá encontrado eco nos números. Se, por outro lado, a empresa conseguir levantar novo capital por outro instrumento, a tese da continuidade ganhará força. Por ora, a combinação de compra de BTC e recompra de STRC sugere uma gestão cautelosa, que prioriza a estabilidade do balanço à expansão agressiva — uma mudança de postura em relação à estratégia que marcou os últimos anos.

