Órgão britânico alerta para risco de cola com smart glasses em provas

Presidente do Ofqual detalha como smart glasses e IA estão tornando a detecção de fraudes em exames quase impossível.

Ofqual registrou 2.225 casos de fraude com dispositivos inteligentes em exames britânicos de 2025.
Destaques
  • Smart glasses com chatbots de IA eliminam a necessidade de cúmplices humanos na fraude acadêmica.
  • 44,3% das irregularidades em provas do Reino Unido em 2025 envolveram smartphones ou dispositivos inteligentes.
  • College Board proibiu smart glasses no SAT a partir de 2026; Enem ainda não tem política específica.

O órgão regulador de exames do Reino Unido, Ofqual (Office of Qualifications and Examinations Regulation), acendeu um alerta sobre uma nova fronteira da fraude acadêmica: o uso de smart glasses e dispositivos vestíveis imperceptíveis para colar em provas. Em seu primeiro podcast oficial, o presidente Ian Bauckham detalhou como a tecnologia está mudando o jogo da trapaça, tornando a detecção cada vez mais desafiadora para fiscais e instituições de ensino.

O tamanho do problema: 2.225 casos de fraude com dispositivos inteligentes

Os números recentes ajudam a dimensionar a questão. No verão de 2025, o Ofqual registrou 5.025 casos de irregularidades nas provas de GCSE, AS e A-Level — exames que equivalem ao ensino médio e pré-vestibular britânicos. Desses, impressionantes 2.225 casos (44,3% do total) envolveram o uso de smartphones ou outros dispositivos inteligentes. Essa categoria lidera as estatísticas de fraude desde 2018 e, a cada ano, os números sobem: foram 1.825 em 2022, 2.180 em 2023, 2.140 em 2024 e os 2.225 de 2025. As consequências são severas — 545 estudantes perderam a qualificação parcial ou total, e outros 1.240 tiveram a nota reduzida como punição.

AnoCasos de fraude com dispositivos inteligentes
20221.825
20232.180
20242.140
20252.225

O que preocupa Bauckham não é apenas o volume, mas a evolução dos métodos usados. Se antes o smartphone no bolso era o principal instrumento de trapaça, agora a ameaça vem de dispositivos que passam despercebidos até mesmo por fiscais experientes.

Dos smartphones aos óculos inteligentes: a evolução da trapaça

Smartphones podem ser confiscados ou deixados na mochila, mas os smart glasses mudam a equação. Bauckham descreveu o cenário: “Os smart glasses podem ser os próximos. São óculos que exibem texto visível apenas para quem os usa, dentro das lentes”. Modelos já disponíveis no mercado se camuflam perfeitamente como óculos comuns, e fones de ouvido ultrafinos se escondem sob o cabelo. Esses dispositivos são vendidos abertamente em anúncios de redes sociais como “solução para exames”. O problema é que um fiscal de prova é especialista em regras, não em hardware vestível. Distinguir um par de óculos comuns de um smart glass equipado com display embutido é uma tarefa quase impossível em uma sala com 130 mil estudantes.

A ameaça da IA combinada com smart glasses

O cenário fica ainda mais preocupante com a chegada da inteligência artificial. Nos métodos tradicionais de cola com smartphone, o estudante precisava fotografar a questão, enviar a um cúmplice externo e esperar a resposta — um processo que envolvia risco de detecção e atraso. Com smart glasses acoplados a um chatbot de IA, não há necessidade de cúmplice. O dispositivo lê a pergunta diretamente através das lentes, um fone oculto recebe a resposta gerada pela IA em segundos, e tudo acontece sem qualquer intervenção humana externa. A fraude se torna autossuficiente e quase impossível de detectar por meios visuais tradicionais.

Legislação britânica e o desafio regulatório

O governo britânico já reagiu. Em abril de 2026, o Children’s Wellbeing and Schools Act tornou obrigatória a proibição de celulares nas escolas da Inglaterra durante todo o período letivo, não apenas nas provas. Para Bauckham, essa medida simplifica o trabalho dos fiscais, já que elimina a ambiguidade de regras como “pode trazer o celular, mas não pode usar durante a prova”. No entanto, a lei não resolve o problema dos smart glasses, que não se enquadram na definição de “telefone celular”. Não é possível simplesmente proibir óculos — muitos estudantes dependem deles para correção visual. E não existe, até o momento, um método instantâneo e prático para diferenciar um óculos comum de um smart glass no meio de uma sala de exame.

Casos no Japão e no mundo: um alerta para o Brasil

O problema não é uma exclusividade britânica. Em fevereiro de 2024, a Universidade de Waseda, no Japão, flagrou um candidato usando smart glasses para fotografar questões e enviá-las a um cúmplice externo — o caso resultou em indiciamento por falsidade ideológica. No ano seguinte, o exame TOEIC foi alvo de uma fraude organizada que combinava smart glasses com fones de condução óssea. Nos Estados Unidos, o College Board, responsável pelo SAT, proibiu totalmente o uso de smart glasses a partir da primavera de 2026. Candidatos que precisam de óculos com lentes graduadas são orientados a usar modelos comuns ou remarcar a prova.

No Brasil, o sistema do Enem exige que o candidato mantenha o celular desligado dentro do envelope lacrado, mas não há uma política específica para smart glasses. A possibilidade de um segundo aparelho escondido na bolsa, conectado por Bluetooth a um par de óculos inteligentes, é um risco real que não pode ser ignorado. Soluções técnicas existem, como o uso de equipamentos de bloqueio de sinal, mas o custo ainda é proibitivo para a escala de provas como o Enem. Na prática, a principal barreira contra esse tipo de fraude continua sendo a fiscalização humana intensificada — o que, diante da sofisticação dos dispositivos, pode não ser suficiente.

O alerta de Bauckham não é direcionado apenas ao Reino Unido. O preço dos smart glasses cai continuamente, o design se aproxima cada vez mais do de óculos comuns e a miniaturização de dispositivos com IA não para. A premissa fundamental dos exames — avaliar conhecimento com papel e caneta — está sendo silenciosamente corroída pela tecnologia. A pergunta que fica é como o Brasil, com sua estrutura de provas de massa, pretende responder a esse desafio antes que a primeira grande fraude com smart glasses aconteça em território nacional.

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