Durante boa parte de 2025, investidores globais mantiveram posições otimistas no real, apostando na moeda brasileira como um dos destinos preferenciais entre os emergentes. No entanto, a maré virou quando referências do mercado internacional emitiram alertas sobre o Brasil, desencadeando um movimento de realização de lucros e realocação de capital que coloca a moeda brasileira sob pressão justamente na reta final do calendário eleitoral. O real recua entre emergentes com prêmio eleitoral, e o movimento já se reflete nas cotações.
O primeiro sinal amarelo veio quando o JPMorgan rebaixou a recomendação para a compra de ativos brasileiros, saindo de overweight (compra) para neutro. Quase em paralelo, a provedora de índices MSCI anunciou a exclusão dos papéis da Stone da sua carteira de referência para o país. Essa dupla mudança de postura serviu como estopim para que grandes fundos começassem a reavaliar a exposição ao risco Brasil, criando um cenário de aversão que impacta diretamente o câmbio.
O prêmio eleitoral entra na conta
À medida que o calendário avança e o ambiente político ganha protagonismo nas análises diárias, o mercado passa a precificar o chamado prêmio eleitoral. O conceito não é novo: trata-se do retorno extra que investidores exigem para manter capital em um país sujeito a incertezas institucionais e mudanças de política econômica. No caso brasileiro, a preocupação vai além do resultado do pleito em si e alcança a sustentabilidade da trajetória fiscal nos próximos anos.
A dúvida central é se haverá disposição e espaço político para promover ajustes estruturais nas contas públicas. Sem essa sinalização, os investidores exigem um retorno maior para manter o capital no país. Para reduzir esse risco, gestores realizam lucros, vendem real e compram moedas emergentes de países que não enfrentam incertezas políticas no momento, além do próprio dólar. O resultado é uma pressão baixista sobre o real que se intensifica a cada nova sondagem eleitoral.
Não à toa, relatórios divulgados nos últimos dias por grandes bancos mostram que o mercado entra na campanha com posições ainda compradas em real, mas já há um movimento de desmonte diante do cenário eleitoral. Na semana, o real acumula uma queda de cerca de 2,5% com relação ao dólar. No mesmo período e na mesma base de comparação, o peso mexicano e o peso colombiano avançaram 0,60%, enquanto o won da Coreia do Sul se manteve estável, com leve ganho de 0,06%.
“O dólar acumulou cinco altas consecutivas e chegou a superar R$ 5,23 nesta sexta-feira, maior nível desde o início de julho. O real teve o pior desempenho entre as moedas mais líquidas no período, mesmo com o enfraquecimento global da moeda norte-americana”, afirma Bruna Sene, analista de Renda Variável da Rico.
Volatilidade à frente
A desmontagem de posições compradas no real acelera a alta do dólar. Basta ver que a moeda norte-americana superou a média móvel de 200 dias, cotada em torno de R$ 5,20. Esse rompimento técnico é significativo porque indica que o movimento não é apenas pontual, mas pode ter continuidade enquanto o cenário político não se dissipar. O comportamento dos ativos brasileiros, entre eles o real, continuará sensível aos desdobramentos da campanha eleitoral e às propostas econômicas apresentadas.
“Grandes fundos globais estão reduzindo posição no Brasil para se protegerem da volatilidade do período eleitoral e das incertezas no campo fiscal”, disse Luca Girardi, analista de investimentos da Nomad. Vale lembrar que os partidos têm até este sábado (15) para registrar seus candidatos. A campanha eleitoral começa oficialmente no domingo (16), o que deve aumentar ainda mais o fluxo de notícias e a oscilação dos ativos.
O que explica o desempenho inferior do real?
Para entender por que o real se descola negativamente de outras moedas emergentes, é preciso olhar para três fatores que se combinam no momento:
- Risco fiscal local: O mercado monitora de perto a trajetória da dívida pública e a capacidade do próximo governo de aprovar reformas que equilibrem as contas.
- Fluxo de capitais: Com o JPMorgan reduzindo a exposição ao Brasil e a MSCI excluindo papéis relevantes, os fundos passivos e ativos recalibram suas carteiras, vendendo reais e comprando divisas de países com menor prêmio de risco.
- Diferencial de juros: Embora a Selic ainda ofereça um carry elevado, a incerteza eleitoral reduz o apetite por operações de carry trade, nas quais o investidor toma emprestado em moeda de juro baixo e aplica em moeda de juro alto. Esse movimento perde força quando o risco de desvalorização cambial supera o ganho nominal.
Comparativo de desempenho semanal
A tabela abaixo ilustra como o real se comportou em relação a outras moedas emergentes na semana analisada, com base na variação percentual frente ao dólar:
| Moeda | Variação semanal (%) |
|---|---|
| Real brasileiro (BRL) | -2,50% |
| Peso mexicano (MXN) | +0,60% |
| Peso colombiano (COP) | +0,60% |
| Won sul-coreano (KRW) | +0,06% |
O que esperar do real até o pleito?
A trajetória do real nas próximas semanas dependerá de dois vetores principais: a sinalização fiscal dos candidatos e o humor global em relação a emergentes. Se as propostas econômicas apontarem para responsabilidade fiscal e compromisso com o arcabouço, parte do prêmio eleitoral pode ser descontada, aliviando a pressão sobre a moeda. Por outro lado, propostas que aumentem a percepção de risco ou indefinição sobre o futuro das contas públicas tendem a acelerar a fuga de capitais.
Para o investidor brasileiro, o cenário recomenda cautela. A volatilidade cambial impacta desde operações de curto prazo no mercado de câmbio até o planejamento de viagens e compras internacionais. Em momentos de alta incerteza, diversificar exposição cambial e manter reservas em moeda forte costuma ser a estratégia mais conservadora. O real recua entre emergentes com prêmio eleitoral, mas o jogo ainda está longe do fim — e cada debate, pesquisa e entrevista pode redefinir as expectativas do mercado.
