Surto de ebola no Congo escancara crise em Ituri sem vacina

Sem vacina para a cepa Bundibugyo, violência e desinformação dificultam contenção do surto de ebola em Ituri.

Por Tech Central - Redação Técnica de Tecnologia
Surto de ebola na província de Ituri, RDC, já matou 223 pessoas até 24 de maio.
Destaques
  • A cepa Bundibugyo do ebola não possui vacina aprovada, dificultando o controle do surto.
  • Três ataques a unidades de saúde e dois centros de tratamento incendiados agravam a crise em Ituri.
  • Cortes de financiamento dos EUA prejudicaram sistemas de vigilância, segundo o International Rescue Committee.

Em 5 de maio, quatro profissionais de saúde na província de Ituri, na República Democrática do Congo, morreram de uma doença desconhecida em apenas quatro dias. Equipes de resposta rápida foram enviadas para investigar, e testes em um centro de pesquisa em Kinshasa revelaram o culpado: o vírus Bundibugyo, uma das cepas que causam ebola. Até 24 de maio, a OMS estimava que 223 pessoas haviam morrido e mais de 900 casos suspeitos haviam sido registrados. O cenário é muito mais sombrio do que outros surtos recentes, e as razões vão muito além da própria doença.

O desafio de conter o ebola sem vacina para a cepa Bundibugyo

O ebola é uma doença grave, com taxa média de letalidade de 50%. Entre 2014 e 2016, um surto na África Ocidental causou mais de 11 mil mortes. Outro, entre 2018 e 2020, deixou 2.299 mortos antes de ser controlado com vacinação. Porém, esses surtos foram causados pelo vírus Zaire, que tem sequência genética diferente do Bundibugyo. Não há vacina aprovada para esta cepa. As duas vacinas existentes para o Zaire podem não funcionar — e há o risco de que interfiram na resposta imunológica, piorando o quadro. Cientistas trabalham em imunizantes contra o Bundibugyo, mas os esforços mais avançados ainda estão a meses de ensaios clínicos. Também não há tratamentos antivirais específicos. Sem essas ferramentas, a contenção depende exclusivamente de medidas clássicas de saúde pública.

Como o vírus se espalha e o que funciona para contê-lo

Os ebolavírus podem ser transmitidos a humanos por animais como morcegos frugívoros, chimpanzés e gorilas. Depois, a propagação entre pessoas ocorre pelo contato com fluidos corporais — sangue, vômito, secreções. Por isso, a doença costuma atingir familiares, profissionais de saúde e pessoas envolvidas em rituais funerários. A OMS recomenda isolar os doentes em centros de tratamento, adotar sepultamentos seguros que evitem o contato com o corpo, informar as comunidades sobre o vírus e manter equipes de diagnóstico e rastreamento de contatos. Na teoria, o protocolo é claro; na prática, a execução é extremamente difícil.

Desinformação e violência contra equipes de saúde agravam a crise

Uma era de desinformação mina a confiança da população. Alguns membros da comunidade chegam a duvidar que a doença seja real. Nas últimas semanas, houve três ataques a unidades de saúde na região. Na semana passada, dois centros de tratamento foram incendiados. O primeiro ocorreu depois que parentes de um homem falecido foram impedidos de recuperar o corpo — que ainda era infectante. Como resultado do segundo ataque, 18 casos suspeitos retornaram à comunidade. Poucos dias depois, um grupo armado abriu fogo no Hospital Geral de Mongbwalu, que também tratava pacientes com ebola. Os homens exigiam os corpos de seus parentes falecidos. Esses incidentes não apenas interrompem o tratamento, como também aceleram a disseminação do vírus.

Risco de propagação regional e contexto humanitário devastador

Acredita-se que o surto tenha se originado em Mongbwalu, um polo de mineração com intenso fluxo de pessoas. Pacientes buscaram atendimento em distritos vizinhos, e a província de Ituri faz fronteira com Uganda e Sudão do Sul. Até o momento, Uganda registrou sete casos confirmados e uma morte. O Sudão do Sul reforçou a vigilância, mas ainda não registrou casos. A violência na região, com múltiplos grupos armados e ataques mortais contra civis, prejudica os esforços humanitários e de saúde. A infraestrutura precária e estradas danificadas tornam o acesso ainda mais difícil. A insegurança alimentar é outro fator crítico: quase 10 milhões de pessoas na região enfrentam fome aguda neste ano. Esses fatores combinados tornam “quase impossível” isolar doentes e rastrear contatos, segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Impacto dos cortes de financiamento dos EUA na resposta ao surto

O desmonte de programas de ajuda internacionais pelos Estados Unidos agravou a situação. O financiamento do governo americano para projetos de saúde caiu acentuadamente desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump. Esses cortes prejudicaram os sistemas de vigilância de doenças, segundo o International Rescue Committee. Heather Reoch Kerr, diretora da organização na RDC, afirmou que “anos de subinvestimento e cortes recentes deixaram muitas unidades de saúde sem equipamentos de proteção adequados, capacidade de vigilância ou apoio na linha de frente”. Os EUA mobilizaram financiamento emergencial para o surto, e um porta-voz do Departamento de Estado negou que as ações tenham prejudicado a resposta. Especialistas em saúde contestam, dizendo que o dano já está consolidado.

OMS declara emergência internacional e pede cessar-fogo

Em 17 de maio, a OMS declarou o surto de ebola uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Em comunicado, Tedros descreveu a situação como “uma colisão catastrófica de doença e conflito, com o surto na província de Ituri superando a resposta”. Em um apelo online aos moradores, ele pediu um cessar-fogo e reconheceu os enormes desafios: “Vocês já estão carregando tanta coisa: malária, fome, insegurança e a luta diária para manter suas famílias em segurança. E agora ebola. Não é justo, e não vou fingir o contrário.” A frase resume a dimensão humanitária de uma crise que escancara as fragilidades de um sistema de saúde desamparado pela falta de vacina, pela violência armada e pelo colapso do financiamento internacional.

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Redação Técnica de Tecnologia
Equipe editorial da Tech Central, dedicada à cobertura técnica de assuntos na Overcentral.