Na noite de 9 de julho, a Tokio Marine Seguradora lançou oficialmente o Instituto Tokio Marine Gerações Futuras, em evento realizado na Japan House, em São Paulo. A iniciativa chega com um objetivo direto: usar educação, leitura e capacitação como ferramentas para transformar a trajetória de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Mais do que um novo braço institucional, o projeto amplia ações que a companhia já desenvolvia e busca criar conexões duradouras entre o mercado de trabalho e jovens que, sem esse tipo de suporte, dificilmente teriam acesso a oportunidades semelhantes.
Tokio Marine lança instituto voltado à educação infanto-juvenil: o que muda na prática?
O Instituto Tokio Marine Gerações Futuras nasce com uma proposta estruturada em três eixos: educação, leitura e inserção no mercado de trabalho. A ideia é concentrar sob um mesmo guarda-chuva iniciativas que antes eram pulverizadas, ganhar escala e atrair parceiros estratégicos. Para a seguradora, o movimento representa a formalização de um compromisso histórico com a proteção, como destacou Masaaki Itakura, presidente do instituto, durante a abertura: “Hoje não inauguramos somente um instituto. Hoje plantamos uma semente que vai carregar as futuras gerações”.
A escolha de São Paulo para o lançamento não é casual. A capital concentra parte relevante das operações da Tokio Marine no Brasil e é um dos principais palcos de discussão sobre políticas públicas voltadas à infância e à juventude. O evento também marcou a apresentação pública da direção do instituto e serviu como ponte para futuras parcerias com outras empresas do setor.
Na prática, o instituto funcionará como um hub de projetos sociais, com foco em crianças e adolescentes de comunidades e periferias. A meta é que cada programa tenha impacto mensurável na vida dos participantes, seja pelo aumento do repertório cultural, seja pela conquista do primeiro emprego. Entre as frentes já ativas está o Programa Sementes, que nos últimos cinco anos treinou mais de 400 jovens, dos quais mais de 100 foram efetivados em postos de trabalho.
Como o Programa Sementes se encaixa na estratégia do instituto?
O Programa Sementes é a espinha dorsal do novo instituto. Ele funciona como uma ponte entre a formação inicial e o mercado de trabalho, combinando capacitação técnica com desenvolvimento comportamental. O número de efetivações — mais de 100 jovens — é um indicador relevante, especialmente em um cenário em que a taxa de desemprego entre jovens brasileiros segue alta. Para a Tokio Marine, o programa não é assistencialismo: é uma forma de criar uma base de talentos diversificada e, ao mesmo tempo, cumprir um papel social consistente.
José Adalberto Ferrara, diretor-presidente da Tokio Marine Seguradora, explicou que a ideia de estruturar um projeto social mais robusto começou a amadurecer há cerca de cinco ou seis anos. A companhia percebeu que poderia ir além de doações pontuais e passar a oferecer oportunidades reais de formação e emprego. Agora, o instituto quer ampliar esse alcance, envolvendo outras seguradoras e empresas em uma rede de contratação de jovens formados pelo programa.
Leitura, cultura e pertencimento: o papel da formação humanística
Além da capacitação profissional, o instituto pretende investir em formação humanística. Uma das ações mais concretas é a doação de mais de 2 mil livros para crianças por meio de escolas públicas, comunidades e hospitais. As obras, vindas do Japão e traduzidas para o português, têm como objetivo despertar o gosto pela leitura, a curiosidade e o sonho — elementos tão estruturantes quanto qualquer habilidade técnica.
A origem japonesa das obras não é um detalhe simbólico apenas. A Tokio Marine é uma companhia de origem japonesa, e a Japan House, local do lançamento, reforça essa conexão. Mas o conteúdo dos livros é pensado para dialogar com a realidade de crianças brasileiras, com traduções que aproximam as histórias do contexto local e estimulam a imaginação.
Durante o evento, dois escritores trouxeram testemunhos contundentes sobre o poder da leitura. Jessé Andarilho, criado na comunidade de Antares, no Rio de Janeiro, e fundador do projeto Marginow, defendeu que iniciativas de impacto precisam considerar a realidade de cada território. “A leitura transforma qualquer pessoa. E quem não cuida dos leitores não pode reclamar dos eleitores”, afirmou. Otávio Junior, autor de “Da Minha Janela”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2020, contou que encontrou seu primeiro livro em um lixão, a caminho de um campo de futebol. Para ele, a leitura é uma ferramenta de resiliência, criatividade e pertencimento.
Qual o impacto esperado no setor de seguros e na sociedade?
A entrada de uma seguradora de grande porte em um projeto estruturado de educação infanto-juvenil pode ter efeitos que ultrapassam o público diretamente atendido. André Nunes, diretor de Assuntos Corporativos, Institucionais e Sindicais da CNseg, citou iniciativas ligadas à educação financeira, formação em tecnologia, jovens aprendizes e permanência de estudantes vulneráveis em cursos como Ciências Atuariais. “Às vezes a gente olha e pensa: são só 45 alunos. Mas são 45 vidas. Quando você transforma uma vida, o projeto já faz sentido”, ressaltou.
A fala de Nunes aponta para um desafio estrutural: o Brasil não carece de boas ideias, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar iniciativas pontuais em políticas de maior alcance. Adriana Alvarenga, chefe do escritório do UNICEF em São Paulo, reforçou que é preciso colocar crianças e jovens no centro dos projetos, pensar em escala e articular melhor o papel de cada ator envolvido — governo, empresas, entidades e comunidade.
Há também um componente de mercado. Ao formar jovens e conectá-los ao setor securitário, a Tokio Marine contribui para a renovação da força de trabalho de um segmento que busca diversidade e novos perfis. Ferrara deixou claro que a seguradora já iniciou conversas com outras companhias para que mais empresas possam abrir portas a jovens formados por iniciativas como o Programa Sementes. “Nossa contribuição é usar essa força que estamos formando para aproveitar essa ‘garotada’ no mercado securitário e dar a eles a oportunidade do primeiro emprego”, disse.
O Instituto Tokio Marine Gerações Futuras chega em um momento em que grandes corporações são cada vez mais cobradas por impacto social mensurável. A diferença em relação a outras iniciativas é a aposta em uma cadeia completa: formação, cultura e empregabilidade. Se conseguir manter o ritmo de efetivações e ampliar a rede de parceiros, o projeto pode se tornar uma referência para o setor de seguros no Brasil. O primeiro passo foi dado em São Paulo, mas o desafio agora é transformar a semente em uma política de longo prazo, com acompanhamento de resultados e participação real das comunidades atendidas.

