Cemig troca de CEO três meses após nova posse

Após apenas três meses, Cemig troca de CEO; Safra corta preço-alvo e Fitch alerta para alavancagem elevada.

Mudança no comando da Cemig ocorre em meio a incertezas políticas e revisão de preço-alvo pelo Safra.
Destaques
  • Alexandre Ramos Peixoto deixou o cargo de CEO da Cemig após apenas três meses.
  • O Safra revisou para baixo o preço-alvo das ações preferenciais da Cemig.
  • A Fitch projeta alavancagem de 3,7 vezes em 2026 e rating estável para a Cemig.

A Cemig (CMIG4) mal teve tempo de se estabelecer sob nova liderança e já enfrenta mais uma mudança no alto escalão. Apenas três meses após assumir o comando da companhia mineira, Alexandre Ramos Peixoto foi indicado pelo governo de Minas Gerais para deixar a cadeira de CEO e migrar para a presidência do conselho de administração. Para a vaga de Peixoto, o estado controlador indicou Márcio Augusto Vasconcelos Nunes, ex-CEO da Copasa (CSMG3). As indicações incluem ainda Sérgio Pessoa de Paula Castro para uma cadeira no conselho. A troca adiciona uma nova camada de incerteza a uma companhia que já está no radar dos investidores por causa das eleições de 2026 em Minas Gerais e do futuro da privatização da estatal de energia. As ações da Cemig amanheceram em alta nesta segunda-feira (31), subindo 1,43% a R$ 10,66, mas no acumulado de 2026 os papéis CMIG4 ainda registram desvalorização de cerca de 4% na B3.

Cemig (CMIG4): entre a sucessão no governo e a sucessão na companhia

A mudança ocorre em um momento sensível para a Cemig. Com a saída prevista do governador Romeu Zema para disputar a Presidência da República, o futuro da companhia depende não apenas dos resultados operacionais, mas também dos rumos da política mineira. É justamente esse cenário que aparece como um dos principais pontos de atenção do Safra. O banco revisou para baixo o preço-alvo das ações preferenciais da Cemig, de R$ 12,50 para R$ 11,90 ao fim de 2026, e manteve recomendação neutra. Mesmo com potencial de valorização de cerca de 13% em relação aos níveis atuais, o Safra considera o retorno esperado limitado quando comparado ao restante do setor elétrico.

O corte incorpora os resultados do primeiro semestre de 2026, novas premissas macroeconômicas — incluindo juros mais altos e inflação elevada até o ano que vem — e uma taxa de desconto maior. O banco também revisou a curva de preços de energia e atualizou o portfólio de balanço energético da Cemig.

Indicador financeiro (2T26)ValorVariação anual
Lucro líquido ajustadoR$ 1,12 bilhão-15,5%
EBITDA ajustadoR$ 2,47 bilhões+9,3%
Receita operacional líquidaR$ 11,15 bilhões+3,4%

De olho na privatização

Os principais candidatos ao governo de Minas Gerais têm demonstrado pouco entusiasmo com a privatização da Cemig. O atual vice-governador, Mateus Simões, já afirmou que não pretende priorizar o tema e admitiu a possibilidade de mudanças na direção da empresa em meio às negociações políticas. Outros nomes bem posicionados nas pesquisas, como o senador Cleitinho e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, também se manifestaram contra a privatização.

Na avaliação do Safra, mesmo que a venda da companhia volte a ganhar força no futuro, o processo exigiria alterações na Constituição de Minas Gerais e poderia enfrentar forte resistência política. Por isso, a tese de privatização parece difícil de ser implementada no curto prazo. Nesse ambiente, eventuais mudanças de gestão e estratégia após as eleições podem elevar a percepção de risco dos investidores e atrasar decisões importantes para a Cemig, inclusive negociações relacionadas à renovação de concessões.

Fitch vê investimentos pressionando o caixa

Se a política adiciona incerteza ao cenário, os fundamentos operacionais contam uma história mais previsível. Na semana passada, a Fitch Ratings afirmou as notas de crédito de longo prazo em moedas estrangeira e local da Cemig, da Cemig Distribuição (Cemig D) e da Cemig G em ‘BB’, além de manter a classificação nacional em ‘AAA(bra)’ para as três empresas. A agência destaca como pontos positivos a diversificação dos ativos, a robusta geração de fluxo de caixa operacional e a atuação da Cemig em diferentes segmentos do setor elétrico.

O grupo distribui energia para 9,6 milhões de clientes e opera 4,8 GW de capacidade instalada de geração e 5.066 quilômetros de linhas de transmissão. Entre 2026 e 2027, a distribuição deve responder por cerca de 60% do EBITDA consolidado, enquanto geração e transmissão representarão aproximadamente 30% e distribuição de gás natural, os 10% restantes.

O principal ponto de atenção da Fitch está em outro lugar: o ambicioso plano de investimentos da companhia deve consumir mais caixa nos próximos anos. A agência estima que a Cemig registre fluxo de caixa livre (FCF) negativo entre 2026 e 2028, enquanto executa um programa de R$ 20,4 bilhões em investimentos no triênio. A maior parte dos recursos será destinada ao fortalecimento da base de ativos da Cemig D, com expectativa de incorporação dos investimentos à próxima revisão tarifária, em 2028.

No cenário-base da Fitch, o FCF consolidado ficará negativo em R$ 4 bilhões em 2026 e R$ 2,5 bilhões em 2027, considerando dividendos equivalentes a 50% do lucro líquido. A agência projeta EBITDA consolidado de R$ 7,4 bilhões em 2026 e R$ 9 bilhões em 2027, além de fluxo de caixa das operações de R$ 6,5 bilhões no período, ainda pressionado pelo ambiente de juros elevados no Brasil.

O aumento dos investimentos também deve levar a uma alta da alavancagem. A Fitch projeta uma relação dívida ajustada/EBITDA de 3,7 vezes em 2026, com pico no ano, antes de recuar para 3,1 vezes em 2027 e abaixo de 3 vezes em 2028. Apesar da piora temporária, a agência considera que a alavancagem continuará compatível com os ratings da companhia, e o acesso comprovado da Cemig ao mercado de capitais deve ajudar a financiar os investimentos e refinanciar suas dívidas.

A troca de comando na Cemig, em meio a um cenário de incerteza política e fiscal, exige atenção redobrada dos investidores. Enquanto a Fitch enxerga fundamentos operacionais sólidos e um plano de investimentos necessário, a falta de clareza sobre a privatização e a sucessão estadual podem manter a ação sob pressão nos próximos meses.

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