Viés de gênero atrasa diagnóstico de doenças autoimunes em mulheres

Por Tech Central - Redação Técnica de Tecnologia

A expressão “Isso é coisa de mulher” carrega um peso histórico que vai muito além do senso comum. No campo da saúde, essa minimização tem consequências diretas e, muitas vezes, irreversíveis. Quando o assunto são as doenças autoimunes, a frase ganha contornos ainda mais graves, pois revela um viés de gênero que atrasa diagnósticos, subestima sintomas e compromete a qualidade de vida de milhares de mulheres. Enquanto a ciência confirma que o público feminino é desproporcionalmente afetado por essas condições, o sistema de saúde ainda patina para oferecer uma resposta à altura, marcada por preconceitos estruturais que atravessam a formação médica e a prática clínica.

Por que as mulheres são mais afetadas por doenças autoimunes?

As doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imunológico ataca erroneamente células, órgãos e tecidos saudáveis do próprio corpo. Embora não sejam exclusivas do sexo feminino, elas atingem as mulheres de forma avassaladora. Um estudo publicado no Journal of Autoimmunity aponta que as mulheres apresentam um risco até quatro vezes maior de desenvolver uma doença autoimune ao longo da vida em comparação aos homens. A comunidade científica ainda busca explicações definitivas, mas uma das hipóteses mais consistentes envolve diferenças na resposta imune.

Pesquisas indicam que as mulheres possuem níveis absolutos de anticorpos circulantes mais elevados do que os homens, e esses anticorpos estão diretamente associados à patogênese da maioria das doenças autoimunes. Essa predisposição biológica é um fato, mas, paradoxalmente, é também um dos motivos pelos quais os sintomas femininos são frequentemente desacreditados. Dados do National Institutes of Health revelam que aproximadamente 80% de todos os pacientes diagnosticados com doenças autoimunes são mulheres, um número que deveria acender um alerta máximo nos consultórios e pronto-socorros.

O diagnóstico que demora: quando o viés de gênero entra em cena

A professora Rilva Lopes de Souza Muñoz, do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba e líder do Grupo de Estudos em Semiologia e Humanidades Médicas, observa que o grande gargalo não está apenas em entender por que as mulheres adoecem mais, mas em como seus sintomas são interpretados. “Quando observamos essas doenças na perspectiva de gênero, os desafios se intensificam. As condições se inserem em um contexto histórico da medicina em que os sintomas femininos, sobretudo quando são inespecíficos ou complexos, acabam subvalorizados”, afirma.

Segundo a médica, as mulheres sofrem com uma espécie de desacreditação de suas queixas. “Há uma inviabilização que, na prática clínica, se traduz em trajetórias marcadas por múltiplas consultas, hipóteses diagnósticas atribuídas a fatores emocionais e um atraso muito importante na investigação adequada. Em algumas doenças, isso tem consequências irreversíveis”.

A demora no diagnóstico não é um acaso. Ela reflete um padrão histórico no qual a dor e o mal-estar femininos são vistos como exagerados ou de origem psicológica, um fenômeno que a literatura médica internacional já começa a documentar com rigor.

Doenças raras amplificam o problema: o caso da NMO e da DOT

Esse viés fica ainda mais evidente em condições que são, ao mesmo tempo, autoimunes, progressivas e raras. A Organização Mundial da Saúde define doenças raras como aquelas que afetam 65 a cada 100 mil indivíduos. Dentro desse grupo, duas condições merecem destaque: a Neuromielite Óptica (NMO) e a Doença Ocular da Tireoide (DOT) em suas formas moderadas a graves.

A DOT ocorre quando o sistema imunológico ataca os músculos e tecidos ao redor dos olhos. Os sintomas incluem protusão ocular, conhecida popularmente como “olhos arregalados”, retração palpebral, olho seco, visão embaçada e sensibilidade à luz. Em estágios avançados, pode pressionar e danificar o nervo óptico, levando à perda da visão. Estudos norte-americanos apontam que a doença é cinco vezes mais prevalente em mulheres.

Já a NMO é caracterizada por surtos graves e recorrentes no sistema nervoso central, que podem resultar em incapacidades permanentes, como perda de visão e paralisia, e até mesmo levar à morte. Uma pesquisa publicada em 2024, que analisou dados de 2010 a 2021, constatou que 86,6% dos pacientes diagnosticados com NMO eram mulheres, e a maioria delas era negra. A incidência entre pessoas negras foi de 9,21 casos por milhão de pessoas-ano, significativamente maior do que em asiáticos (3,77), hispânicos (2,02) e brancos (1,56). Esses números revelam uma camada extra de complexidade.

Interseccionalidade: o peso de ser mulher e negra no sistema de saúde

Ser mulher já coloca a paciente em uma posição de desvantagem no sistema de saúde. Ser mulher e negra multiplica os obstáculos. “A interseccionalidade amplifica de forma significativa a visão discriminatória. No caso da mulher negra, isso multiplica o efeito da desigualdade no desfecho clínico. É aí que ocorrem as iniquidades”, analisa Rilva Muñoz. A população negra no Brasil enfrenta os piores indicadores socioeconômicos, consequência do racismo estrutural e da falta de políticas de reparação. Para uma mulher negra com NMO, a jornada de saúde é duplamente desafiadora.

Não se trata apenas de uma doença ser rara. Trata-se do sofrimento da paciente não ser reconhecido como legítimo dentro do sistema. “Em muitas situações, o problema não é apenas a doença ser rara, é o sofrimento da paciente não ser imediatamente reconhecido como legítimo”, afirma a médica. O olhar do profissional, carregado de preconceitos implícitos, acaba definindo o ritmo e a qualidade do cuidado.

Estudos comprovam que a dor das mulheres é levada menos a sério

Evidências científicas recentes corroboram essa percepção. Um estudo de 2024 publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences revelou que médicos tendem a subestimar a dor feminina. A pesquisa analisou mais de 20 mil notas de alta de pacientes em emergências nos Estados Unidos e em Israel. Os achados são contundentes: as chances de um profissional pedir que uma mulher descreva sua dor em uma escala de 1 a 10 era 10% menor do que para homens com as mesmas queixas. Além disso, a probabilidade de prescreverem analgésicos para mulheres também era significativamente menor.

No Brasil, a realidade segue a mesma linha. Um artigo que analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 mostrou que as mulheres procuram mais os serviços de saúde para consultas preventivas do que os homens (82,3% contra 69,4%). No entanto, a sobrecarga com trabalho e cuidados domésticos impacta diretamente a continuidade do tratamento. A pesquisa apontou que a soma de horas trabalhadas no mercado de trabalho e em afazeres domésticos era 2,4 horas superior à dos homens. Essa dupla jornada contribui para que 9,6% das mulheres deixem de realizar atividades habituais por motivo de saúde, contra 6,3% dos homens.

Os marcadores raciais aprofundam a disparidade. Mulheres pretas consultaram um médico, em média, 3,6% menos do que mulheres brancas. No cruzamento entre gênero e raça, mulheres e pessoas de cor preta ou parda foram as que menos relataram estados de saúde bom ou muito bom na pesquisa.

Políticas públicas e a necessidade de uma medicina menos enviesada

Para Stella Maria Vaz Valadares, coordenadora do Comitê Permanente pela Promoção da Igualdade Racial de Gênero e Raça do Senado Federal, negligenciar as queixas femininas evidencia pré-concepções sobre o que é o corpo feminino. “Há um imaginário historicamente construído pela medicina e pela psicologia que associa mulheres à ideia de maior sensibilidade, exagero ou hipervigilância. Esse repertório não é neutro: ele orienta a escuta profissional e pode atrasar ou prejudicar diagnósticos”, reflete.

Stella reconhece que houve avanços importantes no debate de gênero e na construção de políticas públicas de saúde nos últimos anos, mas alerta que esses avanços são desiguais e não chegam a todas as camadas sociais de forma consistente. O Senado, por exemplo, vem implementando o Plano de Equidade de Gênero e Raça 2026-2027, que traça metas específicas para a área da saúde. “Buscamos avançar na coleta de dados e na consolidação de séries históricas para acompanhar como as desigualdades se manifestam no acesso e no cuidado em saúde”, detalha.

A médica Rilva Muñoz reforça que a saída passa, necessariamente, pela capacitação dos profissionais de saúde. “Eles precisam ser qualificados para não se deixar influenciar por próprios preconceitos e visões que são reflexo da sociedade. Preconceitos implícitos influenciam a interpretação clínica o tempo todo. Reduzir o viés de gênero na formação médica é um desafio social e cultural”, conclui.

Pensar em equidade em saúde significa olhar para todos os vieses que incidem sobre o cuidado. Reconhecer que a sociedade foi construída sob um regime patriarcal, que relegou às mulheres todo tipo de discriminação, é parte do processo de desconstrução necessário para construir uma saúde mais inclusiva e eficaz. Especialmente quando o assunto são doenças raras, onde o tempo de diagnóstico é um fator crítico para a qualidade de vida e, em muitos casos, para a própria sobrevivência.

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Redação Técnica de Tecnologia
Equipe editorial da Tech Central, dedicada à cobertura técnica de assuntos na Overcentral.