Quando os mercados globais entraram em turbulência no final de fevereiro, com os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã desencadeando uma onda de vendas em ativos de risco, a Verde Asset Management, comandada pelo experiente gestor Luis Stuhlberger, executou uma manobra contraintuitiva. Em meio à queda generalizada, a gestora não apenas manteve a calma, como identificou uma oportunidade específica no mercado brasileiro. A decisão de reduzir momentaneamente a exposição à bolsa local apenas para retornar com força total durante a pressão revela uma estratégia baseada na distinção fundamental entre ruído de mercado e deterioração de fundamentos econômicos.
O timing estratégico da Verde durante a crise geopolítica
A sequência de movimentos da Verde durante os dias críticos de fevereiro ilustra uma disciplina operacional rara. No auge da tensão, quando o fechamento do Estreito de Ormuz para petroleiros fez o preço do petróleo disparar de forma histórica, desencadeando uma reação em cadeia nos mercados globais, a gestora inicialmente reduziu sua exposição. No entanto, essa redução foi temporária e tática. Conforme a turbulência se instalava e os ativos brasileiros eram pressionados de forma mais intensa, a Verde iniciou um processo de recompras, aumentando significativamente sua posição na bolsa local. Esse movimento foi executado enquanto a maioria dos investidores ainda reagia ao choque inicial, demonstrando uma capacidade de leitura de mercado que vai além das reações imediatistas.
A análise que fundamentou a decisão de compra
Em sua carta mensal aos cotistas, a equipe da Verde explicou o raciocínio por trás da manobra. A gestora classificou a correção do mercado brasileiro como “majoritariamente técnica, com redução de fluxos”. Essa avaliação é crucial: ela indica que, na visão da casa, a queda nos preços das ações não refletia um agravamento nas perspectivas fundamentais das empresas ou da economia brasileira, mas sim um ajuste mecânico de posições por parte de investidores assustados com o cenário geopolítico global. Para Stuhlberger e sua equipe, essa desconexão entre preço e valor criou uma janela de oportunidade. O mercado havia se movido mais por medo do que por uma revisão racional dos fundamentos, oferecendo pontos de entrada atrativos para quem conseguisse manter a serenidade analítica.
Amplificação do efeito no Brasil e a precificação sem margem de segurança
O impacto da crise global foi particularmente severo no Brasil devido a uma característica específica do mercado naquele momento. Segundo a análise da Verde, os ativos brasileiros – ações, câmbio e taxas de juros – estavam precificados de forma apertada, “sem gordura” ou margem de segurança para absorver surpresas negativas. Quando o choque do petróleo e da geopolítica atingiu os mercados, essa falta de resiliência na precificação amplificou a correção, tornando-a mais rápida e intensa do que em outros mercados emergentes. Essa mesma característica, porém, é o que criou o potencial de retorno: a queda exagerada, em relação ao impacto real esperado nos fundamentos brasileiros, gerou descontos significativos. A gestora enxergou nessa volatilidade exacerbada não um sinal de problemas estruturais, mas uma distorção temporária de preços.
Reconhecimento dos riscos domésticos sem perder o foco na oportunidade
Apesar da visão otimista sobre a oportunidade técnica, a Verde não ignora os desafios do cenário brasileiro. Em sua comunicação, a gestora explicitamente menciona que escândalos políticos trazem “preocupação com deterioração institucional” e aponta que o ciclo eleitoral “começa, para valer, em breve”. Essa é uma nuance importante da estratégia: a aposta não é cega aos riscos, mas calcula que os ventos externos (a crise geopolítica) ditam a direção de curto prazo, enquanto o ambiente doméstico adiciona uma camada de incerteza de médio prazo que precisa ser monitorada, mas não invalida a oportunidade imediata. A gestora opera com a premissa de que é possível aproveitar um movimento técnico de curto prazo enquanto mantém a consciência dos desafios estruturais de mais longo prazo.
O acerto inicial do timing e a declaração de Trump
O timing da operação da Verde parece ter sido inicialmente validado pelos movimentos do mercado. Pouco depois da gestora aumentar sua exposição à bolsa brasileira, o ex-presidente norte-americano Donald Trump declarou em entrevista à CBS que a guerra contra o Irã “está praticamente concluída”. Essa declaração, interpretada pelo mercado como um sinal de desescalada do conflito, provocou uma reversão imediata nos ativos de risco. No fechamento da segunda-feira seguinte à declaração, o Ibovespa saltava mais de 1,3%, ultrapassando a marca dos 181.800 pontos. Enquanto muitos investidores ainda estavam se reposicionando após o susto inicial, a Verde já estava posicionada para capturar essa recuperação. A gestora havia antecipado que a pressão eleitoral nos Estados Unidos forçaria uma desescalada retórica, e o mercado validou essa leitura momentos depois.
O reposicionamento global do portfólio além da bolsa brasileira
A volta à bolsa brasileira não foi um movimento isolado, mas parte de um reposicionamento mais amplo do portfólio da Verde. A gestora ajustou suas posições globais para contar “uma história coerente sobre o momento do mundo”, na qual o dólar americano perde força relativa e os mercados emergentes ganham espaço. Nessa narrativa, o Brasil, apesar do ruído político doméstico, é parte integrante da equação. No livro de moedas, a Verde manteve posições no renminbi chinês, incluiu o iene japonês em sua cesta de moedas contra o dólar, reduziu a exposição ao euro e manteve opções de compra no real brasileiro. Esse movimento indica uma visão de diversificação monetária e uma aposta na recuperação relativa de economias emergentes frente aos Estados Unidos em um contexto de normalização pós-crise.
Performance do fundo e contribuição das diferentes classes de ativos
Os resultados operacionais da Verde no período validam, em números, a eficácia de sua estratégia. O fundo encerrou o mês de fevereiro com alta de 1,44%, superando o CDI do período, que ficou em 1,00%. No acumulado do ano, a performance é ainda mais expressiva: 4,51% contra 2,17% do benchmark. Uma análise detalhada da composição desse retorno revela que o book de ações foi o maior contribuidor individual, responsável por 1,62 ponto percentual do resultado acumulado em 2026. Esse dado confirma que a aposta em equities, particularmente no timing de entrada durante a correção, foi acertada. As únicas perdas significativas vieram da alocação em crédito, que subtraiu 0,40 ponto percentual no acumulado do ano, mas foram mais do que compensadas pelos ganhos em outras frentes.
Estratégias complementares em renda fixa e proteções do portfólio
Paralelamente ao movimento em ações, a Verde manteve estratégias defensivas e de proteção em outras partes do portfólio. Na renda fixa local, a gestora permaneceu comprada em juro real, indicando uma visão de que as taxas de juros brasileiras, ajustadas pela inflação, continuam atrativas. Nos Estados Unidos, manteve aplicação em juro real e posição comprada em inflação implícita, uma proteção contra possíveis surpresas inflacionárias. A posição em ouro foi mantida como hedge contra incertezas mais amplas, e a alocação em crédito, apesar das perdas recentes, permanece como parte da diversificação. Esse equilíbrio entre posições ofensivas (como a bolsa brasileira) e defensivas (como ouro e juro real) demonstra uma gestão de risco integrada, onde a busca por retorno não acontece às custas da proteção do capital.
O panorama de incertezas e oportunidades para os próximos meses
O cenário que se desenha para os próximos meses combina fatores de incerteza e oportunidade em doses similares. Do lado das incertezas, o ciclo eleitoral brasileiro que se aproxima tende a aumentar a volatilidade política e a afetar a percepção de risco do país no exterior. A própria gestora Verde reconhece esse fator como uma variável importante. Simultaneamente, o ambiente geopolético global permanece instável, com tensões que podem reacender a qualquer momento. Do lado das oportunidades, a correção técnica recente deixou vários ativos brasileiros com valuations mais atrativos, e a perspectiva de desaceleração do conflito no Oriente Médio pode liberar fluxos de volta para mercados emergentes. A capacidade de navegar entre essas duas forças opostas – aproveitando os descontos sem subestimar os riscos – será o diferencial para gestores e investidores.
A manobra da Verde Asset durante a crise de fevereiro serve como um estudo de caso sobre como gestores experientes podem transformar momentos de pânico generalizado em oportunidades de valor. A distinção entre correção técnica e deterioração fundamental, o timing preciso de entrada e saída, e a integração da aposta brasileira em um reposicionamento global coerente são elementos que transcendem o episódio específico. Em um mercado cada vez mais volátil e reativo a manchetes, a disciplina de analisar o ruído separado do sinal, e de agir quando a maioria reage por instinto, continua sendo uma das poumas vantagens competitivas sustentáveis. O sucesso inicial da operação não garante resultados futuros, mas estabelece um padrão de processo decisório que muitos tentam replicar e poucos conseguem executar com consistência.

