Gestor Luis Stuhlberger prevê ajuste fiscal limitado no Brasil após eleições de 2026

A proximidade das eleições presidenciais de outubro de 2026 coloca o Brasil diante de um cenário econômico crítico, com dois candidatos consolidados nas pesquisas: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), buscando um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Enquanto o debate político se acirra, o mercado financeiro avalia com ceticismo a capacidade de qualquer um dos favoritos em promover as reformas estruturais necessárias, especialmente no combate ao déficit fiscal. A visão é compartilhada por Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde e CIO e CEO na Asset Management, que projeta um futuro desafiador independentemente do vencedor.

O cenário fiscal brasileiro em 2026 exige cortes inviáveis politicamente

Em entrevista ao programa Outliers InfoMoney, Stuhlberger apresentou números contundentes sobre a situação das contas públicas. Ele destacou que, já em 2026, o país opera com um rombo de aproximadamente R$ 500 bilhões acima do limite estabelecido pela regra do teto de gastos. Para retornar ao patamar de equilíbrio previsto na lei, seria necessário um ajuste fiscal equivalente a algo entre 3,5% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB). “É inviável. Mesmo 2% do PIB seria difícil”, afirmou o gestor, ressaltando a magnitude do desafio que aguarda o próximo ocupante do Palácio do Planalto a partir de janeiro de 2027.

Histórico de governos mostra raros exemplos de controle efetivo do déficit

Com quatro décadas de experiência no mercado financeiro, Stuhlberger analisou a trajetória fiscal sob diferentes administrações. Segundo sua avaliação, a história recente do país é marcada por tentativas frustradas de equilíbrio das contas públicas. “No limite, o único presidente que fez isso foi o [Michel] Temer. O Fernando Henrique [Cardoso] não fez. O [Jair] Bolsonaro fez no começo [do mandato], e degringolou completamente no fim”, declarou. Essa perspectiva histórica alimenta seu pessimismo sobre a disposição política para enfrentar um ajuste profundo no próximo ciclo.

Responsabilidade pelo rombo fiscal é compartilhada entre governos recentes

Stuhlberger atribui a culpa pelo déficit atual a ambos os lados do espectro político. Ele argumenta que o estouro de R$ 500 bilhões não é uma herança exclusiva do governo Lula, mas também resulta de medidas adotadas nos últimos dois anos da gestão Bolsonaro. “[Bolsonaro] começou bem e terminou bastante populista. A gente tem que ser justo com isso”, ponderou o gestor. Essa análise sugere que o problema transcende siglas partidárias, sendo um desafio estrutural que demanda consenso político para sua solução.

Dívida pública próxima de 80% do PIB pressiona a credibilidade do país

Dados do Banco Central reforçam o alerta. Em 2025, a dívida pública bruta do governo geral atingiu uma faixa entre 78,7% e 79% do PIB. O Governo Central encerrou o ano com um déficit primário de R$ 61,7 bilhões, conseguindo cumprir a meta de resultado primário zero apenas após a exclusão estatística de despesas consideradas fora do teto, como precatórios e gastos com saúde e educação. Para 2026, a previsão oficial já foi reajustada para um déficit primário de R$ 59,8 bilhões, indicando uma persistência do desequilíbrio.

Expectativas do mercado variam conforme o cenário eleitoral

Stuhlberger antecipou reações distintas do mercado conforme o resultado das urnas. Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia gerar uma euforia inicial, baseada em expectativas de uma agenda mais liberal, seguida por uma desilusão à medida que a complexidade dos problemas fiscais se tornasse evidente. “O mercado vai ver que as coisas são mais difíceis de arrumar do que a gente pensa”, previu. Por outro lado, parte dos investidores, especialmente estrangeiros, avalia que um eventual quarto mandato de Lula não seria pior que o atual e poderia até apresentar uma ligeira melhora, dado o aprendizado com as dificuldades enfrentadas.

O desafio político de implementar reformas impopulares

O cerne da questão, segundo a análise, reside na difícil equação política. Um ajuste fiscal da magnitude necessária envolveria cortes profundos em programas sociais, revisão de benefícios tributários e possivelmente reformas na Previdência e no funcionalismo público – medidas historicamente rejeitadas pelo Congresso e pela população em períodos eleitorais ou de baixa popularidade. O próximo presidente assumirá em um contexto de expectativas elevadas e margens orçamentárias estreitas, limitando sua capacidade de manobra para promover mudanças significativas sem enfrentar forte resistência.

O impacto da nova ordem mundial e dos conflitos geopolíticos

Além dos desafios domésticos, Stuhlberger também chamou a atenção para o cenário internacional. A reconfiguração da ordem global, os conflitos no Oriente Médio e os avanços em inteligência artificial criam um ambiente de incerteza que pode afetar o fluxo de capitais para economias emergentes como a brasileira. Nesse contexto, a capacidade de atrair investimentos externos dependerá não apenas da política fiscal, mas também da percepção de estabilidade e previsibilidade do país, fatores que podem ser abalados por um longo processo de ajuste.

As eleições de 2026 e a busca por uma saída para a estagnação

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ocorre em um momento em que o Brasil, nas palavras do gestor, “escolheu ser medíocre”, referindo-se a uma avaliação crítica sobre a acomodação com baixos índices de crescimento e produtividade. A campanha eleitoral tenderá a focar em promessas de desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida, mas o grande elefante na sala será a necessidade de um choque de responsabilidade fiscal que nenhum dos lados parece disposto a defender abertamente, dada a impopularidade de medidas de austeridade.

O caminho para o equilíbrio fiscal, portanto, parece mais uma promessa distante do que uma agenda concreta para os próximos anos. A análise de Stuhlberger aponta para um ciclo político onde a pressão por gastos imediatos, seja para sustentar programas sociais ou para atender demandas de base de apoio, continuará a se sobrepor aos imperativos de longo prazo da sustentabilidade das contas públicas. O resultado deve ser uma gestão de crise, com pequenos ajustes nas margens, mas sem a coragem política para o grande acordo nacional que a situação exigiria, mantendo o país em uma trajetória de vulnerabilidade e dependência de condições externas favoráveis para evitar um agravamento mais severo da crise.

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