A correção significativa do Bitcoin observada nos últimos meses de 2025 não foi um evento isolado ou um sinal de falência estrutural do ativo. Segundo análise detalhada de Samir Kerbage, sócio-fundador e Chief Investment Officer (CIO) da Hashdex, o movimento representou a confluência previsível de três forças macroeconômicas e de mercado que se alinharam simultaneamente, criando uma tempestade perfeita de pressão vendedora em um momento de baixa demanda. A combinação de um ambiente macro adverso, incerteza regulatória prolongada nos Estados Unidos e a chegada de um ciclo de quatro anos previamente antecipado pelo gestor gerou vendas intensas sem compradores suficientes para absorvê-las.
Impacto direto da política monetária na volatilidade do cripto
O diagnóstico de Kerbage inicia pelo cenário macroeconômico global. Como ativo de risco com duration longo — cuja tese de valor se realiza em horizontes de anos ou décadas —, o Bitcoin e os criptoativos em geral apresentam sensibilidade extraordinária a qualquer mudança nas condições de política monetária mundial. Aperto ou afrouxamento dos juros: qualquer sinalização dos bancos centrais, especialmente do Federal Reserve americano, se traduz quase imediatamente em movimentações de preços, amplificando a volatilidade natural da classe de ativos. Essa característica foi particularmente evidente durante 2025, quando as expectativas de manutenção de juros elevados por mais tempo do que o mercado antecipava retiraram liquidez e apetite por ativos de risco em geral.
Incerteza regulatória americana como freio ao crescimento
O segundo fator estrutural apontado pelo gestor é de natureza regulatória. A eleição de Donald Trump em novembro de 2024 inicialmente abriu um período de otimismo e expectativa de maior abertura entre o mercado cripto e Washington. O início de 2025 foi marcado por promessas e discussões avançadas sobre o Clarity Act, o marco regulatório em debate no Congresso americano que traria segurança jurídica para o setor. No entanto, a aprovação definitiva não se materializou. Com as eleições de meio de mandato se aproximando e o cenário político se tornando mais polarizado, as dúvidas sobre quando virá uma regulamentação perene aumentaram significativamente. “O grande desafio dessa indústria é ter uma clareza regulatória que seja perene, que não esteja sujeita ao governo da vez”, afirmou Kerbage durante sua participação no episódio 182 do Outliers InfoMoney.
Como a ausência de regras claras afeta os investidores institucionais
A falta de um marco regulatório permanente mantém muitos investidores institucionais em modo de espera. Fundos de pensão, endowments universitários e seguradoras — que começaram a ter acesso ao Bitcoin através dos ETFs aprovados — permanecem cautelosos em alocar volumes significativos enquanto não há segurança jurídica de longo prazo. Essa hesitação institucional reduziu a demanda de compra exatamente no momento em que a pressão vendedora aumentava, criando um desequilíbrio de mercado.
Previsão acertada do ciclo de quatro anos do Bitcoin
O terceiro fator, e segundo Kerbage o mais relevante para explicar a intensidade da queda, é comportamental e cíclico. Em janeiro de 2023, o gestor publicou uma análise técnica e de mercado indicando que outubro de 2024 marcaria o início de um bear market (mercado de baixa) e que outubro de 2025 traria a reversão desse movimento, “se a história rimasse”. O roteiro se cumpriu com precisão notável, demonstrando como padrões cíclicos podem se autoalimentar no mercado de criptoativos.
Comportamento dos investidores de varejo como acelerador do ciclo
A explicação para esse padrão de quatro anos não é mística, mas comportamental. O mercado cripto possui uma base substancial de investidores de varejo que se ancoram conscientemente nesses ciclos e nas narrativas que os acompanham. À medida que o final do ciclo de alta se aproximava em 2024, investidores que haviam acumulado ganhos expressivos começaram a realizar posições de forma preventiva, antecipando a correção. “Isso acaba movendo o preço porque tem muito investidor de varejo que se ancora nessas teses e nessas profecias de quatro anos”, explicou o CIO da Hashdex. Esse comportamento coletivo criou uma onda vendedora sincronizada que encontrou pouca resistência no lado da compra.
Transformação estrutural do mercado com entrada de ETFs e institucionais
Apesar do cenário adverso de curto prazo, Kerbage é categórico ao afirmar que o histórico passado do Bitcoin não deve ser projetado mecanicamente para o futuro. A razão fundamental é que a infraestrutura do mercado está passando por uma transformação profunda, e com ela, muda também o perfil do próprio ativo. A aprovação dos ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos em 2023 — com gigantes como BlackRock, Fidelity e outras grandes gestoras lançando produtos — representa uma virada estrutural irreversível.
Como os ETFs estão alterando a dinâmica de liquidez e volatilidade
A entrada dos ETFs trouxe consigo uma série de mudanças fundamentais. Mecanismos de hedge que antes não existiam ou eram limitados foram introduzidos, permitindo que grandes players gerenciem riscos de forma mais sofisticada. A liquidez do mercado cresceu substancialmente, embora ainda concentrada em períodos específicos. Paradoxalmente, essa institucionalização tende a reduzir a volatilidade extrema que caracterizou os primeiros anos do Bitcoin e aumentar sua correlação com outras classes de ativos de risco, como ações de tecnologia. No curto prazo, isso pode diminuir parte do apelo do ativo como diversificador puro de portfólio. No longo prazo, no entanto, fortalece sua credibilidade como classe de ativo legítima e pavimenta o caminho para adoção mais ampla e estável.
Recomendação para investidores: Bitcoin como tese de crescimento de longo prazo
Para o investidor pessoa física, a recomendação que emerge da análise da Hashdex é clara e direta: tratar o Bitcoin como uma tese de crescimento estrutural de longo prazo, não como instrumento para especulação de curto prazo ou timing de mercado. “A gente compara o momento que a gente está em cripto com a internet no começo dos anos 2000”, afirmou Kerbage. “A gente sabe que é o futuro, mas não sabe exatamente quando, não tem clareza regulatória completa, não é utilizada ainda de forma ampla pela população — e em 10, 20 anos a gente não consegue mais viver sem.”
Estratégia de alocação estrutural versus uso tático
Isso não impede completamente o uso tático do Bitcoin, especialmente em ambientes de alta volatilidade como o atual, onde movimentos de 20-30% podem ocorrer em semanas. Contudo, a alocação estrutural de longo prazo — aquela que se mantém independentemente dos ciclos de curto prazo — é o que realmente faz sentido dentro da tese de adoção crescente e digitalização da economia global. Sobre a questão de o Bitcoin já ser “too big to fail” (grande demais para falhar), Kerbage adota postura prudente: reconhece o efeito de rede relevante e a adoção crescente, mas se recusa a declarar o ativo completamente livre de riscos sistêmicos. “Eu acho que é um ativo de risco, então eu não assumiria que já está tudo resolvido”, ponderou.
Riscos geopolíticos e tecnológicos que podem atrasar a trajetória
Mesmo com uma tese fundamental que considera “mais forte do que nunca”, Kerbage elenca riscos concretos que podem impactar negativamente a trajetória do Bitcoin nos próximos anos. O principal risco é geopolítico. Um governo americano futuramente hostil ao setor poderia, em momento de tensão econômica ou política, impor controles de capitais específicos para criptoativos ou decretar medidas restritivas severas. “Isso seria um cenário catastrófico, pelo menos que atrasaria bastante o desenvolvimento dessa tecnologia”, avaliou. O precedente existe e é recente: em 2021, a China implementou banimento progressivo, primeiro do uso comercial e depois da mineração de Bitcoin, atrasando o desenvolvimento do setor no país por anos.
Ameaça da computação quântica à criptografia do Bitcoin
O segundo risco é tecnológico e de mais longo prazo. O avanço acelerado da computação quântica levanta a hipótese — ainda considerada distante pela maioria dos especialistas, mas tecnicamente mapeável — de que computadores quânticos suficientemente poderosos possam eventualmente quebrar a criptografia de curva elíptica que sustenta a segurança da rede Bitcoin. É um risco que a indústria acompanha com atenção crescente, com diversos projetos de pesquisa focados em desenvolver criptografia pós-quântica para blockchains. A comunidade de desenvolvimento do Bitcoin já discute propostas de atualização para endereçar essa vulnerabilidade potencial antes que se torne uma ameaça prática.
Fundamentos permanecem sólidos apesar da correção recente
Feito o balanço entre oportunidades e riscos, o saldo que emerge da análise é predominantemente positivo. A oferta de Bitcoin permanece previsível e decrescente por design, com o halving programado para 2028 continuando a reduzir a emissão nova de moedas. A demanda, por outro lado, cresce de forma exponencial tanto no varejo quanto, gradualmente, no segmento institucional. O processo de digitalização da economia global acelera, enquanto a desconfiança em relação a políticas monetárias expansionistas de governos e a fragilidade de algumas moedas soberanas aumentam em vários países. “Todos esses ventos estão a favor do Bitcoin”, concluiu Kerbage. Para a Hashdex e muitos analistas do setor, o ativo não apenas resistiu à turbulência recente como saiu dela com sua tese de valor de longo prazo mais testada e, de certa forma, mais robusta do que antes da correção. A volatilidade, embora assustadora no curto prazo, continua sendo o preço a pagar por um ativo que redefine as fronteiras do sistema financeiro global.

