Mercado global de private equity adota estratégia brasileira de especialização e geração de valor

O cenário global do private equity está passando por uma transformação profunda, e os caminhos trilhados pelo mercado brasileiro nos últimos anos estão servindo como referência. Uma análise exclusiva do “Relatório Global de Private Equity” da Bain & Company, com recorte regional focado no Brasil, revela que práticas consolidadas por gestores nacionais, como a especialização setorial e o foco obsessivo na geração de valor operacional, se tornaram tendências imperativas no mundo todo. O estudo, que capturou dados e percepções de cerca de 80% dos gestores locais e 40% dos investidores com posição no país, aponta uma convergência estratégica inesperada.

Especialização setorial se consolida como padrão no mercado brasileiro

A pesquisa da Bain & Company confirma que a maior parte das gestoras brasileiras de private equity já opera com um modelo de especialização. Mesmo nas casas que parecem generalistas, ao “abrir o capô”, é possível identificar times dedicados cujos tomadores de decisão possuem conhecimento profundo sobre setores específicos. Essa abordagem difere de modelos mais genéricos que buscavam oportunidades em qualquer indústria, priorizando apenas o múltiplo de entrada. No Brasil, a complexidade econômica e a volatilidade histórica exigiram que os investidores entendessem minuciosamente a dinâmica operacional, a cadeia de suprimentos e os riscos regulatórios de cada nicho antes de comprometer capital.

Due diligence brasileira vai além da análise financeira tradicional

O relatório destaca que as gestoras brasileiras dedicam tempo e recursos significativos a um processo de due diligence detalhado e integrado. Esse processo transcende a auditoria financeira tradicional, incorporando uma avaliação aprofundada da operação, da dinâmica de mercado, do posicionamento competitivo e, crucialmente, da equipe de gestão. A capacidade de avaliar e, posteriormente, trabalhar lado a lado com a liderança da empresa para implementar melhorias tornou-se um diferencial competitivo. Segundo Gustavo Camargo, sócio da Bain & Company e líder da prática de Private Equity para a América do Sul, essa abordagem mais holística é uma marca registrada dos investidores de maior sucesso no país.

Geração de valor operacional é resposta à imprevisibilidade do mercado

Enquanto em mercados mais estáveis a estratégia poderia se apoiar mais fortemente em alavancagem financeira e timing de saída, no Brasil, a incerteza moldou um modus operandi distinto. O comportamento imprevisível das janelas de liquidez – períodos em que o mercado está receptivo para venda de participações – e o custo historicamente elevado da dívida, devido às altas taxas de juros, forçaram os gestores a focar no que podiam controlar: a geração de caixa e valor dentro da própria empresa. “Como as empresas não conseguem gerar dinheiro com alavancagem e não têm certeza sobre a duração das janelas, só o que elas podem controlar é geração de caixa”, afirma Camargo. Curiosamente, muitos gestores locais nem sequer enxergavam essa prática como uma peculiaridade brasileira, mas sim como a única forma viável de se operar.

Preparação para venda a qualquer momento define o planejamento

No modelo brasileiro, os investimentos frequentemente já nascem com um plano robusto de criação de valor, desenhado para preparar a empresa para uma eventual saída. A lógica é de prontidão constante: como não se sabe quando a janela de liquidez se abrirá, a empresa deve estar sempre “pronta para venda”, gerando caixa de forma consistente e com uma história de crescimento e eficiência operacional para contar ao próximo investidor. Essa mentalidade contrasta com abordagens que definem um horizonte de saída fixo e trabalham em cima dele, sendo forçada pela volatilidade macroeconômica nacional.

Alocação gradual e alavancagem conservadora completam o manual tático

Além da especialização e do foco em valor, a pesquisa da Bain identificou outras duas características táticas consolidadas no mercado brasileiro. A primeira é a alocação gradual de capital ao longo do tempo. Influenciada pela volatilidade cambial entre real e dólar – moeda na qual muitos fundos captam e comprometem investimentos –, essa prática visa reduzir a exposição a choques específicos e posicionar as entradas de capital em pontos mais favoráveis da curva de câmbio. A segunda é o uso conservador de alavancagem (dívida), uma resposta direta aos patamares estruturalmente mais altos das taxas de juros no Brasil em comparação com economias desenvolvidas.

Volatilidade cambial e juros altos moldam decisões de capital

Essas duas práticas são respostas defensivas a condições de mercado desafiadoras. A faseação dos investimentos funciona como um hedge natural contra a imprevisibilidade do câmbio, enquanto a relutância em alavancagem pesada protege o negócio contra os custos financeiros exorbitantes que poderiam comprometer o fluxo de caixa em um ambiente de taxas elevadas. Juntas, elas criam um perfil de investimento que prioriza a solidez operacional e a preservação de capital frente a incertezas externas.

Mercado global converge para o modelo brasileiro pressionado por preços e competição

Nos últimos quatro anos, o cenário internacional começou a mudar radicalmente, levando o mundo na direção do que já era comum no Brasil. A competitividade por ativos de qualidade disparou, elevando os preços das transações a níveis recordes em diversos setores. O relatório global da Bain aponta, por exemplo, que em tecnologia o volume saltou 30% de 2024 para 2025, atingindo US$ 265 bilhões. No setor de serviços essenciais e energia, o aumento foi de 75% no mesmo período, para US$ 157 bilhões. Com múltiplos de entrada tão elevados, a simples compra e espera por uma valorização de mercado deixou de ser uma estratégia viável.

Explicar a geração de valor tornou-se imperativo para captar recursos

Nesse novo ambiente global, caracterizado por preços altos e competição acirrada entre gestoras, tornou-se um imperativo estratégico explicar aos investidores (Limited Partners) como a gestora pretende, efetivamente, acelerar o crescimento e gerar valor dentro da empresa adquirida. “Entre os preços estarem muito altos e a competição muito grande de gestoras, explicar para o investidor por que a empresa conseguirá gerar valor e, efetivamente, acelerar o crescimento das empresas, se tornou um imperativo estratégico no private equity no mundo”, analisa Camargo. A capacidade de demonstrar expertise setorial e um plano concreto de melhoria operacional passou a ser o novo critério decisivo para a alocação de capital global.

A expertise brasileira em ambientes complexos ganha relevância internacional

A experiência acumulada pelas gestoras brasileiras em operar em um ambiente de alta volatilidade, juros elevados e janelas de liquidez imprevisíveis está se mostrando cada vez mais valiosa. A habilidade de criar valor a partir da operação da empresa, e não apenas da alavancagem financeira ou do timing de mercado, é uma competência que está em alta demanda. O “manual” desenvolvido à força no Brasil – com sua due diligence integrada, especialização, planos de valor desde o dia um e gestão conservadora de risco – oferece um roteiro testado em condições adversas para um mundo que agora enfrenta suas próprias incertezas econômicas e geopolíticas.

O setor financeiro global observa e aprende com as práticas locais

A convergência não significa uma cópia literal, mas uma adaptação de princípios. Gestoras globais estão incorporando times especialistas por setor, aprofundando suas due diligences operacionais e desenhando planos de criação de valor mais agressivos desde a aquisição. O que era uma necessidade imposta pela realidade econômica brasileira transformou-se em uma vantagem competitiva e, agora, em uma tendência global. O fenômeno inverte uma lógica histórica de importação de modelos, colocando as práticas desenvolvidas no mercado doméstico em posição de destaque e referência.

A maturação do mercado brasileiro de private equity, forjada em décadas de instabilidade, resultou em um conjunto de práticas robustas e antifrágeis. A globalização dessas estratégias evidencia que, em um mundo de capital abundante mas oportunidades escassas, a verdadeira vantagem competitiva reside na capacidade de criar valor real dentro das empresas. A jornada do private equity brasileiro, longe de ser um caso isolado, revela-se um precursor do futuro da indústria, onde a expertise profunda e a execução operacional impecável serão os únicos caminhos sustentáveis para retornos acima da média. A lição que emerge é clara: em mercados eficientes, o sucesso pertence àqueles que sabem não apenas escolher o cavalo vencedor, mas também treiná-lo para correr mais rápido.

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