Um agente do FBI com credencial de nível ultrassecreto foi preso após desviar cerca de US$ 1 milhão em criptomoedas de uma investigação de segurança nacional. O caso do agente do FBI preso por desviar US$ 1 milhão em criptomoedas expõe uma falha grave de custódia de seed phrases dentro da própria agência e terminou com uma confissão espontânea ao Departamento de Justiça.
Como o agente do FBI desviou US$ 1 milhão em criptomoedas de investigação
O processo, datado de 1º de agosto, identifica o agente como Patrick Steven Yaroch. Ele detém credencial de segurança de nível ultrassecreto desde 2017 e, em 2025, foi designado para uma equipe de segurança nacional focada em uma nação adversária.
A investigação mirava carteiras ligadas a um país adversário. O documento não nomeia o país, mas o contexto é relevante: em julho, os EUA congelaram cerca de US$ 130 milhões em USDT ligados ao Irã e, no fim de maio, o secretário do Tesouro americano afirmou ter confiscado US$ 1 bilhão em criptomoedas do Irã. Ações similares já ocorreram contra a Coreia do Norte, alvo de uma operação em junho de 2025.
Por volta de novembro de 2024, durante o trabalho investigativo, Yaroch teve acesso a contas de criptomoedas adversárias. Em depoimento, ele se descreveu como “saindo do controle” e alegou frustração porque o FBI não podia ou não queria agir rápido contra essas contas. A agência já possuía a frase-semente que dava acesso aos fundos.
Como funciona o desvio com seed phrase dentro do FBI?
Yaroch usou suas próprias credenciais para pesquisar no sistema interno do FBI por informações sobre contas de criptomoedas de países adversários e memorizou uma das seed phrases. Seed phrase é a sequência de palavras que funciona como chave-mestra de uma carteira cripto: quem tem a sequência tem controle total dos ativos, sem precisar de senha ou aprovação de exchange.
Com a frase em mãos, ele acessou a carteira fora do ambiente controlado da agência e transferiu cerca de US$ 1 milhão para uma conta pessoal. A operação não envolveu exploração de vulnerabilidade em blockchain, mas sim abuso de acesso interno e falha de segregação de custódia. Em vez de armazenamento em carteira fria com multisig e controle dual, a frase estava acessível para consulta individual.
Por que o crime foi descoberto: confissão, Trezor e mandados de busca
O desvio só veio à tona porque o próprio agente se apresentou a um funcionário do Departamento de Justiça na quarta-feira (29). Ele disse que queria “tirar isso do peito” porque estava se “correndo por dentro”.
No mesmo dia, uma equipe do FBI foi até a casa de Yaroch para colocá-lo em licença administrativa. No primeiro contato, ele entregou um pedaço de papel com a frase-semente das carteiras e depois pediu o papel de volta. Na conversa, afirmou:
“Eu fiz uma merda grande”
No dia seguinte, Yaroch entrou em contato com outro agente para remarcar a continuidade da entrevista. Após autorização judicial para busca e apreensão, o FBI retornou à residência na manhã da sexta-feira (31) e apreendeu celulares, um computador, uma carteira de hardware Trezor e backups de carteiras escritos em papel.
Onde o dinheiro foi parar e quanto foi recuperado
Com a cooperação do agente, os investigadores localizaram parte dos fundos em uma conta na corretora Kraken: US$ 188.570,58 no total, sendo 17.987,64 em USDC e 165.582,49 em USD, além de pequenas frações em outras moedas, incluindo Bitcoin.
O restante havia sido movido em 23 de julho de 2026. O registro mostra uma transferência de cerca de US$ 1,02 milhão para um serviço inicialmente desconhecido, depois identificado como Suilend (SUILEND).
| Localização dos fundos | Valor recuperado | Detalhes técnicos |
|---|---|---|
| Kraken | US$ 188.570,58 | 17.987,64 em USDC, 165.582,49 em USD e frações em Bitcoin e outras moedas |
| Suilend | US$ 933.756,73 | Protocolo DeFi de empréstimo na rede Sui, destino da transferência de 23 de julho de 2026 |
O que é Suilend e por que ele escolheu a rede Sui?
Suilend é um protocolo de lending DeFi construído na blockchain Sui. Ele permite depositar criptoativos como colateral para tomar empréstimos ou gerar rendimento. Yaroch afirmou ter escolhido a plataforma simplesmente porque gostou do logotipo ser uma gota d’água. A escolha não teve motivação técnica, o que facilitou o rastreamento: ao contrário de mixers ou bridges cross-chain, o protocolo mantém saldos vinculados a endereços públicos rastreáveis.
ChatGPT, fuga para Portugal e o plano de deixar os EUA
O processo anexou conversas de Yaroch com o ChatGPT. Às 08h35 de 4 de junho de 2026, ele perguntou:
“Se você tivesse um monte de dinheiro (cerca de US$ 1 milhão) e quisesse sair dos EUA e se tornar residente ou cidadão de um país da UE, o que faria?”
A resposta da IA citou informações pessoais que ele mesmo havia fornecido anteriormente, como filho, esposa, desejo por uma propriedade de 2 a 5 hectares, interesse em vinho tinto de guarda e objetivo de morar de fato no país. A sugestão apresentada foi Portugal como principal opção, com a estratégia de residência e não de cidadania direta.
A análise preliminar do telefone encontrou o aplicativo TAP Air Portugal instalado, com uma viagem marcada para ele, sua esposa e filho no dia 4 de setembro, com destino a Lisboa. Na tarde da sexta-feira (31), Yaroch transferiu as criptomoedas de volta para o FBI e foi preso em seguida.
Implicações de segurança e custódia de ativos digitais
O episódio evidencia o risco de insider threat em investigações que envolvem ativos ao portador. Diferente de contas bancárias, criptomoedas apreendidas não podem ser congeladas com uma ordem a um banco se a seed phrase vazar: quem tiver as palavras pode movimentar tudo de qualquer lugar. Para o mercado brasileiro, onde corretoras e custodiantes já precisam seguir regras de segregação patrimonial, o caso reforça a necessidade de cofre frio, assinatura múltipla, acesso quádruplo e logs imutáveis para qualquer frase de recuperação sob custódia estatal.
A prisão também cria precedente para como o DOJ e o Tesouro americano vão lidar com os mais de US$ 1 bilhão em ativos já reivindicados de adversários geopolíticos. Cada movimentação agora exigirá prova de cadeia de custódia criptográfica, com risco jurídico se houver contaminação por acesso interno indevido.

