Chefe da Xbox assume cargo de conselheira do Federal Reserve dos EUA

Asha Sharma, CEO da Xbox, assume cargo de conselheira do Federal Reserve em meio a polêmicas sobre cortes de empregos na indústria de games.

A nomeação de Sharma ocorre após a Xbox demitir 3.200 funcionários e fechar estúdios renomados.
Destaques
  • Asha Sharma, CEO da Xbox, foi nomeada para uma força-tarefa do Federal Reserve sobre produtividade e empregos.
  • A força-tarefa inclui também Marc Andreessen e Charles I. Jones, com foco em impacto econômico da IA.
  • Sharma liderou o maior layoff da história dos videogames, com 3.200 demissões, enquanto aconselha o Fed sobre emprego.

O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, anunciou a adição de Asha Sharma, CEO da Xbox, a uma nova força-tarefa criada para aconselhar a instituição sobre políticas relacionadas a produtividade e empregos. A nomeação surpreendente ocorre na esteira de um dos maiores cortes de empregos da história da indústria de videogames: a Xbox demitiu 3.200 funcionários e se desfez de estúdios renomados como Double Fine, Ninja Theory, Undead Labs e Compulsion Games. Sharma, portanto, assume o posto de conselheira pouco depois de se tornar a figura central do maior layoff coletivo do setor em 2026.

A task force que vai orientar a política monetária dos EUA

A força-tarefa da qual Sharma fará parte é uma das cinco montadas pelo Federal Reserve para assessorar o banco central na condução ampla da política monetária. Esses grupos operam de forma independente, com o mandato de seguir evidências, fornecer feedback sincero e produzir descobertas rigorosas para o Federal Open Market Committee (FOMC). O grupo específico de Sharma analisará o impacto econômico de novas tecnologias de uso geral, incluindo inteligência artificial, para auxiliar o Fed na tomada de decisões regulatórias e de política econômica.

A composição da força-tarefa revela um viés fortemente alinhado ao setor de IA. Além de Sharma, integram o grupo Marc Andreessen, cofundador e sócio-geral da Andreessen Horowitz, e Charles I. Jones, professor de economia da Universidade de Stanford. Andreessen Horowitz é um dos maiores investidores em empresas de IA do mundo, e a própria Anthropic, uma das líderes em modelos de linguagem, contratou Jones recentemente para avaliar o impacto da inteligência artificial na economia. Em 2023, Andreessen publicou um manifesto tecno-otimista no qual declarou que a IA é a “pedra filosofal” da sociedade, e em um post anterior afirmou que a inteligência artificial salvaria o mundo.

Sharma: da liderança em IA ao comando da Xbox e agora ao Fed

Sharma não chega ao Fed apenas como chefe da Xbox, mas como ex-chefe do CoreAI da Microsoft, a divisão central de inteligência artificial da empresa. Antes disso, passou por cargos executivos no Instacart, no Meta e na Porch. Sua trajetória inclui experiência extensa na gestão de grandes organizações baseadas em tecnologia. O problema, do ponto de vista da indústria de games, é que ela assume esse papel de conselheira do governo americano imediatamente após implementar cortes profundos em estúdios históricos como Obsidian Entertainment, id Software e ZeniMax, deixando milhares de profissionais do setor desempregados.

As demissões, aliás, ainda não terminaram. Metade dos 3.200 cortes prometidos ocorreu nesta semana. A outra metade, segundo a própria Sharma em comunicado oficial, será realizada ao longo do ano fiscal de 2027 da Microsoft. Isso significa que a CEO da Xbox estará aconselhando o Federal Reserve sobre políticas de emprego e produtividade enquanto sua própria empresa continua a reduzir seu quadro de funcionários no setor de games.

O que é a task force do Federal Reserve e qual o papel de Asha Sharma?

A task force é um grupo de consultores independentes que assessora o Federal Reserve sobre o impacto econômico de novas tecnologias, especialmente inteligência artificial, na produtividade e no mercado de trabalho. Asha Sharma, CEO da Xbox e ex-chefe do CoreAI da Microsoft, foi nomeada para integrar essa força-tarefa, que também inclui o investidor Marc Andreessen e o economista Charles I. Jones. O grupo tem a missão de fornecer análises e recomendações ao Federal Open Market Committee sobre como a IA e outras tecnologias de uso geral afetam a economia dos EUA.

O paradoxo de aconselhar sobre emprego enquanto se demite

A nomeação de Sharma levanta questões sobre a credibilidade e a composição das forças-tarefa do Fed. De um lado, sua experiência à frente de divisões de IA e de uma das maiores plataformas de entretenimento do mundo a qualifica tecnicamente para discutir o impacto econômico da automação e da inteligência artificial. De outro, o fato de ela estar simultaneamente executando o maior layoff da história dos videogames — e parte dele ainda por vir — cria um conflito narrativo difícil de ignorar. A força-tarefa foi criada justamente para analisar como novas tecnologias afetam empregos e produtividade, e Sharma personifica a aplicação agressiva dessas tecnologias com consequências diretas sobre milhares de trabalhadores.

O mercado de games brasileiro, que acompanha de perto as movimentações da Xbox, observa com atenção o desenrolar dessa situação. A Microsoft tem presença forte no país, com o Xbox Game Studios e o suporte do Xbox Game Pass, e as demissões em estúdios como id Software e Obsidian afetam indiretamente o ecossistema de desenvolvimento, já que muitos profissionais brasileiros atuam ou colaboram com esses estúdios. A nomeação de Sharma para o Fed, embora ocorra nos EUA, sinaliza o peso crescente que a indústria de games e a IA têm na formulação de políticas econômicas globais — e os riscos que isso representa para a força de trabalho do setor.

O Federal Reserve, por sua vez, ganha uma conselheira com experiência prática em gestão de tecnologia em larga escala, mas também carrega a controvérsia de ter à mesa alguém cujas decisões recentes contradizem diretamente o mandato da força-tarefa de preservar empregos e promover produtividade de forma sustentável. Resta saber se a voz de Sharma dentro do Fed será capaz de equilibrar o otimismo tecnológico de Andreessen com a realidade dos cortes que ela mesma está implementando.

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