Baldur’s Gate 3: atriz de Karlach vê uso de IA como “queda do castelo de cartas”

A indústria dos videogames vive uma transformação profunda, onde a performance vocal deixou de ser um mero complemento para se tornar a espinha dorsal da narrativa e da imersão. No centro deste movimento estão atrizes e atores como Samantha Beart, a voz icônica por trás de Karlach em Baldur’s Gate 3, cujo trabalho exemplifica o poder da atuação humana. Em uma entrevista exclusiva discutindo seu novo projeto, Fading Echo, Beart abordou a crescente valorização dos dubladores, mas também lançou um olhar crítico sobre um dos maiores desafios contemporâneos: a ascensão da inteligência artificial generativa. Para a atriz, o recente encerramento do aplicativo de vídeo Sora, da OpenAI, não é apenas uma vitória pontual, mas potencialmente “o começo da queda do castelo de cartas” de um modelo que ameaça a essência criativa da profissão.

A Ascensão do Dublador como Estrela Criativa

A era em que jogos eram lançados sem áudio de voz ou com performances desconectadas ficou para trás. Hoje, figuras como Troy Baker, Neil Newbon e Maggie Robertson são nomes reconhecidos, frequentando os palcos de premiações como The Game Awards. Samantha Beart personifica essa evolução. Sua trajetória, marcada por uma década de trabalho árduo, culminou na aclamação por seu papel em Baldur’s Gate 3, demonstrando como a profissão ganhou visibilidade e respeito. No entanto, Beart destaca que essa visibilidade não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para uma colaboração mais profunda.

Em Fading Echo, novo jogo de ação e aventura da desenvolvedora francesa Emetria, Beart experimentou um processo que considera “sem precedentes”. Diferente do modelo tradicional, ela foi abordada diretamente, integrada desde as primeiras conversas criativas e fez parte ativa da divulgação. “Me senti parte integrante da equipe criativa. Isso é extremamente incomum”, destacou a atriz. Essa participação antecipada, que ela oferece sem custo adicional por entender o benefício mútuo, quebra a barreira da invisibilidade que muitas vezes cerca tanto os artistas quanto os desenvolvedores.

Fading Echo: Uma Nova Personagem, Um Novo Processo

Em Fading Echo, Samantha Beart deixa para trás a energia fogosa de Karlach para interpretar uma protagonista com ligação à água, um contraste que a própria atriz brincou: “Estou interpretando uma personagem aquática e Karlach era fogo. Ela também pode se transformar em vapor, então é um pouco dos dois.” Mais do que a diferença temática, o que chama atenção é o método de trabalho do estúdio Emetria, que reuniu um elenco repleto de talentos do renomado grupo Critical Role. Beart vê essa presença como um sinal positivo, um reconhecimento do valor artístico que os dubladores trazem para um projeto, ele
vando a qualidade narrativa e criando uma conexão mais autêntica com o público.

A Batalha Contra a Inteligência Artificial Generativa

Enquanto a profissão alcança novos patamares de reconhecimento, uma ameaça paralela se consolidou nos últimos anos: o uso não regulamentado de IA para gerar vozes, imagens e performances. Em 2023, o sindicato norte-americano SAG-AFTRA travou uma batalha histórica, resultando em acordos que buscam proteger os direitos e a imagem dos profissionais. Para Beart e muitos de seus colegas, isso foi um passo crucial, mas a luta está longe do fim.

A declaração da atriz sobre o fim do Sora é emblemática: “O Sora se foi. Espero que seja o começo da queda do castelo de cartas”. A frase reflete uma percepção de que muitas iniciativas de IA generativa são construídas sobre bases frágeis – questões éticas de uso de dados, violações de direitos autorais e a promessa vazia de substituir a criatividade humana genuína. Para ela, o fechamento de um projeto de grande visibilidade como o Sora pode ser o primeiro sinal de que essa estrutura insustentável começa a ruir.

Os Riscos da IA para a Autoria e a Convivência

A preocupação vai além da simples substituição de mão de obra. O cerne da questão, como apontado por profissionais da área, reside em três pilares:

  • Desvalorização da Expertise: A IA pode replicar timbres e padrões, mas não consegue capturar a intenção, a história de vida, a colaboração em tempo real com diretores e a capacidade de improviso que um ator traz para o estúdio. Trata-se de uma expertise construída com anos de treino.
  • Erosão das Conexões Humanas: O processo criativo de um jogo, especialmente em narrativas complexas, depende de trocas e construção de confiança. A IA, por definição, é uma ferramenta asséptica que não contribui para a química do elenco ou a construção de um ambiente criativo saudável.
  • Questionamento Ético e Legal: A maioria dos modelos de IA é treinada em dados provenientes de obras protegidas sem consentimento ou compensação adequada, criando um ciclo de exploração que prejudica os criadores originais.

Visibilidade e Representatividade: A Arma do Dublador Moderno

Diante desse cenário desafiador, Beart aponta uma estratégia que tem sido adotada por ela e seus pares: o uso estratégico das redes sociais. “Nós usamos as redes sociais como arma para alcançar o público”, afirmou. Essa ferramenta serve para múltiplos propósitos:

  1. Humanizar a Profissão: Mostrar o processo de trabalho, os bastidores das gravações e a personalidade por trás das vozes famosas.
  2. Promover Projetos com Autenticidade: Quando um dublador fala sobre um jogo com conhecimento de causa, gera uma divulgação mais credível e engajada do que um anúncio corporativo tradicional.
  3. Criar uma Comunidade: Fãs passam a acompanhar não apenas os personagens, mas os artistas que os dão vida, fortalecendo o vínculo com a indústria como um todo.

Essa abordagem, segundo Beart, beneficia a todos. O jogo ganha uma promoção qualificada, o estúdio vê seu trabalho valorizado por quem o entende profundamente, e os atores saem da invisibilidade, assegurando seu espaço como criadores essenciais. É um contraponto ativo à desumanização promovida pela IA generativa.

A Importância da Colaboração nos Jogos AAA e Independentes

A atriz faz uma distinção importante sobre como essa dinâmica se aplica em diferentes escalas da indústria. Em grandes estúdios AAA, a integração nem sempre é tão orgânica. Em contrapartida, em projetos como Fading Echo, de estúdios como a Emetria, há uma abertura maior para essa colaboração estreita desde o início. Esse modelo, que poderia ser mais amplamente adotado, não só resulta em performances mais coesas e alinhadas à visão criativa, mas também fortalece a lealdade e o investimento emocional de todos os envolvidos

O Futuro: Regulamentação, Consciência e Valorização Humana

O lançamento de Fading Echo, previsto para 2026 com uma demo já disponível no Steam, simboliza um caminho possível para o futuro. Um caminho onde a tecnologia serve para potencializar, e não para substituir. O uso responsável de ferramentas de IA para tarefas como limpeza de áudio ou geração de ambientes é bem-vindo, mas a linha deve ser traçada quando se trata do núcleo da expressão artística: a performance.

A vitória do SAG-AFTRA e o encerramento do Sora são batalhas vencidas em uma guerra mais longa. O que está em jogo é a preservação da alma da narrativa interativa. A experiência do jogador é profundamente enriquecida quando ele sabe que as emoções que sente são transmitidas por outro ser humano, que emprestou sua técnica, sua vulnerabilidade e sua interpretação única ao personagem.

A fala de Samantha Beart ecoa um sentimento crescente na comunidade criativa. O “castelo de cartas” da IA generativa desregulada pode parecer imponente, mas sua fundação é frágil porque ignora o elemento mais crucial de qualquer arte: a conexão humana. À medida que consumidores se tornam mais conscientes, profissionais se organizam e legislações avançam, a tendência é que o mercado valorize cada vez mais a autenticidade. O sucesso de jogos como Baldur’s Gate 3, celebrado justamente por suas performances memoráveis, já prova que o público responde e anseia por esse contato genuíno. O trabalho de atrizes como Beart não é apenas entretenimento; é a defesa ativa de que a voz humana, em toda sua complexidade e imperfeição, é insubstituível.

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