O ecossistema de startups japonesas está vivendo uma contradição que merece atenção. De um lado, o volume total de investimento se mantém estável, na casa dos 761,3 bilhões de ienes (cerca de US$ 5 bilhões). Do outro, a captação na fase semente — o estágio mais inicial, onde empresas de valor inferior a 500 milhões de ienes buscam o primeiro grande fôlego financeiro — despencou 42% em 2025, atingindo apenas 19,9 bilhões de ienes (aproximadamente US$ 124 milhões). É o menor patamar em uma década. O que parece um resfriamento generalizado é, na verdade, uma reconfiguração profunda e silenciosa do mercado, impulsionada por uma mudança concreta nas regras do jogo: o endurecimento dos critérios de listagem na Bolsa de Tóquio (TSE).
O fim do IPO pequeno como porta de saída
A raiz do problema está na TSE. A partir de março de 2030, os requisitos de manutenção de listagem no mercado Growth (voltado para empresas de alto crescimento) serão drasticamente elevados. A regra atual exige que a empresa atinja um valor de mercado de pelo menos 4 bilhões de ienes em até 10 anos após a abertura de capital. A nova regra reduz o prazo pela metade e mais que dobra a exigência: a companhia precisará atingir 10 bilhões de ienes em valor de mercado em apenas 5 anos. O salto é brutal — a meta de escala é 2,5 vezes maior, e o tempo para chegar lá é 50% menor.
O impacto já é mensurável. Em 2025, apenas 40 empresas fizeram sua estreia no mercado Growth, contra 63 no ano anterior. No total da bolsa (excluindo o mercado Prime), os novos IPOs somaram 66, o menor número desde 2013. A queda é ainda mais dramática quando se olha para os IPOs de pequeno porte, com captação inferior a 8 bilhões de ienes: foram os mais escassos em 12 anos. O segmento que antes representava cerca de 80% dos IPOs japoneses está encolhendo em ritmo acelerado.
Essa mudança não afeta apenas a estratégia de saída das startups. Ela já está redefinindo a lógica de investimento dos fundos de venture capital (VCs).
O dinheiro não sumiu, ele se concentrou
Se a análise se limitar ao tombo de 42% na captação semente, a conclusão apressada é de que o mercado de startups no Japão congelou. Mas os dados agregados contam uma história diferente. O relatório Japan Startup Finance 2025, da consultoria Speeda, mostra que o total captado por startups domésticas (excluindo dívida) foi de 761,3 bilhões de ienes, praticamente estável em relação aos 779,3 bilhões de ienes de 2024. O dinheiro não evaporou — ele migrou.
O que encolheu foram as rodadas semente e Série A. Esta última caiu de 168,4 bilhões de ienes para 139,1 bilhões de ienes. Em contrapartida, as rodadas Série C foram as que mais captaram: 192,4 bilhões de ienes. O capital está se concentrando em empresas de estágio mais avançado, que já têm receita, tração e um caminho mais claro para atingir a nova meta de valor de mercado.
O número de empresas que receberam investimento caiu 6%, para cerca de 2.700. A mediana do valor captado por empresa despencou de 77,6 milhões de ienes para 62,4 milhões de ienes. A média, no entanto, se manteve estável em 310 milhões de ienes — um sinal clássico de que alguns poucos negócios de grande porte estão puxando a estatística para cima. Rodadas bilionárias, como os 36,2 bilhões de ienes captados pela robótica Mujin, os 24 bilhões de ienes da Turing (startup de direção autônoma) e os 20 bilhões de ienes da Sakana AI, escancaram a concentração. Enquanto isso, o número de rodadas com captação inferior a 10 milhões de ienes cresceu 98 casos, chegando a 448. O mercado está se polarizando.
A reação em cadeia entre a bolsa e os VCs
A decisão dos VCs de migrar o capital para estágios mais tardios não é um capricho. É uma resposta racional ao novo cenário regulatório. Para um fundo de venture capital, o IPO sempre foi a principal rota de saída para investimentos em estágio inicial. Com a nova regra, o modelo de “abrir capital pequeno e crescer na bolsa” perdeu a validade. Se uma startup abrir capital com valor de mercado de algumas dezenas de bilhões de ienes, ela corre o risco real de ser deslistada em 5 anos se não atingir os 10 bilhões de ienes. A alternativa forçada seria migrar para o mercado Standard, o que representa um downgrade e uma perda de prestígio e liquidez.
Para o VC, investir em uma semente com a expectativa de uma saída via IPO pequeno se tornou um jogo de incerteza muito maior. O resultado é um movimento defensivo: o capital é direcionado para empresas que já demonstram capacidade de escalar e que têm mais chances de cumprir a meta de valor de mercado pós-IPO. A própria Kepple, uma das gestoras de fundos mais ativas do país, ilustra bem essa tendência. Em maio de 2024, a empresa concluiu a captação de um fundo de 10 bilhões de ienes especializado em transações secundárias, mirando startups em estágio mid-to-late que planejam abrir capital em até três anos.
A TSE, por sua vez, é clara em seu objetivo: quer redefinir o mercado Growth como um ambiente para empresas de alto crescimento, não um cemitério de IPOs pequenos que estagnam após a listagem. A intenção não é eliminar os IPOs de pequeno porte, mas sim garantir que apenas empresas com confiança real em seu potencial de crescimento busquem a bolsa. A própria TSE afirma que a listagem para empresas com menos de 10 bilhões de ienes continua possível, e que o caminho do crescimento pós-IPO não está fechado — o mercado Standard existe justamente para absorver as empresas que não conseguirem cumprir a meta. O problema é que o mercado, como sempre, se antecipa às regras. A aplicação da nova norma é em 2030, mas a seleção dos investidores já começou em 2025.
O plano de 5 anos do governo e a distância da meta
Em 2022, o governo japonês lançou o ambicioso “Plano de 5 Anos para o Desenvolvimento de Startups”, com a meta de elevar o investimento anual em startups para a casa dos 10 trilhões de ienes até o ano fiscal de 2027. Na época, o investimento anual era de cerca de 800 bilhões de ienes. A meta representava um salto de mais de 10 vezes em 5 anos.
Três anos depois, o cenário é de estagnação. O total captado em 2025 foi de 761,3 bilhões de ienes, ainda longe da marca de 1 trilhão. O número de unicórnios é de apenas 8, contra uma meta de 100. Dados do Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) mostram que o PIB gerado por startups em 2025 foi de aproximadamente 13,7 trilhões de ienes em efeito direto, e de 25,7 trilhões de ienes considerando os efeitos indiretos, um crescimento de 15% em relação ao ano anterior. A economia real está sentindo o impacto positivo do ecossistema, mas o volume de investimento, que é o motor do plano, não acompanhou.
A reforma da TSE e o plano do governo compartilham a mesma direção: fomentar empresas de crescimento de qualidade. No curto prazo, no entanto, o efeito colateral é a escassez de capital na base da pirâmide. As startups que não conseguirem captar na fase semente simplesmente não chegarão ao estágio de growth. A seleção natural do mercado está se acelerando, e o funil de entrada está mais estreito do que nunca.
O que está em jogo para o futuro do ecossistema
O problema central não é a falta de dinheiro. O capital está disponível e, em alguns segmentos, em níveis recordes. Fundos estrangeiros como a Andreessen Horowitz estão de olho no mercado japonês, com planos de abrir escritório em Tóquio. O que está em questão é a distribuição desse capital. Os 19,9 bilhões de ienes captados na fase semente em 2025 representam cerca de 1,6 bilhão de ienes por mês. A pergunta que fica é: quantas novas empresas é possível fundar e sustentar com esse fluxo?
Não se trata de negar a necessidade da reforma da TSE. A proliferação de IPOs pequenos que não conseguiam crescer após a listagem prejudicou a credibilidade do mercado. O problema é que, ao elevar a barreira de saída, a contrapartida natural deveria ser um reforço na porta de entrada. A dinamização do mercado de M&A e o desenvolvimento do mercado secundário são peças desse quebra-cabeça, mas o foco principal precisa estar em políticas que sustentem o estágio de criação das empresas. A expansão do financiamento público para a fase semente e o aprofundamento de incentivos fiscais para investidores-anjo são caminhos que precisam ser explorados com mais profundidade.
Os números agregados mostram um mercado estável. Mas por trás dessa estabilidade, a próxima geração de startups pode estar encontrando um solo mais árido para germinar. O Japão está fazendo uma aposta ousada na qualidade, mas o preço a pagar pode ser a redução da diversidade e da renovação do ecossistema.

