A transformação estética de Margareth Serrão, mãe da influenciadora digital Virginia Fonseca, aos 60 anos, colocou em evidência uma prática cada vez mais comum nos consultórios de cirurgia plástica: a realização de múltiplos procedimentos em uma única intervenção cirúrgica. Popularmente conhecido como “combo cirúrgico”, essa abordagem levanta questionamentos fundamentais sobre segurança, indicação e os limites da medicina estética na maturidade. A exposição midiática do caso reacendeu um debate que vai muito além das redes sociais, atingindo o cerne da ética médica e do cuidado com pacientes maduros.
O que define a viabilidade de um combo cirúrgico em pacientes acima de 60 anos
O combo cirúrgico consiste na realização de dois ou mais procedimentos plásticos durante o mesmo ato anestésico. Combinações clássicas incluem abdominoplastia com mamoplastia ou lipoaspiração. A principal justificativa para essa abordagem é a obtenção de uma harmonia corporal mais integrada, além da evidente conveniência de enfrentar um único período de recuperação. “Quando bem indicadas, elas podem oferecer resultados mais harmônicos e também evitar que o paciente passe por vários períodos de recuperação”, explica a Dra. Larissa Sumodjo, cirurgiã plástica e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O benefício econômico também é um fator, pois reduz custos hospitalares e com honorários anestésicos. No entanto, o fator decisivo nunca deve ser a conveniência ou o custo, mas sim a segurança clínica do paciente. O tempo total de cirurgia é uma variável crítica; procedimentos que se estendem por muitas horas aumentam exponencialmente os riscos de complicações trombóticas, cardiopulmonares e anestésicas.
A idade biológica prevalece sobre a idade cronológica na avaliação cirúrgica
Um dos maiores mitos a serem desconstruídos é a ideia de que os 60 anos representam uma barreira intransponível para cirurgias plásticas. A medicina contemporânea rejeita essa visão simplista. “A idade cronológica, por si só, não determina a segurança de uma cirurgia plástica. O que realmente pesa na decisão é o estado geral de saúde da paciente e o planejamento cirúrgico”, afirma Dra. Larissa Sumodjo. O conceito central passa a ser a “idade biológica” – uma medida do desgaste fisiológico do organismo, que pode divergir significativamente da idade no calendário. Uma paciente de 60 anos que pratica atividade física regular, não fuma, tem exames cardiológicos em dia e não apresenta doenças crônicas descompensadas pode ser um candidato melhor para uma cirurgia do que uma pessoa de 45 anos com diabetes mal controlada e hipertensão. A avaliação, portanto, migra de um número fixo para uma análise holística da reserva funcional do indivíduo.
O check-up multidisciplinar obrigatório para pacientes maduras
Para pacientes acima de 60 anos que desejam se submeter a um combo cirúrgico, a avaliação pré-operatória transcende em muito o exame de sangue de rotina. É necessária uma abordagem multidisciplinar rigorosa. O coração e os pulmões, órgãos que suportam o estresse do trauma cirúrgico e da anestesia, devem ser minuciosamente investigados. Exames como ecocardiograma, teste ergométrico (ou cintilografia miocárdica) e avaliação da função pulmonar tornam-se frequentemente obrigatórios. “Podemos solicitar avaliação de outros especialistas, como cardiologistas e pneumologistas. O preparo precisa ser individualizado”, ressalta a especialista. Essa teia de avaliações é o que separa um procedimento planejado com segurança de uma aventura médica de alto risco. Histórico familiar, uso de medicamentos (especialmente anticoagulantes) e hábitos de vida são detalhadamente revisados.
Quando a prudência dita a divisão das cirurgias em duas etapas
Mesmo diante de uma paciente clinicamente saudável, existem limites técnicos para o combo. A duração total da cirurgia é o fator mais frequentemente limitante. Quando a soma dos procedimentos desejados projeta um tempo cirúrgico excessivamente longo, a estratégia mais segura é a realização em etapas. “A decisão entre realizar as cirurgias juntas ou separadas depende da saúde da paciente, do tipo de procedimento e da duração estimada da cirurgia. Em determinadas situações, dividir em duas etapas pode ser a alternativa mais prudente”, afirma a Dra. Larissa. Procedimentos de grande porte, como uma cirurgia corporal combinada (torsoplastia) com lifting facial, por exemplo, raramente são realizados juntos em pacientes maduros devido ao tempo e ao volume de trauma tecidual. A divisão permite uma recuperação mais focada e menos estressante para o organismo, reduzindo riscos de complicações graves como tromboembolismo.
Os perigos da comparação e das expectativas irreais nas redes sociais
A exposição de resultados como o de Margareth Serrão, mostrados em ângulos favoráveis e em momentos otimizados da recuperação, cria um terreno fértil para expectativas irreais. A cirurgiã alerta para o perigo de basear decisões médicas em tendências ou em exemplos isolados de influenciadoras. “Cada corpo responde de uma forma e possui um histórico clínico único”, enfatiza. A cicatrização na maturidade é um processo diferente; pode ser mais lenta e demandar cuidados específicos. A pele de uma paciente de 60 anos tem menos elasticidade e sua vascularização pode não ser a mesma de uma mulher de 30 anos, fatores que impactam diretamente no resultado final e no risco de complicações como necrose ou deiscência de sutura. A consulta médica deve ser um espaço de realinhamento dessas expectativas, fundamentado na ciência e na individualidade.
O protocolo de segurança para cirurgia plástica na maturidade
Para quem, após avaliação criteriosa, decide prosseguir com um ou múltiplos procedimentos após os 60 anos, existe um protocolo de segurança que deve ser seguido à risca. O primeiro e mais importante passo é a escolha de um cirurgião plástico qualificado, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), garantia de que o profissional possui treinamento reconhecido e está submetido a um código de ética. Em segundo lugar, a realização completa e meticulosa de todos os exames pré-operatórios solicitados, sem exceções. O terceiro pilar é o seguimento estrito das orientações pós-operatórias, incluindo repouso, uso de cintas compressivas, medicação prescrita, cuidados com as cicatrizes e retorno às atividades de forma gradual. Por fim, a manutenção de uma comunicação clara e contínua com a equipe médica, relatando qualquer sinal de alerta, como febre, dor desproporcional, inchaço assimétrico ou falta de ar.
A história de Margareth Serrão serve menos como um modelo a ser copiado e mais como um ponto de partida para uma conversa necessária. Ela simboliza a autonomia da mulher madura sobre seu corpo e sua busca por bem-estar, mas também ilustra que esse caminho só é viável quando pavimentado por ciência, cautela e profissionalismo. A cirurgia plástica após os 60 anos não é um tabu, mas uma possibilidade médica real. Sua segurança, no entanto, não é uma garantia automática; é uma construção cuidadosa, tijolo por tijolo, desde a primeira consulta até a última revisão. O foco deve permanecer inabalável: a saúde e o bem-estar integral do paciente, em que o resultado estético é uma consequência de um processo seguro, e nunca o seu único objetivo.

