A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS deu um passo crucial em sua investigação sobre as fragilidades do sistema previdenciário ao ouvir, nesta segunda-feira, o presidente da Dataprev, Rodrigo Ortiz D’Avila Assumpção. A empresa pública de tecnologia, responsável pelo processamento de dados da Previdência Social, está no centro das apurações sobre instabilidades crônicas e vulnerabilidades de segurança que afetam milhões de brasileiros.
Requerimentos apontam falhas operacionais e risco de fraudes
A convocação de Assumpção foi aprovada com base em dois requerimentos apresentados em agosto do ano passado. O primeiro, de autoria do senador Marcos Rogério (PL-RO), destacou o papel estratégico da Dataprev e alertou para graves problemas de segurança cibernética. O documento cita o vazamento de mais de 400 senhas internas, fato identificado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e reconhecido pela própria estatal, que “expôs dados sensíveis e ampliou significativamente o risco de acessos indevidos a benefícios”. A instabilidade da plataforma Meu INSS, com impactos diretos no atendimento, também foi citada como motivo de preocupação.
Manutenção de sistemas antigos facilitou ação de fraudadores
O segundo requerimento, apresentado pelo presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), trouxe à tona detalhes técnicos preocupantes. Um dos pontos levantados é a decisão de manter sistemas considerados mais antigos e vulneráveis para o cadastro de descontos associativos, mesmo após a disponibilização de soluções tecnológicas mais modernas. Segundo o senador, essa escolha “facilitou a atuação de fraudadores”, criando uma brecha explorada em esquemas ilegais.
Dados mostram mais de dois meses de paralisação dos sistemas
O documento obtido via Lei de Acesso à Informação revela a dimensão das falhas operacionais. Entre agosto de 2023 e dezembro de 2024, os sistemas do INSS ficaram fora do ar por 1.466 horas, o que equivale a mais de 61 dias completos de paralisação. Em um episódio emblemático da falta de controle, erros técnicos levaram à emissão automática de laudos periciais com textos genéricos e sem sentido, como a expressão “blá-blá-blá”, colocando em xeque a confiabilidade de processos cruciais para a concessão de benefícios.
Ausência de ex-namorada de Vorcaro pode levar a condução coercitiva
Em outro frente dos trabalhos da comissão, a modelo e influenciadora Martha Graeff, ex-namorada do banqueiro Daniel Vorcaro, não compareceu para prestar depoimento. A testemunha, que atualmente reside em Miami, nos Estados Unidos, não foi localizada para a convocação. Diante da ausência, a cúpula da CPMI avalia adotar medidas mais duras, incluindo a possibilidade de pedir sua condução coercitiva. A convocação foi aprovada a pedido do deputado Kim Kataguiri (União-SP), que defendeu a importância do depoimento para esclarecer possíveis conexões entre Vorcaro e autoridades públicas.
Investigadores buscam respostas sobre governança e segurança
O depoimento do presidente da Dataprev foi considerado fundamental para avançar na compreensão das fragilidades estruturais que permeiam o sistema. Os parlamentares buscam esclarecer como falhas de governança e decisões técnicas contribuíram para criar um ambiente propício a irregularidades. A expectativa é que as respostas ajudem a traçar um diagnóstico claro dos problemas, indo além dos sintomas de instabilidade para identificar as causas profundas das vulnerabilidades.
Os dados apresentados à comissão pintam um quadro de negligência técnica com consequências sociais diretas. A paralisação recorrente dos sistemas não é apenas uma estatística operacional; representa a interrupção do acesso a serviços essenciais para idosos, pessoas com deficiência e famílias em situação de vulnerabilidade. A investigação agora tem o desafio de converter as evidências de falhas sistêmicas em propostas concretas que garantam a segurança, a estabilidade e a confiança no sistema previdenciário, um pilar fundamental da proteção social no país.

