Crise de DRAM força Acer, Asus e HP a adotar chips da CXMT

Fabricantes de PCs recorrem à chinesa CXMT em meio à escassez de DRAM e ao oligopólio das gigantes sul-coreanas e americanas.

A crise de DRAM força Acer, Asus e HP a adotar chips da CXMT, fabricante chinesa que desafia o oligopólio.
Destaques
  • Acer, Asus e HP recorrem à CXMT para contornar a escassez de DRAM.
  • A CXMT realizou sua IPO em julho de 2026 com alta de 466% no mercado.
  • Samsung, SK Hynix e Micron formam um oligopólio que controla mais de 90% do mercado de DRAM.

A crise de memórias DRAM e NAND, longe de ser um fenômeno passageiro, se consolidou como um dos maiores gargalos da indústria de tecnologia. Enquanto Micron, SK Hynix e Samsung — o trio que controla mais de 90% do mercado — direcionam sua produção para alimentar o voraz ecossistema de inteligência artificial, fabricantes de PCs, notebooks e dispositivos de consumo enfrentam preços estratosféricos e oferta escassa. A situação se tornou tão insustentável que montadores de desktops chegaram a vender configurações sem RAM, deixando o consumidor por conta própria. Agora, para não repetir o absurdo em laptops — onde as memórias são frequentemente soldadas à placa-mãe —, Acer, Asus e HP estão recorrendo a uma alternativa inesperada: a chinesa CXMT (ChangXin Memory Technologies), uma fabricante de DRAM que, apesar de restrições do governo dos Estados Unidos, começa a ganhar espaço no mercado. A decisão, porém, já gerou forte reação em Washington.

O oligopólio da memória e o preço da escassez artificial

O controle exercido pelas três gigantes de semicondutores não é segredo. Em junho de 2026, uma ação coletiva na Corte Distrital do Norte da Califórnia acusou Samsung, SK Hynix e Micron de operarem um cartel — cortando intencionalmente a produção e combinando preços, o que resultou em um aumento de 700% desde 2023. Vale lembrar que Samsung e SK Hynix já se declararam culpadas em processo semelhante entre 2005 e 2006. O movimento é claro: ao perceberem que a demanda por IA explodiria, as três empresas decidiram priorizar esse segmento, deixando o restante do mercado — PCs, smartphones, consoles, automóveis e infraestrutura — disputando as sobras a preços insanos.

Para fabricantes de notebooks, a situação é ainda mais crítica. Diferentemente de desktops, onde o usuário pode comprar memória separadamente, muitos laptops modernos trazem RAM soldada, impossibilitando upgrades futuros. É nesse contexto que Acer, Asus e HP começaram a buscar alternativas fora do cartel tradicional.

A ascensão da CXMT e o dilema geopolítico

A CXMT, sediada em Hefei, China, tornou-se a empresa mais valiosa do país após sua IPO em julho de 2026 — um aumento de 466% em valor de mercado. A companhia fabrica DRAM e já iniciou a produção de chips LPDDR6 com velocidade teórica de transferência de 12,8 Gb/s, superando o limite de 10,7 Gb/s estabelecido pelo consórcio JEDEC. Esse avanço técnico posiciona a CXMT como uma concorrente real, capaz de atender à demanda que o trio ignora.

No entanto, a empresa foi incluída na “lista negra” do Departamento de Comércio dos EUA em 2024, e, embora tenha sido removida em janeiro de 2026, o retorno de Donald Trump à Casa Branca reacendeu as restrições. O Pentágono reclassificou a CXMT — junto com a YMTC (fabricante de NAND) — como “companhia militar chinesa”, vinculada ao Exército de Libertação Popular. A medida também atingiu gigantes como Tencent, DJI e TP-Link.

Do ponto de vista técnico, nada impede que empresas adquiram componentes da CXMT. E, de fato, Acer, Asus e HP já estariam fazendo isso, mas, segundo fontes, os laptops com memórias da fabricante chinesa estariam sendo comercializados apenas dentro da China, para evitar sanções. A Apple também tentou negociar com o governo Trump uma autorização para compras em volume, mas sofreu represálias de ambos os partidos. O senador Chuck Schumer (DEM/Nova York) exigiu publicamente que a Apple rompesse laços com a CXMT, acusando a empresa de “se aliar ao Partido Comunista da China”. O representante John Moolenaar (GOP/Michigan) foi ainda mais duro: “Ajudar o Partido Comunista da China em seus planos de dominar uma cadeia crítica de suprimento tornará nossa indústria de tecnologia e nossa economia mais dependentes da China, quando nós devemos assegurá-la entre nossos aliados.”

O que é a CXMT e por que ela é relevante para o mercado brasileiro?

A ChangXin Memory Technologies (CXMT) é uma fabricante chinesa de DRAM que surgiu como alternativa ao oligopólio de Micron, SK Hynix e Samsung. Para o consumidor brasileiro, a relevância é indireta, mas significativa: se a CXMT conseguir furar o bloqueio político e comercial, a pressão sobre os preços das memórias pode diminuir. Atualmente, um pente de RAM que custava R$ 200 em 2023 pode chegar a R$ 1.500 ou mais no varejo nacional, reflexo direto da escassez artificial. A adoção por Acer, Asus e HP, mesmo que restrita à China, sinaliza que há capacidade técnica e vontade de quebrar o monopólio — mas o caminho é tortuoso.

Lisuan Tech: outro exemplo de resistência chinesa

Não só de memória vive a alternativa chinesa. A Lisuan Tech, sediada em Xangai, desenvolveu a arquitetura TrueGPU, baseada em 6 nm, sem usar designs da Nvidia ou AMD. A placa LX 7G100, lançada em maio de 2026, compete com a RTX 3060 de 12 GB e custa ¥ 2.688 (cerca de R$ 2.042). O estoque inicial de 30 mil unidades evaporou rapidamente, mostrando que há demanda local mesmo para hardware limitado. Embora ainda não represente ameaça real a Nvidia e AMD, o exemplo mostra que a pressão sobre os fornecedores tradicionais pode vir de várias frentes.

O futuro: cartel de quatro ou alívio para o consumidor?

Mesmo que a CXMT consiga negociar uma saída política e passe a vender livremente para ocidentais, não há garantia de que os preços cairão. O risco de o novo player simplesmente aderir às mesmas práticas de precificação do trio é real — o que transformaria o cartel de três em quatro membros. Para o consumidor brasileiro, a curto prazo, a tendência é de manutenção dos preços elevados. A médio prazo, a pressão de montadoras e fabricantes pode forçar uma reavaliação das sanções, especialmente se a escassez continuar prejudicando setores estratégicos fora da IA. Enquanto isso, resta acompanhar de perto as movimentações de Acer, Asus e HP — e torcer para que a concorrência, ainda que geopolíticamente complicada, traga algum alívio ao bolso.

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