O encarecimento brutal dos componentes eletrônicos não é novidade para quem acompanha o mercado de hardware, mas seus efeitos de longo prazo começam a desenhar um cenário preocupante para o futuro dos consoles. A crise de custos, especialmente em memória RAM e armazenamento, já não é mais um problema conjuntural: ela se transformou em um fator estrutural que pode remodelar toda a indústria de games nos próximos anos. Previsões recentes indicam que o mercado pode perder de 25 a 30 milhões de unidades em vendas até 2030, um rombo que compromete a base instalada e ameaça a capacidade dos consoles de atrair novas gerações de jogadores.
Previsão de vendas aponta queda drástica para 2026
Os números mais recentes projetam uma retração significativa no mercado de consoles. As estimativas apontam para vendas totais de aproximadamente 27 milhões de unidades em 2026, bem abaixo do pico de mais de 45 milhões registrado no início da década. A recuperação, segundo os modelos, deve ser lenta: mesmo ao final de 2030, o volume anual deve ficar aquém da marca de 40 milhões de unidades. Esse recuo não é acidental — ele reflete diretamente o aumento dos custos de produção e a dificuldade de manter preços competitivos para o consumidor final.
O oligopólio da RAM e o custo dos componentes
Um dos fatores centrais por trás dessa escalada de preços é a concentração da produção de memória RAM em apenas três empresas. Esses fabricantes, que hoje desfrutam de poder de precificação sem precedentes, têm forte incentivo para prolongar o período de margens elevadas. Isso torna a previsão de queda nos custos para a próxima geração — estimada em um lançamento na faixa de US$ 600 a US$ 800 por volta de 2028 — um cenário otimista, e não o mais provável. Enquanto essa situação persistir, o custo de produção de consoles continuará pressionado, dificultando estratégias de preço agressivas por parte de Sony e Microsoft.
25 milhões de consoles a menos: o buraco na base instalada
O efeito cumulativo dessa crise é claro: entre 2026 e 2030, o mercado perderá algo entre 25 e 30 milhões de unidades que, em condições normais, estariam na base instalada. Esse déficit não representa apenas vendas perdidas no curto prazo. São consumidores que optaram por manter hardware antigo, migraram para outras plataformas ou simplesmente nunca entraram no ecossistema dos consoles. Esse vazio na audiência endereçável terá consequências que se estenderão por anos, afetando o desenvolvimento de jogos, a viabilidade de projetos AAA e a própria saúde do mercado secundário.
O mercado de consoles encolheu apesar do sucesso comercial
Há um dado que desafia o discurso de que os consoles vivem uma era de ouro: a base instalada cresceu muito pouco, quando cresceu, desde o início dos anos 2000. O PlayStation 2, lançado há mais de 25 anos, segue como o console mais vendido da história, com cerca de 160 milhões de unidades. Na mesma época, o Nintendo DS vendeu mais de 150 milhões e o PSP ficou na casa dos 80 milhões. Compare com o cenário atual: Nintendo Switch com cerca de 155 milhões, PS5 ultrapassando 93 milhões e Xbox Series em algo abaixo de 30 milhões. Em termos absolutos, o total de unidades vendidas entre plataformas fixas e portáteis está no mesmo patamar ou ligeiramente abaixo do registrado duas décadas atrás.
Isso não diminui o sucesso comercial desses consoles. O que revela é que o crescimento veio basicamente da monetização mais agressiva da mesma base de usuários, e não da expansão do público. O último grande movimento para ampliar o alcance demográfico foi a era Wii, quando a indústria atraiu mulheres, idosos e consumidores não tradicionais com jogos de dança, exercícios e títulos casuais. Na época, a Nintendo conseguiu fazer com que quase metade dos donos do Wii fossem mulheres, muitas com mais de 35 anos — um segmento que nunca havia sido alcançado em escala semelhante. Mas o efeito não se sustentou, e desde então não houve nova expansão significativa.
A geração perdida: jovens migram para dispositivos móveis
O problema demográfico se agrava quando se olha para a ponta jovem do mercado. Dados de estudos de consumo de mídia entre adolescentes mostram que o console é hoje um dispositivo minoritário entre os jovens, com participação em declínio ano após ano. No Japão, país que costuma servir como indicador precoce de tendências, o engajamento em jogos entre menores de 30 anos cai de forma constante, enquanto o público acima dos 50 anos é o único que apresenta crescimento relevante. Esse padrão tende a se repetir em outros mercados, com o console perdendo terreno para smartphones e tablets na disputa pela atenção das novas gerações.
Isso coloca a próxima geração de consoles em uma posição de tudo ou nada. Se os próximos lançamentos — seja o PS6, o sucessor do Xbox Series ou o Switch 2 — não conseguirem engajar os jovens que hoje crescem com telas touch, a base de usuários continuará envelhecendo sem reposição. Um ciclo vicioso se instala: menos jovens significa menos jogos que dialoguem com essa faixa etária, o que afasta ainda mais os potenciais novos consumidores.
O que esperar do mercado brasileiro
No Brasil, o cenário é ainda mais sensível. A combinação de câmbio desfavorável, impostos elevados e custo logístico faz com que qualquer aumento no preço global dos consoles se traduza em reajustes ainda mais agressivos nas prateleiras nacionais. Com um PS5 já custando mais de R$ 4.000 na maioria dos varejistas, uma nova geração na faixa dos US$ 700 a US$ 800 facilmente ultrapassaria a barreira dos R$ 6.000, tornando-se inacessível para grande parte dos consumidores. O resultado prático é que muitos jogadores brasileiros podem simplesmente pular a próxima geração ou migrar de vez para o PC, onde a relação custo-benefício é mais flexível e há um mercado de componentes paralelo.
O futuro do console depende da próxima geração
O que está em jogo não é apenas o desempenho de vendas de um ou outro fabricante, mas a própria relevância do console como plataforma dominante de jogos. Se os preços continuarem subindo e a base de usuários continuar encolhendo, o mercado pode atingir um ponto de inflexão do qual não conseguirá se recuperar. Os profetas do fim dos consoles que surgiram com a chegada dos smartphones podem, afinal, estar certos — ainda que tenham errado o prazo em algumas décadas. O que a crise de componentes faz agora é acelerar esse processo, transformando uma ameaça latente em um risco imediato. A indústria tem pouco tempo para provar que ainda consegue oferecer hardware acessível e relevante para o jogador do futuro. Caso contrário, a próxima geração pode ser a última.
