Demanda de IA por memórias acaba com celulares baratos

A febre da Inteligência Artificial eleva o custo de componentes e ameaça extinguir os smartphones acessíveis do mercado.

Destaques
  • O custo das memórias agora representa cerca de 60% do preço final de um smartphone de entrada.
  • SK Hynix, Samsung e Micron são acusadas de atuarem como um cartel no mercado de DRAM.
  • Até 2026, a IA pode consumir metade de todos os chips de memória produzidos globalmente.

A febre da Inteligência Artificial não está apenas transformando a forma como interagimos com a tecnologia, mas também redefinindo as regras do mercado de componentes eletrônicos. A demanda insaciável por memórias DRAM e NAND, alimentada por data centers e clusters de treinamento de modelos de IA, já não afeta preços e disponibilidade, mas ameaça extinguir uma categoria inteira de produtos: os smartphones de entrada. Com o custo dos chips disparando, fabricantes como Samsung, Motorola e até a Apple enfrentam uma equação cruel que pode tornar inviável a produção de celulares acessíveis, aqueles na faixa dos US$ 220, um preço que para o consumidor brasileiro se traduz em algo próximo a R$ 2,2 mil no varejo.

A crise silenciosa das memórias: demanda de IA como gatilho de um mercado distorcido

O problema não é novo, mas se agravou a ponto de afetar até mesmo a Apple, que enfrentou dificuldades para assegurar componentes para seus próximos iPhones, reflexo que inevitavelmente será sentido nos preços finais. SK Hynix, Samsung e Micron, que juntas controlam cerca de 90% do mercado global de DRAM, são acusadas em uma ação coletiva nos EUA de atuarem como um cartel, coordenando cortes na produção que resultaram em um aumento de 700% nos preços dos componentes nos últimos quatro anos. Esse trio já foi alvo de processos semelhantes no passado, com Samsung e SK Hynix pagando multas milionárias entre 2005 e 2006, e outro caso sendo rejeitado em 2018 por falta de provas.

Mas a questão vai além da simples ganância corporativa. As fornecedoras simplesmente observaram para onde o mercado estava migrando e se anteciparam: atender Nvidia, OpenAI, Google, Meta e Microsoft é infinitamente mais lucrativo do que vender para fabricantes de celulares de baixo custo. A estimativa é que, até o fim de 2026, o mercado de IA consumirá metade de todos os chips de memória produzidos no mundo. Isso significa que empresas fora desse seleto grupo precisam não apenas pagar valores exorbitantes, mas também lutar para garantir qualquer volume de suprimento, que já não é mais uma prioridade para os grandes fabricantes de memória.

Por que os celulares de entrada estão ameaçados?

O impacto dessa distorção no mercado mobile é brutal. Os custos para fabricar um smartphone, especialmente os de entrada, se tornaram proibitivos. O relatório do site chinês MyDrivers é direto: com as memórias respondendo por cerca de 60% do preço final de um gadget, fabricantes se veem diante de um beco sem saída. Subir o preço de um celular barato para compensar o aumento dos componentes o torna inacessível para o público-alvo. Lançar versões ainda mais capadas, com 4G, 64 GB de armazenamento e 4 GB de RAM, também não é viável, pois o aparelho se torna irrelevante diante das mínimas expectativas do mercado atual.

A única saída, segundo o relatório, é abolir por completo as linhas mais básicas. Empresas não são ONGs e não podem operar com margens negativas ou próximas de zero. O cenário desenhado é de que os smartphones, como os conhecemos, se converterão em produtos voltados quase exclusivamente ao público de maior poder aquisitivo. A lógica é cruel, mas simples: trabalhar para um segmento que só traz prejuízo não faz sentido do ponto de vista de negócios, e a antiga máxima de que “mercado popular sustenta volume” perde força quando o volume se torna economicamente inviável.

Sanções dos EUA e a alternativa chinesa: um caminho estreito

Uma das possíveis saídas para aliviar a crise seria contar com fornecedoras de memória chinesas, como a CXMT e a YMTC. A Apple, por exemplo, já avalia acordos com essas empresas para minimizar riscos de desabastecimento e ajustar a cadeia de suprimentos. No entanto, as sanções impostas pelo governo dos EUA durante a gestão Trump praticamente proíbem essas companhias de negociar fora da China, o que as torna uma opção limitada para o mercado global. Por enquanto, a Casa Branca não mostra a menor intenção de remover as sanções, o que manteria o domínio do trio SK Hynix, Samsung e Micron.

Mesmo que as sanções fossem suspensas, não há garantia de que as fabricantes chinesas iriam priorizar o mercado de smartphones de entrada. Elas também estariam sujeitas à mesma lógica de mercado: vender memórias para data centers de IA é um negócio muito mais lucrativo. A crise, portanto, não é apenas uma questão de oferta e demanda, mas de reordenamento de prioridades de uma indústria inteira, que agora vê a IA como o cliente mais importante e mais bem pago.

O que esperar do mercado nos próximos meses

Para o consumidor brasileiro, o cenário é de encolhimento de opções e aumento generalizado de preços. Smartphones intermediários e de entrada, como o Galaxy A17 5G ou o Moto Edge 50 Neo, podem se tornar artigos raros ou simplesmente desaparecer das prateleiras. As fabricantes devem concentrar seus esforços em linhas premium e ultra premium, onde o repasse de custos é mais aceito pelo consumidor disposto a pagar caro por inovação e status. Dispositivos como o Galaxy Z Fold 8 e Z Fold 8 Ultra já têm preços previstos sensivelmente mais altos, e essa tendência só deve se consolidar.

A demanda de IA por memórias não é apenas um fenômeno tecnológico, mas um divisor de águas econômico. O custo dos componentes que antes viabilizava a democratização do acesso à tecnologia agora ameaça criar uma nova camada de exclusão digital, onde ter um smartphone minimamente funcional se torna um privilégio. O mercado se adapta, mas o preço dessa adaptação será pago, mais uma vez, pelo consumidor final.

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