Dublador de Final Fantasy e Expedição 33 pede novidade na indústria dos games

A indústria dos jogos vive um momento crucial de definição de seu futuro criativo. Enquanto fãs e desenvolvedores se acostumaram com uma enxurrada de sequências, remakes e remasters, uma voz proeminente surge para questionar essa tendência. Ben Starr, o talento vocal por trás de Clive Rosfield em Final Fantasy XVI e de Verso em Clair Obscur: Expedition 33, fez um apelo direto e contundente durante o Emerald City Comic-Con: é hora de a indústria parar de olhar para trás e começar a criar novas franquias do zero. Em um mercado onde orçamentos de centenas de milhões de dólares tornam cada lançamento um risco calculado, a defesa de Starr por novas propriedades intelectuais (IPs) não é apenas um desejo artístico, mas um debate essencial sobre inovação, sustentabilidade e a própria alma dos videogames.

O Apelo de Ben Starr: Inovação vs. Nostalgia

Na discussão da painel da Comic-Con, Starr expressou seu amor por franquias clássicas, como Legacy of Kain, e mencionou seu interesse em participar de um possível retorno da série. No entanto, ele rapidamente direcionou a conversa para o cerne da questão. Sua fala, “Devemos estar construindo novas IPs, não sempre olhando para o passado”, encapsula um sentimento crescente entre profissionais criativos e uma parcela do público. Para Starr, a magia de dar vida a um personagem como Clive ou Verso está intrinsecamente ligada à novidade, à oportunidade de criar algo que ainda não tem história, fãs ou expectativas pré-concebidas. Ele deseja originar novos personagens que os jogadores possam amar, em vez de apenas reinterpretar ícones já estabelecidos.

O Contexto Atual da Indústria: Por Que o Risco é Raro

A observação de Starr toca em uma realidade econômica inegável. O custo para desenvolver um grande título AAA (triple-A) atingiu patamares estratosféricos, frequentemente superando a marca de 300 milhões de dólares. Com investimentos dessa magnitude, as editoras e estúdios naturalmente adotam uma postura conservadora. A estratégia de “jogar pelo seguro” envolve:

  • Sequências Garantidas: Continuar uma franquia já bem-sucedida reduz drasticamente o risco de marketing, pois já existe uma base de fãs cativa.
  • Remakes e Remasters: Revitalizar um título amado do passado é um projeto com apelo emocional garantido e custos de desenvolvimento (e risco criativo) geralmente menores do que uma ideia totalmente nova.
  • IPs Estabelecidas Fora dos Games: Adaptar filmes, séries ou quadrinhos populares oferece um reconhecimento de marca imediato.

Essa abordagem, embora compreensível do ponto de vista financeiro, cria um ciclo onde a inovação de conceito e mundo fica em segundo plano. O sucesso de um jogo novo como Clair Obscur: Expedition 33, que arrecadou milhões e conquistou os jogadores, serve como prova de que o apetite por histórias originais ainda existe, mas os casos de sucesso em larga escala se tornaram menos frequentes.

O Caminho da Inovação: Entre os AAA e os Indies

O dilema apresentado por Ben Starr não é sem solução. A indústria tem encontrado respostas em diferentes escalas de produção, criando um ecossistema mais diversificado do que nunca.

O Papel dos Estúdios Independentes (Indies)

O cenário independente se tornou o principal laboratório de inovação da indústria. Com orçamentos menores, equipes enxutas e prazos mais flexíveis, estúdios indies podem se arriscar em mecânicas, narrativas e temas que uma grande produtora não ousaria. Títulos como Hades (Supergiant Games), Stray (BlueTwelve Studio) e a própria Expedition 33 (Sandfall Interactive) demonstram que jogos com orçamento “apenas” de 10 a 20 milhões podem alcançar excelência crítica e comercial, criando IPs valiosíssimas do zero. Eles são a prova viva de que a criatividade, e não apenas o orçamento, é o motor da inovação.

O Movimento “AA” e as Novas IPs de Grandes Estúdios

Entre os gigantes AAA e os pequenos indies, surge uma categoria promissora: os jogos “AA” ou de orçamento médio. Algumas editoras estão reinvestindo nesse espaço, permitindo que equipes internas ou subsidiárias desenvolvam projetos mais arrojados com custos controlados. A Square Enix, por exemplo, além de Final Fantasy, tem lançado novos IPs como Forspoken (através da Luminous Productions) e investido em propriedades frescas. Este modelo pode ser a ponte ideal, permitindo que vozes como a de Ben Starr encontrem espaço em projetos com ambição comercial, mas sem a pressão insustentável de um blockbuster de 500 milhões.

Impactos no Mercado e na Experiência do Jogador

A predominância de sequências e remasters não é um fenômeno sem consequências. Ela molda as expectativas dos jogadores e a saúde criativa da indústria a longo prazo.

Fadiga de Franquia e a Busca por Surpresas

Embora fãs sempre aguardem ansiosamente por novos capítulos de suas séries favoritas, uma overdose de continuidades pode levar à fadiga. Quando cada grande lançamento anual é uma sequência ou remake, o elemento da descoberta completa — de explorar um mundo, lore e conjunto de personagens totalmente desconhecidos — se torna um luxo raro. A paixão que jogadores demonstraram por Expedition 33 ou por um título completamente novo como Hi-Fi Rush (da Tango Gameworks) mostra que a surpresa e a novidade são combustíveis poderosos para o entusiasmo da comunidade.

Diversificação de Gêneros e Públicos

Novas IPs são o vetor principal para a expansão de gêneros e a conquista de novos públicos. Enquanto franquias estabelecidas tendem a refinar uma fórmula, uma nova propriedade pode fundir gêneros, experimentar com narrativas não-lineares ou abordar temas nunca antes explorados no meio. Elas são essenciais para atrair jogadores que não se identificam com os tropos tradicionais das grandes séries, mantendo o ecossistema dos games dinâmico e inclusivo.

Oportunidades e Desafios para o Futuro

O apelo de Ben Starr abre uma discussão prática sobre como equilibrar o legado com a inovação. Algumas estratégias podem guiar a indústria nos próximos anos.

Estratégias para Estúdios Arriscarem em Novas IPs

Para que novas propriedades intelectuais floresçam, as editoras podem adotar modelos mais inteligentes de investimento:

  1. Incubadoras Internas: Criar divisões ou programas que funcionem como “startups” dentro da grande empresa, com autonomia criativa e orçamentos reservados para conceitos novos.
  2. Parcerias com Indies de Alto Impacto: Em vez de apenas publicar, grandes editoras podem adquirir ou estabelecer parcerias profundas com estúdios indies que já provaram seu valor, fornecendo recursos para que amplifiquem sua visão sem perder a identidade.
  3. Lançamento por Capítulos ou Early Access: Para mundos narrativos complexos, lançar o jogo em partes ou em acesso antecipado permite financiamento contínuo, feedback da comunidade e ajustes antes do grande lançamento final, mitigando o risco.

O Papel da Comunidade e da Mídia

A demanda do público é um fator determinante. Quando jogadores apoiam massivamente e discutem novos IPs como Expedition 33, eles enviam um sinal claro ao mercado. Da mesma forma, a cobertura da mídia especializada, focando em destacar e analisar títulos originais, é vital para dar visibilidade a esses projetos. A pressão por inovação deve ser um diálogo constante entre criadores, consumidores e críticos.

Legacy of Kain e o Futuro: Um Exemplo da Tensão

A própria menção de Starr a Legacy of Kain ilustra a complexidade do debate. É uma franquia adorada, com forte apelo nostálgico e potencial narrativo inexplorado. Um remake ou sequência seria recebido com júbilo por muitos. No entanto, o desejo do dublador vai além: ele quer estar tanto em um renascimento de Kain quanto em novas criações como Sandfall. O ideal, portanto, não é um abandono total do passado, mas um balanço saudável onde o novo tem espaço igual — ou até prioritário — para nascer e crescer.

A reflexão proposta por Ben Starr vai muito além de um simples desejo profissional. Ela coloca um holofote em uma encruzilhada existencial para a indústria dos games. Continuar no caminho seguro das franquias estabelecidas garante rentabilidade no curto prazo, mas pode esgotar a diversidade criativa que fez dos videogames uma forma de arte única. A defesa por novas IPs, simbolizada pelo sucesso de jogos como Clair Obscur: Expedition 33, é um investimento no futuro imaginativo do meio. Cabe às editoras encontrarem modelos corajosos de financiamento, aos criadores continuarem a propor mundos desconhecidos e, finalmente, aos jogadores valorizarem e apoiarem essas novas aventuras. Só assim a indústria poderá honrar seu passado glorioso sem deixar de construir, constantemente, o próximo legado.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.