A Epic Games, criadora do fenômeno Fortnite, anunciou nesta terça-feira uma nova e massiva rodada de demissões, afetando mais de 1.000 funcionários. A medida drástica chega em um momento de turbulência financeira para a empresa, que citou uma “queda no engajamento do Fortnite” iniciada em 2025, custos operacionais elevados e o pesado investimento na batalha judicial para retornar o jogo aos dispositivos móveis. Em uma mensagem interna, o CEO Tim Sweeney admitiu que a empresa está “gastando significativamente mais do que está ganhando”.
Corte de 1.000 vagas e economia de meio bilhão de dólares
Além das demissões, que representam cerca de 16% da força de trabalho da empresa, a Epic implementará um plano de cortes de custos que visa economizar mais de 500 milhões de dólares em áreas como contratações terceirizadas e marketing. A companhia também congelará a abertura de novas vagas. Sweeney justificou as decisões citando uma conjuntura econômica global desfavorável, a redução no gasto dos jogadores com consoles e títulos novos, e a intensa competição por atenção do público, que divide seu tempo entre jogos, redes sociais e outras formas de entretenimento digital. Funcionários demitidos receberão ao menos quatro meses de salário base, cobertura estendida de plano de saúde e aceleração no recebimento de ações.
Fortnite ainda é relevante, mas a magia não é mais constante
Apesar de reconhecer o declínio no pico de popularidade do Fortnite, Sweeney destacou que o battle royale continua sendo um dos jogos mais bem-sucedidos do mundo. Dados apresentados na GDC deste ano mostraram que, entre os 67% dos jogadores de PC que preferem títulos com mais de seis anos, 5,4% dedicam seu tempo ao Fortnite. O desafio, segundo o CEO, não é a irrelevância, mas a dificuldade em “entregar a magia constante do Fortnite a cada temporada”. A empresa agora terá a complexa missão de desenvolver conteúdo sazonal, eventos ao vivo e narrativas envolventes para reacender o interesse dos fãs, porém com uma equipe drasticamente reduzida.
Batalha por dispositivos móveis custou caro em jogadores e dinheiro
Um dos fatores centrais para a crise financeira apontada por Sweeney foi a longa guerra judicial contra a Apple e a Google, iniciada em 2020 quando a Epic tentou burlar as taxas das lojas de aplicativos. O jogo foi removido das plataformas móveis, resultando na perda de acesso a uma base de 116 milhões de jogadores apenas no iOS, onde mais de 20% da base total jogava exclusivamente. O retorno à Google Play Store ocorreu apenas na semana passada, após acordos que incluíram a obrigação de Sweeney parar de criticar publicamente a gigante das buscas. A batalha consumiu recursos financeiros enormes em custos legais e, agora, a Epic precisa reconstruir sua presença no mobile, um mercado de bilhões de smartphones, com menos capital humano.
Fim do suporte para Rocket Racing e outros modos do jogo
Como parte da reestruturação, a Epic Games confirmou que encerrará o suporte a vários modos de jogo dentro do ecossistema do Fortnite ao longo do próximo ano. Os modos afetados são Rocket Racing, Ballistic e o Festival Battle Stage. A decisão reflete a necessidade de concentrar esforços e recursos nos modos centrais e mais populares do título, eliminando projetos que não atingiram a tração esperada ou demandam manutenção significativa. É mais uma evidência da estratégia de enxugamento e foco adotada pela empresa diante da pressão financeira.
CEO nega relação das demissões com investimento em inteligência artificial
Em um trecho peculiar de sua mensagem, Tim Sweeney, conhecido por seu entusiasmo público com a IA, sentiu a necessidade de declarar: “Já que isso virou um tema, devo notar que as demissões não estão relacionadas à IA”. A Epic tem sido uma das empresas mais agressivas na integração de ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento de jogos, e Sweeney já afirmou que a IA estará envolvida em “quase toda a produção futura”. No entanto, a indústria vive um momento de tensão, com muitos desenvolvedores temendo que a tecnologia seja usada como justificativa para substituição de mão de obra. O Fortnite itself já enfrentou críticas por suspeita de uso de IA para gerar conteúdo e, em um caso notório em maio de 2025, por um Darth Vader com voz de IA que começou a proferir discurso de ódio.
Aumento no preço dos V-bucks antecedeu onda de demissões
As demissões ocorrem menos de duas semanas após a Epic anunciar um aumento nos preços da moeda virtual do jogo, os V-bucks, em todas as plataformas. Na época, a justificativa foi a de “ajudar a pagar as contas”. A sequência de eventos—aumento de preço seguido de cortes massivos de pessoal—pinta um quadro claro das dificuldades operacionais da empresa. O movimento contrasta com investimentos recentes, como a injeção de 1,5 bilhão de dólares da Disney em 2024 para integrar seus personagens no universo da Epic, e com o anúncio de que o modo Save The World se tornará gratuito a partir de 16 de abril.
Metaverso e futuro “aberto” seguem como metas indefinidas
Em 2023, quando demitiu mais de 800 pessoas, Sweeney encerrou seu comunicado falando sobre a meta de se tornar “uma empresa líder em metaverso”. Desta vez, a visão futura apresentada é mais vaga: “a jornada para construir um futuro do entretenimento cada vez mais aberto e vibrante, juntos”. A empresa promete um encontro nesta quinta-feira para discutir os próximos passos, que incluem “lançar a próxima geração da Epic com grandes planos no final do ano”. No entanto, com a máquina de fazer dinheiro do Fortnite desacelerada, a batalha móvel ainda em fase de recuperação e agora com mil profissionais a menos, fica a dúvida sobre qual será, de fato, o novo alicerce financeiro da companhia e como essas ambições abstratas serão concretizadas.
A trajetória recente da Epic Games serve como um alerta para toda a indústria de jogos, que enfrenta uma combinação de saturação de mercado, custos de desenvolvimento inflados e mudanças nos hábitos dos consumidores. A dependência de um único título de sucesso, mesmo que colossal como Fortnite, mostrou seus limites. A próxima jogada da Epic, seja no metaverso, em novas parcerias ou em uma reinvenção do próprio battle royale, será observada de perto, não apenas por investidores e fãs, mas por milhares de desenvolvedores que veem na empresa um espelho dos desafios e das incertezas que definem o momento atual.

