Um capítulo longo e árduo na vida do ator Stênio Garcia e de sua esposa, a atriz Marilene Saade, ganhou recentemente novos e preocupantes desdobramentos. Em entrevista exclusiva ao portal LeoDias, Mari, como é conhecida, revelou em detalhes a crise financeira que assola o casal desde 2013 e a trajetória de uma vitória judicial milionária que, até agora, permanece apenas no papel. O processo, movido contra a construtora SPE CHL XCII Incorporações por um prejuízo de R$ 159 mil em uma transação imobiliária considerada golpe, renderia ao casal mais de R$ 1,7 milhão. No entanto, a empresa, aparentemente sem recursos, frustra a execução da sentença, mergulhando Stênio e Mari em um cenário de incerteza. Este artigo explora a cronologia do caso, o impacto na vida do veterano ator exposto pela recente polêmica com as filhas e as complexas manobras legais que transformam uma conquista na Justiça em uma batalha sem fim para receber a indenização.
A Vitória na Justiça que Não Sai do Papel
A saga jurídica de Stênio Garcia e Marilene Saade tem início em 2019. O casal havia investido R$ 159 mil na compra de salas comerciais em um empreendimento da SPE CHL XCII Incorporações, empresa do grupo PDG Realty. As chaves, no entanto, nunca foram entregues. Diante do que classificam como um golpe, ingressaram com uma ação de indenização por danos materiais e morais. O desfecho pareceria feliz: após uma longa batalha, em 2025, a sentença foi definitiva, condenando a construtora a pagar ao casal uma soma superior a R$ 1,7 milhão, após percorrer todas as instâncias da Justiça em favor dos autores.
Contudo, o que se seguiu foi uma série de frustrações. A fase de execução da sentença, quando o dinheiro de fato deveria ser depositado nas contas do casal, esbarrou em um obstáculo aparentemente intransponível: a ausência de recursos financeiros da empresa para honrar a dívida. De acordo com Marilene, a Justiça já determinou tentativas de bloqueio e penhora de bens da construtora, mas todas foram frustradas até o momento. “Infelizmente não acharam dinheiro. Já foi penhorado duas vezes e não encontraram nada. Ou eles realmente não têm nada após a recuperação judicial ou eles, antes da recuperação judicial, mandaram dinheiro para o exterior. Não recebemos nem um real. Já estão tentando penhorar algo desde o ano retrasado e nada”, desabafou a atriz em entrevista.
O Labirinto Empresarial: Mudanças de Nome e Dificuldades de Rastreio
O caso ilustra uma prática comum e desoladora no âmbito da Justiça brasileira: a vitória moral que não se converte em reparação financeira, especialmente em disputas contra empresas em situação de recuperação judicial ou com estruturas societárias complexas. Marilene detalhou as dificuldades que sua advogada tem enfrentado para localizar ativos da empresa devedora. A situação é agravada por mudanças no grupo empresarial envolvido.
“A PDG Realty mudou de nome para XCII, mas a gente não consegue achar dinheiro nem na PDG CHL, que hoje é Realty, a gente não consegue achar dinheiro na XCII, e em nada ligado a eles, esse é o problema”, explicou. Ela sugere a possibilidade de que recursos tenham sido deslocados para fora do país antes da decretação da recuperação judicial, tornando o rastreamento e a penhora praticamente impossíveis dentro do território nacional. “Já teve três ou duas penhoras e não acharam nada. Na verdade, não sobrou pedra sobre pedra de dinheiro nenhum, né? Ou eles, antes da recuperação judicial, tiraram o dinheiro do país e aí a gente não vai ver esse dinheiro nunca. É, foi um golpe. Não fomos só nós, não. Tiveram muitas pessoas”, completou, destacando o caráter coletivo do problema.
A Esperança que se Mantém pelos Esforços da Advocacia
Apesar do cenário pessimista, Marilene ainda mantém um fio de esperança, creditando-o ao trabalho incansável da advogada responsável pelo caso. “A advogada tem esperança e está lutando muito”, afirmou. No entanto, ela não esconde o ceticismo: “Ganhamos, mas não vamos receber nunca. (…) Mas eles [a construtora] não têm dinheiro no Brasil”. Essa contradição entre a vitória legal e a derrota na prática financeira é o cerne da angústia vivida pelo casal.
A Crise Financeira e o Peso da Aposentadoria
A impossibilidade de acessar a indenização tem um impacto direto e profundo na vida de Stênio Garcia e Marilene Saade. A esposa do ator revelou que vivem uma crise financeira contínua desde 2013. Recentemente, o próprio Stênio, em suas redes sociais, expôs a situação de dificuldade, confessando depender de sua aposentadoria e da ajuda da família de Mari para se manter.
O valor da indenização, portanto, não seria apenas uma compensação por um prejuízo passado, mas um verdadeiro alívio para o presente e futuro do casal. “Esse dinheiro salvaria a gente sim, salvaria”, afirmou Marilene, de forma categórica. Ela avalia que o recurso permitiria uma estabilidade financeira há muito perdida, amenizando as dificuldades que se intensificaram nos últimos anos, inclusive durante a recente e pública disputa judicial envolvendo as filhas do ator, Maria e Bárbara Garcia, sobre questões patrimoniais.
Recuperação Judicial: Um Escudo para Devedores?
O caso de Stênio Garcia coloca em evidência um dos pontos mais críticos da Lei de Recuperação Judicial (Lei 11.101/2005): a proteção do devedor para reestruturar suas dívidas, que, na prática, muitas vezes impossibilita que credores vitoriosos em ações individuais recebam seus créditos. A empresa, ao entrar em recuperação, tem suas execuções suspensas, e os créditos são incluídos no plano aprovado pelos credores, geralmente com deságio e prazos longos.
Embora a recuperação judicial seja um instrumento importante para preservar empresas e empregos, situações como a relatada por Mari Saade mostram como o processo pode ser utilizado de forma a esvaziar o patrimônio da empresa antes da homologação, deixando credores, especialmente os menores, sem qualquer perspectiva de recebimento, mesmo com título judicial definitivo em mãos.
O Impacto na Vida Pessoal de um Ícone da Televisão
Stênio Garcia, com mais de 70 anos de carreira, é um dos nomes mais respeitados da dramaturgia brasileira, com participações marcantes em novelas da Rede Globo e de outras emissoras. Ver um artista de sua estatura e trajetória enfrentando dificuldades financeiras tão severas causa comoção e espanto público. A exposição de sua situação, feita por ele mesmo e complementada pelos relatos da esposa, humaniza a figura do ídolo e revela as vulnerabilidades que podem atingir a qualquer um, independentemente do sucesso profissional do passado.
A crise se tornou ainda mais visível no início de 2026, quando as filhas do ator ingressaram na Justiça pleiteando a interdição parcial do pai, alegando gastos excessivos e influência indevida de Marilene. Stênio, por sua vez, rebateu as acusações e usou as redes para expor sua dependência financeira, em um doloroso embate familiar amplificado pela mídia. Nesse contexto, a indenização milionária bloqueada representa não só dinheiro, mas a possibilidade de autonomia e tranquilidade para o casal encerrar esse capítulo de turbulência.
O que Diz a Legislação sobre a Execução da Sentença
No direito processual civil brasileiro, vencer uma ação é apenas a primeira etapa. A fase de cumprimento de sentença ou execução é onde a condenação se materializa. Se o devedor não paga voluntariamente, o credor pode promover a penhora de bens – móveis, imóveis, veículos, valores em conta bancária, entre outros. A penhora é o ato pelo qual o juiz apreende bens do devedor para garantir o pagamento da dívida.
O grande obstáculo, como no caso em questão, ocorre quando nenhum bem penhorável é localizado. A empresa pode ter seu patrimônio formalmente onerado, estar em situação de insolvência real ou, como suspeita Mari Saade, ter ocultado ativos. Em último caso, se esgotadas todas as tentativas de penhora infrutíferas, a execução pode ser suspensa, aguardando que o devedor adquira bens no futuro, mas sem garantia temporal para o recebimento. É um cenário que transforma a sentença favorável em um direito de cobrança ad infinitum, porém ineficaz no curto e médio prazo.
Perspectivas e o Futuro do Casal
A realidade atual para Stênio Garcia e Marilene Saade é de espera e incerteza. Enquanto a advocacia continua na busca por qualquer ativo da construtora que possa ser penhorado, o casal segue sua vida dependendo de uma renda fixa modesta. A história serve como um alerta para investidores e para a sociedade sobre os riscos do mercado imobiliário e as fragilidades do sistema judicial quando confrontado com estruturas empresariais que parecem se desvencilhar de suas obrigações.
A coragem de Marilene em detalhar publicamente o problema vai além da exposição de uma questão pessoal; ela joga luz sobre uma falha sistêmica que afeta milhares de credores no país. A vitória judicial, conquistada com anos de desgaste emocional e financeiro, tornou-se um amargo paradoxo: um direito reconhecido, mas inacessível. A trajetória do processo de Stênio Garcia ainda não terminou, e seu desfecho final permanece uma incógnita, carregada pela dúvida se a justiça, no sentido mais amplo da palavra, será finalmente feita.

