Depois de décadas esculpindo uma identidade sonora que desafia qualquer tentativa de rotulação, o rapper e produtor FBC, conhecido como “Padrim”, se prepara para um dos maiores desafios de sua carreira: levar sua Big Band para o palco do Lollapalooza Brasil. O artista mineiro, em entrevista exclusiva, revelou os detalhes do que promete ser muito mais do que um show de festival, tratando o evento como um campo de batalha onde técnica de elite e vivência de rua se fundem.
A filosofia do meio-campo e a tecnologia da música periférica
Para FBC, estar no line-up de um festival do porte do Lollapalooza não representa apenas mais uma apresentação, mas uma declaração de existência artística. O músico se autodenomina o “filósofo do meio”, operando na fresta entre o underground profundo e a exposição massiva da TV aberta. “O bom filósofo tem que estar no meio, entre a luz e a sombra”, reflete o artista, que pretende condensar duas décadas de estrada em aproximadamente uma hora de espetáculo.
O show contará com uma equipe que FBC descreve como “luxuosa”, incluindo metais, vocais de apoio e um técnico de som de elite que já trabalhou com Roberto Carlos. Esta estrutura serve como demonstração prática da tese defendida pelo artista: a música periférica representa, acima de tudo, uma alta tecnologia de som e espírito. A carreira do Padrim se configura como um exercício contínuo de paciência e transformação, onde cada erro e acerto funcionaram como adubo para o momento atual.
Ruptura anunciada: do rap ao rock em novo álbum
Enquanto se prepara para o Lollapalooza, FBC também finaliza os detalhes de uma virada significativa em sua discografia. O artista confirmou o lançamento de um novo álbum de rock para 17 de abril, marcando o que ele considera a “grande ruptura real” de sua trajetória. Este movimento segue a lógica interna de sua obra, onde cada projeto funciona como resposta ou negação ao anterior.
“As pessoas às vezes não veem a conexão, mas há uma linha de raciocínio”, explica FBC sobre sua evolução sonora, que transitou do trap visceral de “S.C.A.” ao balanço envolvente de “BAILE”. “A grande ruptura, real, acontece agora, entre ‘O AMOR, O PERDÃO E A TECNOLOGIA’ e o que vem por aí. É preciso pesquisa e pé no chão para entender que nada é por acaso.” O artista adverte que quem chegar ao seu show esperando o house contemplativo de seus trabalhos recentes deve se preparar para um “choque térmico” das rimas que forjaram seu nome, agora acompanhadas por um boombap carregado.
A missão de tradução cultural de Belo Horizonte para Interlagos
Carregar o sotaque musical de Belo Horizonte para o palco principal do Autódromo de Interlagos, em São Paulo, é encarado por FBC como uma missão de tradução cultural. O objetivo declarado é fazer com que o público sinta “o cheiro do asfalto mineiro” e compreenda a gramática da rua sob uma nova ótica. O show será, nas palavras do artista, uma oportunidade de exibir a “nova escola de músicos mineiros” junto com a linguagem urbana periférica.
“Quero que as pessoas entendam como é o ‘cria’ de BH dentro do gênero Rap: como falam, onde vivem e o que comem”, afirma FBC. Esta perspectiva territorial ganhou novas camadas de significado após o artista adquirir uma propriedade rural em Três Marias, Minas Gerais, experiência que aprofundou sua conexão com a geografia, o relevo e o clima que moldam a cultura musical de seu estado.
Milagre Dos Peixes como bússola sonora e guia ancestral
Questionado sobre suas influências fundamentais, FBC não hesita em eleger “Milagre Dos Peixes”, de Milton Nascimento, como o “álbum da minha vida” no momento atual. A obra serve como uma ode à ancestralidade mineira e funciona como bússola para sua própria produção. “Ele me faz voar, escorregar e levitar sobre as montanhas de Minas”, descreve o artista sobre o disco.
Esta referência não é meramente simbólica. A experiência de viver mais próximo da roça permitiu a FBC compreender de forma visceral a origem da inspiração que sempre permeou sua música. O desafio agora, segundo ele, é transportar essa essência para o contexto urbano e massivo de um festival como o Lollapalooza, criando uma ponte entre a paisagem mineira e o concreto paulistano.
A logística de um espetáculo grandioso em meio à transição criativa
Preparar um show com as dimensões da Big Band para o Lollapalooza enquanto finaliza um álbum que representa uma guinada radical em sua carreira exige um equilíbrio delicado. FBC aborda este período como um “encerramento de ciclos e o nascimento de novas eras”, onde a disciplina de estúdio se encontra com a energia ao vivo. O artista enfatiza que, apesar da mudança de gênero anunciada para o próximo álbum, o show do festival será uma celebração de toda sua trajetória, incorporando elementos de suas diversas fases.
A apresentação no Lollapalooza Brasil acontece nos dias 20 a 22 de março, inserindo FBC em um line-up que inclui nomes internacionais como Peggy Gou e Turnstile, além de artistas nacionais como Entropia. O evento consolida o festival como principal palco da música alternativa no país e representa um marco na carreira do artista mineiro, que vê o palco não como ponto de chegada, mas como plataforma para diálogos musicais mais amplos.
O que emerge da conversa com FBC é a imagem de um arquiteto sonoro que compreende sua arte como ferramenta de emancipação tanto estética quanto social. Seu projeto no Lollapalooza, assim como a transição para o rock anunciada para abril, refletem uma busca constante por novos territórios expressionais, sempre ancorada na geografia humana e física de Minas Gerais. Esta jornada do asfalto de Belo Horizonte às frequências experimentais do rap nacional—e agora ao rock—continua a desafiar categorizações fáceis, provando que a música periférica pode, de fato, operar como tecnologia de ponta para traduzir experiências locais em linguagem universal.

