Após uma década dedicada exclusivamente ao value investing no mercado de ações brasileiro, a gestora Velt Partners anunciou uma mudança estrutural em sua estratégia. A empresa, que gerencia aproximadamente R$ 2 bilhões, principalmente de investidores estrangeiros, decidiu que o universo de companhias abertas no Brasil que se encaixam em seus critérios de investimento tornou-se excessivamente limitado para sustentar seu modelo de negócios.
Mercado de capitais brasileiro não atende mais critérios de qualidade
Mauricio Bittencourt, sócio-fundador da Velt, explicou ao Brazil Journal que a transformação do mercado brasileiro nos últimos cinco anos reduziu drasticamente o número de empresas com o perfil que a gestora busca. “Estamos atrás de geração de valor empresarial em negócios de alta qualidade e bem administrados,” afirmou Bittencourt. “Obviamente não há nada de errado em comprar por R$ 10 e vender por R$ 15, mas não é o nosso diferencial.”
Transição ocorre com equipe reduzida e comunicação transparente
Durante este período de transição, os fundos de ações da Velt continuarão sendo gerenciados pela equipe atual, que passou por uma redução significativa de cerca de 25 para dez profissionais. Bittencourt optou por comunicar os clientes sobre a intenção de mudança mesmo antes de definir completamente as novas estratégias, priorizando a transparência no relacionamento com investidores.
Foco permanece em equities brasileiras com novas modalidades
Embora as novas estratégias ainda estejam em fase de definição, Bittencourt adiantou que continuarão ligadas a equities no Brasil, possivelmente incluindo investimentos privados ou instrumentos como crédito conversível em ações. A decisão marca uma ruptura com o modelo que o gestor praticou por três décadas, mas que ele considera necessária diante das condições atuais do mercado.
Concentração de capital estrangeiro revela desafio do mercado local
A composição do capital sob gestão da Velt ilustra um dos desafios do mercado brasileiro: enquanto a maior parte dos R$ 2 bilhões vem de investidores estrangeiros, no Brasil quase todo o patrimônio administrado pertence ao próprio fundador. Esta dinâmica reflete as dificuldades de atrair capital doméstico para estratégias sofisticadas de value investing em um mercado com opções limitadas.
Processo decisório enfrentou resistência emocional e técnica
“A necessidade de mudar foi uma constatação difícil, porque é o que faço há 30 anos,” reconheceu Bittencourt. “Mas dadas as condições de mercado, ficou claro que é o que tem de ser feito.” A declaração revela o conflito entre a expertise acumulada em uma metodologia específica e a adaptação necessária às realidades de um ecossistema financeiro em transformação.
A mudança estratégica da Velt Partners sinaliza um momento de inflexão para o value investing tradicional no Brasil, onde a combinação entre qualidade empresarial, governança adequada e valuation atrativo em companhias abertas tornou-se uma equação cada vez mais difícil de resolver. A adaptação da gestora pode inspirar outras casas especializadas a repensarem seus modelos em um mercado que exige cada vez mais flexibilidade e criatividade na alocação de capital.

