As seguradoras estão acelerando a incorporação de inteligência artificial em seus fluxos de trabalho, e os resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 deixam claro que a tecnologia já não é mais um experimento, mas sim uma engrenagem central para a produtividade. Gigantes do setor como The Hartford, Liberty Mutual, UnitedHealth Group e Travelers reportaram ganhos operacionais diretos provenientes de sistemas de IA, que vão desde a automação da subscrição até o processamento em tempo real de sinistros e autorizações. O movimento sinaliza uma mudança estrutural no mercado segurador, onde a eficiência e a velocidade de análise de riscos se tornam diferenciais competitivos críticos.
The Hartford reduz tempo de subscrição com IA
A The Hartford é um dos exemplos mais claros de como a IA pode transformar a rotina dos subscritores sem retirar o poder de decisão humana. Durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre, a administração da seguradora revelou que os recursos habilitados por IA já estão permitindo que atividades de subscrição sejam concluídas em uma fração do tempo anterior. Na prática, os profissionais ganham mais horas para se dedicar ao relacionamento com agentes e corretores, o que amplia o fluxo de propostas qualificadas.
“A equipe continua concentrada em uma subscrição disciplinada e na seleção de oportunidades que ofereçam retornos ajustados ao risco atrativos em um ambiente cada vez mais competitivo. Continuamos investindo em recursos habilitados por IA que aumentam a eficácia da subscrição, proporcionando acesso mais rápido a insights sobre riscos diretamente nos fluxos de trabalho dos subscritores”, afirmou Christopher Swift, CEO da The Hartford. Ele destacou que os subscritores seguem responsáveis pelas decisões finais, mas agora contam com ferramentas que oferecem insights mais profundos e aumentam a consistência da subscrição.
Os números comprovam o acerto da estratégia: a The Hartford registrou lucro líquido de US$ 1,3 bilhão no segundo trimestre, alta de 31% na comparação anual, com receita total de US$ 7,26 bilhões — um crescimento de 8%. O resultado sugere que a IA está atuando como um multiplicador de eficiência em um momento de aumento da concorrência.
Liberty Mutual adota IA generativa como plataforma corporativa
A Liberty Mutual está indo além dos pilotos isolados e adotando uma abordagem corporativa para a IA. A seguradora deixou claro que a inteligência artificial não é tratada como uma iniciativa separada, mas sim integrada diretamente às plataformas e fluxos de trabalho existentes. A tecnologia está sendo usada para melhorar insights de subscrição, acelerar processos de sinistros e atendimento, além de apoiar a eficiência operacional em todas as áreas.
“A inteligência artificial é uma parte importante desse trabalho, mas não como uma iniciativa isolada. Estamos incorporando a IA às nossas plataformas e aos nossos fluxos de trabalho para melhorar os insights de subscrição, acelerar os processos de sinistros e atendimento e apoiar uma maior eficiência em todas as áreas”, explicou Timothy Sweeney, CEO e chairman da Liberty Mutual.
A seguradora também está reforçando a governança sobre a tecnologia, com ênfase em validação de modelos, proteção de dados e responsabilização humana. Esse cuidado é essencial, especialmente no mercado segurador brasileiro, onde a regulação exige rastreabilidade e transparência nas decisões automatizadas. A Liberty Mutual reportou receita de US$ 13,3 bilhões e lucro líquido de US$ 2,6 bilhões no trimestre, atribuindo o desempenho à combinação de diversificação de portfólio, subscrição disciplinada e execução operacional turbinada por IA.
UnitedHealth mira processamento em tempo real de autorizações
No segmento de saúde, a UnitedHealth Group está levando a IA para o centro da operação. A empresa informou que a tecnologia já está presente em praticamente todas as interações com prestadores e consumidores. A IA é utilizada para oferecer insights preditivos a profissionais de atendimento, identificar beneficiários que precisam de suporte proativo, automatizar sinistros complexos e melhorar a troca de dados entre planos de saúde e prestadores.
O objetivo mais ambicioso, no entanto, é alcançar 80% de processamento em tempo real das autorizações prévias até o fim de 2027. Isso significa criar um processo amplamente automatizado que reduza as trocas administrativas entre prestadores e planos de saúde, melhorando a experiência tanto de médicos quanto de pacientes. “A implementação da IA e de outras tecnologias avançadas é uma área de foco fundamental e prioritária em toda a UnitedHealthcare”, afirmou Timothy John Noel, CEO da unidade UHC.
A UHC registrou receita total de US$ 112 bilhões no segundo trimestre, com lucro operacional de US$ 8 bilhões — uma alta anual de 55%. A automatização de processos burocráticos, como a autorização prévia, tem impacto direto na redução de custos operacionais e na satisfação dos usuários, algo que também ressoa fortemente no mercado brasileiro, onde a demora em autorizações é uma das principais queixas dos consumidores de planos de saúde.
Como a IA melhora o índice de sinistralidade? O caso Travelers
A Travelers oferece um exemplo prático de como a IA pode impactar métricas financeiras centrais para seguradoras. Executivos da empresa atribuíram parte do aumento de 0,5 ponto percentual no índice de sinistralidade subjacente de sua operação de seguros empresariais justamente às inovações e investimentos em IA. Mas como isso funciona na prática?
A resposta está nas ferramentas de IA para extração de dados de propostas. Em vez de um subscritor precisar digitar e interpretar manualmente cada informação de um formulário, o sistema consegue extrair os dados automaticamente, preencher rapidamente as informações de subscrição e aplicar regras avançadas de análise de risco. O resultado é uma geração de cotações mais rápida e precisa, o que reduz a exposição a riscos mal precificados e, consequentemente, melhora o índice de sinistralidade.
“Os nossos resultados continuam refletindo um progresso constante no campo da inovação, à medida que muitas das iniciativas que compartilhamos começam a gerar frutos — desde melhorias nos produtos até o impacto da IA no processamento automatizado de sinistros”, disse Alan Schnitzer, CEO da Travelers. A empresa registrou lucro líquido de US$ 2,2 bilhões no trimestre, ante US$ 1,5 bilhão no mesmo período do ano anterior, com receita de US$ 12,2 bilhões.
O movimento das seguradoras americanas com IA não é uma tendência passageira. Os dados mostram que a tecnologia está gerando ganhos mensuráveis de produtividade e eficiência financeira, e a tendência é que esses investimentos se intensifiquem. Para o mercado brasileiro, o caminho apontado por essas gigantes sugere que a adoção de IA em subscrição, sinistros e atendimento será cada vez mais um requisito competitivo, e não um diferencial opcional. A pergunta que fica para as seguradoras locais é: quanto tempo até que o processamento em tempo real e a automação inteligente se tornem o novo padrão de mercado?

