Bancos mostram piora da inadimplência no 3T26 mesmo com Desenrola

Programa de renegociação não impede alta dos calotes; bancos restringem crédito e juros altos agravam o fluxo de novas dívidas.

Levantamento aponta que expectativa de inadimplência subiu tanto para pessoas físicas quanto para empresas no terceiro trimestre de 2026.
Destaques
  • A inadimplência piorou no terceiro trimestre de 2026 apesar da continuidade do programa Desenrola de renegociação de dívidas.
  • O programa ataca o estoque de dívidas, mas não impede que novos empréstimos se tornem problemáticos devido aos juros elevados.
  • Bancos projetam que os índices de calote podem voltar a subir no quarto trimestre quando os efeitos das renegociações se dissiparem.

O terceiro trimestre de 2026 trouxe um sinal de alerta para o mercado de crédito brasileiro: mesmo com a nova fase do programa Desenrola em andamento, os bancos reportam uma piora generalizada da inadimplência. Dados levantados junto às instituições financeiras indicam que a expectativa de calotes voltou a subir tanto no segmento de pessoas físicas quanto no de empresas, contrariando a expectativa de alívio que o programa de renegociação de dívidas deveria proporcionar. O movimento acende um debate sobre a eficácia de medidas focadas no estoque de dívidas quando o fluxo de novos endividamentos continua pressionado por juros elevados e aperto nas condições de oferta.

Cenário de crédito para pessoa física: restrição e inadimplência em alta

No crédito para consumo, a avaliação dos bancos é clara: a oferta ficou mais restrita no segundo trimestre de 2026 e deve encolher ainda mais entre julho e setembro. A principal justificativa é a menor tolerância ao risco por parte das instituições, que passaram a exigir garantias mais sólidas e a reduzir prazos de financiamento. Mesmo com um mercado de trabalho ainda aquecido e com taxas de desemprego historicamente baixas, o que poderia suavizar o aperto, os dados mostram que a percepção de risco se sobrepõe aos fundamentos positivos.

O programa Desenrola, que está com renegociações abertas até 31 de agosto, tenta atacar justamente o estoque de dívidas de consumidores de baixa renda. No entanto, a nova rodada do programa parece não ter conseguido reverter a tendência de deterioração dos indicadores de curto prazo. Os bancos apontam que, embora as renegociações aliviem temporariamente o fluxo de caixa dos devedores, a geração de novas dívidas continua em ritmo acelerado, impulsionada pelo crédito rotativo do cartão e pelo cheque especial, cujos juros seguem entre os mais altos do mundo.

Por que a inadimplência piora mesmo com o Desenrola?

A resposta está na diferença entre estoque e fluxo. O Desenrola atua sobre dívidas já vencidas, oferecendo descontos e prazos alongados. Isso tira temporariamente os calotes das estatísticas de inadimplência, mas não impede que novos empréstimos se tornem problemáticos. Com a taxa Selic mantida em patamar restritivo para conter a inflação, o custo do crédito novo permanece elevado, e as famílias que saem do programa não necessariamente recuperam capacidade de pagamento suficiente para evitar novos atrasos. O resultado é uma inadimplência que se realimenta: o banco restringe crédito, o consumidor formalizado recorre a fontes mais caras, e o ciclo de inadimplência recomeça.

Empresas também sentem o aperto

O cenário não é melhor para o segmento corporativo. Os bancos reportam um endurecimento nas condições de oferta de crédito para empresas no segundo trimestre, com projeção de manutenção ou até agravamento no terceiro trimestre de 2026. O aperto atinge tanto o capital de giro quanto linhas de investimento, afetando principalmente pequenas e médias empresas, que dependem mais fortemente do sistema bancário para financiar suas operações.

Entre os fatores mencionados pelas instituições estão o aumento da aversão ao risco diante de um cenário macroeconômico incerto e a necessidade de enquadramento nas novas regras de provisionamento. A política monetária restritiva do Banco Central encarece o custo de captação dos bancos, que repassam esse custo para as empresas via spreads maiores. Com margens comprimidas e demanda doméstica moderada, muitas empresas têm encontrado dificuldade para honrar compromissos financeiros, o que reforça o movimento de restrição de crédito.

Juros elevados como pano de fundo

Ao contrário do que ocorreu em ciclos anteriores de aperto monetário, o Banco Central não deu sinais de que pretende flexibilizar a política de juros no curto prazo. A inflação, embora sob controle, ainda apresenta núcleos resistentes, especialmente no setor de serviços. Com isso, a Selic deve permanecer em nível elevado ao longo de todo o segundo semestre de 2026, prolongando o aperto nas condições financeiras.

Para o consumidor final, isso significa que o crédito continuará caro e seletivo. Para os bancos, a estratégia defensiva de reduzir a exposição ao risco deve persistir, priorizando clientes com histórico de baixo risco e elevando as taxas para os demais. O resultado prático é a exclusão de uma parcela significativa da população do mercado de crédito formal, justamente o público-alvo do Desenrola.

Perspectivas para o fechamento de 2026 e o papel das renegociações

A continuidade do programa Desenrola até o fim de agosto pode ajudar a conter os indicadores de inadimplência no curto prazo, especialmente se houver adesão em massa de devedores com dívidas de menor valor. Entretanto, sem uma alteração estrutural na dinâmica de juros e na geração de renda, o alívio tende a ser temporário. Os próprios bancos, em seus relatórios internos, já projetam que os índices de calote podem voltar a subir já no quarto trimestre, quando os efeitos das renegociações começarem a se dissipar.

O mercado de crédito brasileiro enfrenta uma encruzilhada: as medidas de curto prazo amenizam a foto mensal, mas não tratam das causas profundas do endividamento familiar e da fragilidade do fluxo de caixa das empresas. A expectativa é que o quarto trimestre de 2026 seja um teste decisivo para avaliar se a combinação de política monetária restritiva e programas de renegociação será suficiente para evitar uma escalada mais grave da inadimplência, ou se será necessário um novo conjunto de estímulos fiscais e regulatórios para desafogar o crédito no Brasil.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.