A Inpasa, maior produtora brasileira de etanol de milho, deu um passo decisivo em sua jornada de profissionalização ao anunciar a contratação do experiente banqueiro José Olympio Pereira. Ele será o primeiro membro de um conselho consultivo que está sendo montado pelo controlador e chairman, José Odvar Lopes, conhecido como ‘Seu Zé’. O movimento ocorre em um momento de crescimento exponencial da empresa, cuja receita líquida saltou de R$ 1,7 bilhão em 2020 para impressionantes R$ 22,8 bilhões no ano passado.
Estratégia de profissionalização em meio a crescimento recorde
A entrada de José Olympio, com vasta experiência em instituições financeiras de peso como Credit Suisse e J. Safra, não é um evento isolado. Ela faz parte de um plano mais amplo para estruturar a governança corporativa da Inpasa, que hoje apresenta um EBITDA de R$ 7,3 bilhões e um lucro líquido de R$ 5 bilhões. A necessidade de uma governança mais robusta ficou evidente após o fim abrupto, em outubro passado, de uma joint venture com a Amaggi para construir três usinas em Mato Grosso, um projeto de R$ 6,9 bilhões. O episódio ilustrou publicamente os desafios da empresa em estabelecer e manter parcerias de grande porte.
O caminho interrompido rumo ao IPO
A trajetória da Inpasa no Brasil, iniciada em 2018, tinha um plano de negócios original de três anos que culminaria em uma oferta pública inicial (IPO). A ideia era replicar no país o modelo de sucesso implantado no Paraguai, onde opera desde 2007, que garantia margens EBITDA de 20% e líquidas de 10%. Contudo, os resultados brasileiros superaram todas as expectativas, com margem líquida atingindo 44% no primeiro ano e 40% no segundo. Com uma geração de caixa robusta, capaz de financiar seus próprios investimentos, a urgência por um IPO desapareceu aos olhos do controlador.
A divergência na precificação do negócio
Além da autossuficiência financeira, uma discordância sobre a valorização do modelo de negócios afastou a Inpasa do mercado de capitais. Enquanto os bancos de investimento, em 2018, sugeriam múltiplos próximos aos das usinas de cana-de-açúcar (cerca de 8x), a tese interna da empresa defendia que o etanol de milho e seus subprodutos, como o DDG para ração animal, eram muito mais lucrativos e mereciam um múltiplo de 14x. Para Seu Zé e sua equipe, o mercado na época não soube precificar adequadamente a inovação e a eficiência do modelo.
Expansão acelerada e domínio do mercado
Oito anos após sua entrada no Brasil, a Inpasa consolidou-se como a líder absoluta do setor. A capacidade de esmagamento de grãos da empresa chegou a 13 milhões de toneladas por ano, com cinco usinas em operação no Centro-Oeste e uma produção anual de 6,2 bilhões de litros de etanol. A expansão continua em ritmo acelerado: em abril, entrará em operação a usina de Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, um investimento de R$ 1,3 bilhão que marca a estreia da companhia no Nordeste. Mais duas biorrefinarias estão previstas para 2027.
Vantagem competitiva do pioneirismo no etanol de milho
O sucesso da Inpasa está profundamente ligado à visão de Seu Zé como um dos primeiros a apostar no potencial do etanol de milho em um país tradicionalmente dominado pela cana. A empresa colhe os frutos de ter sido a ‘first mover’, aproveitando a transição energética impulsionada pela oferta crescente do milho de segunda safra, que hoje responde por 80% da produção nacional. O volume do grão destinado à produção de etanol explodiu, passando de 1,7 milhão de toneladas em 2018 para 24 milhões de toneladas em 2025.
Fatores estruturais que impulsionam o setor
O modelo do etanol de milho apresenta vantagens estruturais claras sobre o de cana. O capex (gasto de capital) é significativamente menor, e o ciclo operacional é mais ágil, dependendo da disponibilidade do grão safra a safra, sem a necessidade de investimentos pesados em terras próprias. A demanda crescente pelo biocombustível tem incentivado os agricultores a plantar mais, elevando o preço do milho em 70% desde 2018. Além disso, o setor recebeu um impulso regulatório com a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, que elevou o percentual obrigatório de mistura de etanol na gasolina de 27% para 30%. Com a instabilidade geopolítica global, há estudos para ampliar esse teto para 35%.
Nesse contexto, a contratação de José Olympio representa mais do que a adição de um nome de prestígio ao organograma. É um sinal claro de que a Inpasa, já consolidada financeiramente e líder em seu mercado, agora se volta para a construção de alicerces corporativos tão sólidos quanto suas operações. Enquanto o mundo busca alternativas energéticas e o etanol de milho ganha novo fôlego, a empresa se prepara, com uma governança profissionalizada, para capturar as próximas oportunidades de crescimento em um cenário global volátil.

